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terça-feira, 17 de maio de 2016

A triste realidade do preconceito


Aconteceu uma situação conosco que me levou a refletir sobre este importante tema na vida de pais de autistas. Saímos cedo de casa porque Guilherme tinha sessão de equoterapia.


Atravessamos a cidade para ele andar a cavalo por trinta minutos e, na volta paramos no Mc Donalds do aeroporto para fazer um lanche antes de ir para a escola. Para nossa surpresa a lanchonete estava cheia, na fila havia mais de dez pessoas na nossa frente, logo pensei: vou pedir preferência, afinal, meu filho é autista. Mas fui forte e resolvi tentar, fui distraindo Gui, conversando, pegando no colo, mostrando o ambiente, cantando e ele conseguiu se manter à espera de sua vez de fazer o pedido. Foi então que decidi pedir preferência na fila de retirada do lanche, mas recuei e resolvi tentar de novo lutar e esperar a nossa vez.
Para pais de crianças típicas isso pode parecer uma coisa muito normal, mas para nós, pais de autistas, isso é imensamente dramático, grandioso e surreal, só nós sabemos como é difícil, doloroso e por vezes impossível esperar por um simples lanche na fila de um estabelecimento.


Sim, nós estávamos vencendo a batalha.
Quando o lanche finalmente veio, fomos retirar nossos canudos e guardanapos, escolhemos uma mesa mais afastada e abrimos nossos lanches, dois Mc lanches feliz, o dele com nuggets de frango, porque era o que sua seletividade alimentar permitia comer. Mas depois de tantas batalhas já vencidas por aquele guerreiro... pensa comigo: acordou cedo, andou a cavalo, rodou mais de 70km, enfrentou duas filas, recebeu todos os tipos de estímulo, ele não estava com coragem de sentir a textura quente do nugget de frango nas mãos e pediu que eu lhe desse na boca. Cortei  carinhosamente os pedacinhos e fui colocando na boquinha dele.


Com a graça de Deus ele comeu. Mas para minha tristeza havia uma moça em uma mesa próxima que cutucou o colega ao lado com o braço balançando a cabeça negativamente e ambos ficaram comentando. Como eu estava muito perto pude ouvir ela falar que eu “não deixava o menino se desenvolver”.
Se ela soubesse, se  ela sequer pudesse imaginar que todo dia é uma batalha para ele se alimentar, que a medicação anti-convulsiva lhe deixa com a garganta sensível e ânsia de vômito, que ele já foi alimentado por sonda, que ele já desmaiou de fome, que já deixei de dormir por isso, que hoje em dia cada dia é uma vitória... Se ela soubesse que cada pessoa é única e especial como ela é e que olhares atravessados doem na alma, que todos merecemos respeito, que todas as mães querem o melhor para seus filhos... Se ela soubesse que eu sou eu, que minha vida é lutar, que minha vida é sonhar e que eu rodei quilômetros e mais quilômetros criando coragem para entrar naquela lanchonete sozinha com meu filho sem saber se daria certo e tudo o que eu precisava era de paz...
Mas, o mundo não é assim, as pessoas te julgam pelo que enxergam, geralmente elas dizem que seu filho não tem “cara de autista” ou pior, perguntam se o autismo tem cura sem sequer se dar conta que só existe cura para doença e que autismo não é doença e sim característica.

Talvez o que falte seja um pouco de respeito, respeito pelas diferenças, respeito pelo amor, pelo autista, pelo negro, pelo pobre, pelo obeso, pelo cadeirante, pelo excluído, somos todos filhos de Deus, reflexo do mesmo espelho refletidos em milhões de pessoas e, se nos aceitarmos como realmente somos em nossa essência veremos um mundo lindo que se encaixa perfeitamente. Se olharmos com cuidado veremos que cada um de nós, invariavelmente, tem algo grandioso a contribuir.

Um grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe.
kenyadiehl@gmail.com
www.facebook/kenyatldiehl.com

Para reflexão, deixo meus queridos leitores com a crônica de meu amigo Felipe Gervásio que se chama “Pré-Conceito”:


"Agir com pré-conceito é um jeito

De revelar-se ignorante num instante

Em que se é levado pelo entusiasmo e posto de lado

Todo o fator racional, esquecendo que ser diferente é normal,

A exemplo dos dedos das mãos.

