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domingo, 15 de maio de 2016

A retirada das fraldas


Eram tantas preocupações que não havia me dado conta de que Guilherme tinha completado dois anos e já estava na hora de retirar as fraldas de xixi, pelo menos as do dia. Guilherme sempre teve intestino regular, então isso não era problema, há algum tempo eu o colocava sentado no penico e ele fazia cocô. Mas como eu faria meu filho fazer xixi sem fralda, se eu sabia que ele era autista e não dizia nem uma palavra sequer? Eu estava sozinha, com uma criança, muitas fraldas e um enorme problema...

Comecei do inicio, como todas as mães, comprei cuecas coloridas e de personagens, levava ele a cada meia hora diante do vaso sanitário para tentar fazer xixi, mas não funcionava. Ele me dava sinais de que não gostava daquilo, assim que saíamos do banheiro ele se encostava ao lado do sofá da sala, em pé e ali fazia xixi, na roupa, no chão... meu coração se partia em mil pedacinhos, a grande questão era: Mas afinal, porque ele faz questão de me mostrar que escolheu um lugar para fazer xixi e grita tanto quando fica em frente ao vaso? Me coloquei imediatamente dentro de sua cabecinha autista e tentei encontrar a resposta. Me imaginei incapacitada de falar, com a terrível possibilidade de não conseguir avisar a hora que sentisse vontade de fazer xixi, claro! Estava aí o grande problema, eu iria molhar minha roupa, ficaria nervosa, minha extrema sensibilidade faria com que eu sentisse dor e então eu gritaria muito, o que me levaria a uma crise e por consequência tudo viraria um caos...

Olhei para o Guilherme, ultrapassei seus olhos e rapidamente conclui que ele queria me mostrar que precisava de um local seguro para urinar, mais seguro que suas fraldas, isso seria uma troca justa para uma pequenina pessoa que ainda não tinha o dom da palavra. Minha consciência me dizia: pensa mamãe, você está aí para isso, eu passei alguns dias com isso na cabeça, imaginando se daria certo levar um penico para cima e para baixo só para que ele não sentisse medo, definitivamente isso estava fora de cogitação...
Certo dia estava mascando chicletes, um que vem em pote e devido a minha ansiedade em função da situação acabei com aquele pote mais rápido do que deveria. Comi o último do potinho e o “cleck” da tampa foi como um estalo na minha mente, claro! O pote. Mostrei o pote para o Guilherme, expliquei que aquele era um pote mágico de xixi e que ele cabia até mesmo no meu bolso, que jamais ficaríamos sem ele e até dentro do carro poderíamos usá-lo se fosse necessário. Perguntei a ele se queria tentar e ele me sinalizou que sim. Disparou meu coração, eu estava prestes a tentar algo que se desse errado poderia perder a confiança dele, aquele potinho passaria a ser parte da minha vida.
Tirei a fralda, botei uma cueca e ele foi brincar. Logo escutei aquele gemido e vi ele pulando e segurando as calças. Corri, saquei meu pote e ele fez xixi, minha emoção foi tanta que não aguentei, comecei a chorar, ele me olhou e começou a rir e então eu ri também e ele começou a chorar, nos abraçamos e eu disse: tu conseguiu! Ele então sorriu e me trouxe uma paz que não posso descrever.
Desde aquele dia tive que ficar grudada nele cada segundo de minha vida por cerca de um mês, não demorou e ele passou a fazer xixi no vaso, ainda carregamos o pote no carro por um tempo, mas logo ele passou a se divertir fazendo xixi em árvores e depois passou a se segurar até encontrarmos banheiro.

Nesta época estávamos em fase de adaptação com uma terapeuta que “treinava” crianças autistas, mas eu nem imaginava que era isso que ela fazia. Até então eu achava que ela iria me ajudar. O primeiro contato dela com “meu pote” foi um desastre. Ela disse que eu era maluca, que Gui iria crescer, se tornar um adulto, ir a um banheiro cheio de homens, abrir a calça e então fazer xixi no seu pote por ser incapacitado de usar o vaso sanitário. Não preciso dizer que sumi da vida dela rapidamente. Foi então que tive certeza de que nada adianta ter muito conhecimento teórico se a pessoa não entende, antes de mais nada, de seres humanos. Guilherme continuou usando seu potinho, estabelecendo sua relação de confiança e hoje, aos seis anos vai ao banheiro sozinho, inclusive fechando a porta e vestindo as calças, lavando as mãos. Foram alguns anos ensinando, mas nunca desisti.