É abster-se de atribuir a devida importância

A cada individuo dentro da sociedade

Não implicado no crédulo, na cor da pele ou na idade

Dos catadores de recicláveis, aos barões

Dos que sobrevivem de ações sociais

Aos que faturam mensalmente milhões

Todos somos filhos da mesma pátria mãe gentil

Porém poucos tem o privilégio de gozar das riquezas que gera o Brasil

O pré-conceito em si, traz uma carga de medo

Medo do diferente, medo do que não é tido como normal

Medo de encontrar semelhanças no alvo

A que se profere esse mal

Medo do novo do desconhecido, do oculto, do escondido

Medo de externar e sofrer, medo de retrair e sofrer

Afinal, todo medo é pertinente...

Mostra que embaixo de diversas capas

Todos são gente, como a gente."


9 comentários:

  1. Simplesmente fabulosa sua narrativa, pessoas são diferentes umas das outras em suas características e percepção de mundo, o autista tem o seu universo singular. Infelizmente, o pré-conceito existe e sempre existirá, é o câncer que corroê as entranhas da nossa sociedade. Fico lisonjeado em ter minha humilde crônica enriquecendo essa história fabulosa de superação.

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  2. Felipe, sua crônica deu luz para meu texto. Fiquei muito feliz em ter seus pensamentos partilhados na minha história de vida. Muito obrigada por dividir comigo essa linda mensagem.

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  3. Felipe, sua crônica deu luz para meu texto. Fiquei muito feliz em ter seus pensamentos partilhados na minha história de vida. Muito obrigada por dividir comigo essa linda mensagem.

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  4. Kenya, meus parabéns pelas narrativas.
    Tens uma veia literária em que ao mesmo tempo que descreve com muita clareza, carrega de emoção quem lê.
    Fez-me correr lágrimas de compaixão e me senti muito grato em ver esse amor verdadeiro pelo Gui.
    Hoje, um pouco velho, tenho plena ciência de que sou Aspie não diagnosticado e sofri muito para entender e me adaptar a este mundo.
    Quem me dera ter tido uma mãe como você. Teu filho têm muita sorte e vai te ser eternamente grato.
    Desejo sinceramente que este teu blog se projete em um livro.
    Tem tudo para ser referência de amor e assunto no tema.
    Votos de muito Sucesso, Paz e Luz!

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  5. Pude sentir daqui a energia das tuas palavras, a sinceridade e a leveza com que você escreveu. Meu coração se preenche de luz e amor quando vejo pessoas boas e sinceras como vc, porque sinto, mesmo de longe, a vibração positiva que essas palavras tão ricas produzem. Não há assinatura na mensagem, mas peço que Deus te abençoe por ser essa pessoa maravilhosa que sei que és. Luz e paz.

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  6. Me deixei envolver pelo seu relato e infelizmente as pessoas ainda tem muito preconceito em relação ao autismo,eu tenho irmão autista e meus pais e eu tb passamos por isso,mas o amor que ele recebe é compensador,hoje ele é um Asperger de quase 36 anos que leva uma vida normal e é muito querido.

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    1. Sim querido ainda existe muito preconceito e geralmente vem de pessoas que nem sabem o que se passa em seus próprios corações. Seu irmão é um Asperger de sorte em ter uma família com tanto amor. Parabéns meu querido,estamos juntos na mesma luta.

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  7. Sempre sera assim... alguém sempre saberá a melhor forma de criar e cuidar do filho dos outros, todos tem uma teoria, um Conselho, uma crítica. Mas são raros os que tem apenas a vontade se nós ouvir. Quantas vezes ouvi da família que cuido do meu filho da forma errada, que ele é mimado, e super protegido. Mas quanto a dele a tiram cinco minutos pra ler um artigo sobre autismo, e tentar entender como as coisas são... nenhum. Porque o mais fácil é apontar os dedos e fechar o coração. Mas filhos especiais são dados à mães especiais.

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  8. A falta de conhecimento geral o preconceito.

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