A mensagem que deixo para hoje é que nem sempre é fácil ver a verdadeira natureza de uma pessoa. As pessoas olham para você e tiram suas próprias conclusões, mas Deus sabe a trajetória de cada um para ir em busca de seus objetivos e realizar seus sonhos. E se você olhar de perto entenderá que cada ser humano, invariavelmente, tem uma linda história de vida para contar.

Basta sabermos olhar nos olhos...

Beijos cheios de luz e paz. Mamãe.








17 comentários:

  1. Lindo o texto,lição de vida. Amo vocês.

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  2. O meu ate faz o xixi mas o totó não tem jeito ele já esta com 5 ANOS.

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  3. Oi, meu nome é Naiara e tenho o Hugo de 2 anos e 7 meses. Suspeito que ele seja Asperger e tenho consulta marcada com o pediatra quinta feira para começar um diagnóstico. Como foi o seu processo para diagnosticar??? Se puder me envie um e-mail naiarasribeiro@yahoo.com.br

    Tem sido angustiante....
    Obrigado

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    1. Naiara, foi demorado e passou por cinco neurologistas. Tem no blog um post com o título "a descoberta do autismo em nossas vidas", leia e depois me mande um e-mail se você quiser tirar mais dúvidas, podemos conversar. Grande beijo cheio de luz e paz.

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  4. Fantástica a sua história me vi representada.Foram muitas as vezes que tive que usar de subterfúgios para ensinar o meu filho autista, Lauriston, hoje com 19 anos. Muitos que o conheceram, quando criança, se surpreendem com seu desenvolvimento. A jornada foi longa e cheia de obstaculos mas vejam aonde chegamos. Um jovem autista que sai de casa as 6:40 hs para a faculdade, Tecnologia em Jogos digitais e depois vai para o trabalho onde cumpre uma jornada de 4:00 hs na vaga destinada a jovens com necessidades especiais. É um vencedor!

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    1. Que linda história de vida. Muito obrigada por dividir aqui no blog, enchendo mais ainda os corações com fé e esperança. Meu filho ainda tem seis anos, mas tenho certeza que com amor poderá ir muito longe. Parabéns pela dedicação e pelas vitórias do seu filho. Grande beijo.

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  5. Que lindo texto. Amei sua firma criativa do pote mágico. E o mais fantástico foi como quebrou o paradigma de que "se não fizer no vaso agora...será o adulto do pote" kkk Sou TO e fico angustiada com essas técnicas comportamenrais engessadas que ainda vencem as relacionais interativas e humanas. Crianças com autismo tem interesses, adoram humor e coisas engraçadas e poderosas como O POTE MÁGICO. Parabéns

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  6. Muito obrigada, nada além de amor, amor, amor e muito amor. Tudo dentro da realidade dele. Grande beijo.

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  7. Show!!! Adorei! Passei por muito perrengue para tirar as fraldas! Gosto quando podemos dividir dicas e conquistas...

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    1. Que bom que vc conseguiu também. Acho que esta é uma das fases mais difíceis das nossas vidas de mães espciais. Grande beijo.

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  8. Olá,tenho um pequeno autista de grau leve tbm, foi diagnostícado com 2 anos. Mais no meu coração de mãe desde os sete meses ja sabia que tinha algo diferente com ele.
    Agora ele esta com 2 anos e 10 meses. Faz fono, e vai para a escolar regular normalmente. Estou entrando nessa fase do desfralde, e tem sido mt difícil.
    Adorei essas dicas, e vou tentar algo do genêro. Toda vez que levo ao banheiro, ele fala " não qué xixi banheio" e em seguida se esconde no cantinho da sala e faz. Me vi no seu texto.
    Estou amando seu blog.

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    1. Exatamente como eu. Aos sete meses desconfiei. Parabéns mamãe por toda dedicação e amor. Beijos de luz e paz.

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    2. Exatamente como eu. Aos sete meses desconfiei. Parabéns mamãe por toda dedicação e amor. Beijos de luz e paz.

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  9. No meu caso meu filho tem 3 anos não fala ainda é nem s e comunica com gestos nem com a cabeça. Quando falo " xixi xixi " ele põe a mãozinha no pintinho e sorri mas não faz e não dá sinais nenhum q quer fazer xixi ou cocô. Se ele tá pulando vendo TV e quer fazer ele faz pulando mesmo. Não sei mais o q fazer me ajudem ? :-( queria saber anti q ele usasse o vaso

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    1. Talvez ainda não seja o momento dele. Cada um tem seu tempo. Quem sabe daqui uns meses vc tenta de novo. Deixe ele se sentir seguro mais um pouco com as fraldas e recomece do zero. Pode ser que ajude. Beijos

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