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segunda-feira, 23 de maio de 2016

As crises de ansiedade


Todos sabemos que autistas tem crises de ansiedade, que do nada eles começam a gritar, chorar, espernear, muitas vezes se bater e por vezes é até impossível fazê-los parar. Não podemos imaginar a dor que assola seus corações.

Guilherme sempre foi um bebê muito calmo, mas com o passar do tempo as coisas foram mudando. Conforme ele foi crescendo fui aprendendo a identificar seus sinais. Meu filho estava longe de ser uma criança birrenta. Ao contrário, ele sempre foi tomado com o coração cheio de amor, pureza e alegria, algo que somente quem o conhece de perto pode falar. Um verdadeiro anjo, mas que como todo autista tem extrema sensibilidade nos ouvidos, no paladar, nos cheiros que sente, no toque da pele, nas cores que vê. Eles precisam ser respeitados em suas singularidades.
Entendi, no decorrer de nossa convivência, que trazer Guilherme para o meu mundo não era exatamente fazer ele viver a vida como as demais pessoas, mas sim mostrar o mundo com os meus olhos a ponto de lhe dar confiança para que ele sentisse segurança suficiente para dizer quando algo o incomodasse, nem que fosse com linguagem de sinais, afinal de contas ele somente conseguiu ser verbal aos quatro anos e meio.
O principal problema que identifiquei foi que ele se sente muito agitado quando ele se faz entender para as pessoas, mas ao contrário ele não é compreendido. Desde muito novinho Gui tem fascínio por ventiladores, sendo que em outras épocas isso já foi motivo de muito choro e tristeza, cada lugar que tivesse um ventilador tínhamos que sair correndo porque Guilherme começava a gritar e abanar as mãos, o sofrimento era nítido. Então passei a evitar os ventiladores, eu não queria ver meu filho em crise e me recusava a lhe dar hélices para girar e correr o risco de perder meu filho para sempre. Depois de anos de conversa e muitas tentativas ele finalmente superou as crises, mas a paixão permanece. Acontece que aonde ele entra faz questão de mostrar o tal ventilador. Algo que o irrita muito é quando ele mostra o ventilador e logo as pessoas saem dando desculpas como “ah está estragado” ou “hoje não precisa, está frio” ou ainda “vamos ver outras coisas, você não precisa disso”... Ora, ele só está mostrando, quer respostas diretas e precisa ter certeza de que entendemos o que ele quer dizer, mesmo que seja para negar um pedido feito por ele.

Nunca escondi nada dele, quando estamos em algum lugar público e ele começa a se estressar eu procuro identificar o motivo, me aproximo dele, retiro ele rapidamente do ambiente e explico o porque ele entrou em crise, dizendo sempre que havia muito barulho ou muita gente ou demora em excesso e sempre tento convencê-lo de que se formos tentando iremos conseguir. Já aconteceu de ele me pedir para voltar aos lugares que ele teve ansiedade, sempre voltei, algumas vezes com sucesso e outras não.  O importante é que nunca desisti. Já aconteceu também de eu atravessar um shopping inteiro com ele nos braços, chorando, sob os mais diversos olhares, críticas e até palpites diretos de que eu deveria educa-lo em casa. Graças a Deus consegui sair com serenidade na alma, braços fortes de uma lutadora, mesmo com o coração despedaçado, deixei para chorar depois, o momento era de salvar meu filho e lhe dar conforto. Quando a situação se acalmou ele me disse que estava com medo de um balão que ele viu e achou que iria estourar e me perguntou até quando aquilo iria acontecer e eu disse que não tinha importância, o que não poderíamos fazer era deixar de tentar e nunca deixamos, hoje ele vai até ao cinema sem problemas e também adora estourar balões. Mas, nem tudo são flores...


Certa vez Gui teve uma crise de ansiedade na casa da minha mãe enquanto tomávamos café da tarde, chorava muito e não sabia dizer porque, apenas chorava e pedia coisas que não podíamos lhe dar, como objetos que giravam e coisas que são perigosas em mãos de crianças, certamente estava buscando conforto em algo que sua mente não podia lhe acalmar. Pedi licença para minha mãe e fomos embora, meu marido dirigindo o carro e eu no banco no trás com ele, sentado em sua cadeirinha. Segurei sua mãozinha e ele começou a me dizer que estava muito triste e então lhe falei que precisava que se esforçasse, que me dissesse quando algo o incomodasse, que eu estava tentando entender seu pensamento com todas as minhas forças. Quem me vê falando assim com uma criança autista de seis anos acha que estou delirando... mas veja bem, ele me disse em seguida que estava tudo muito estranho, imediatamente me lembrei que minha mãe comprou duas portas para serem trocadas em seu apartamento e que o cheiro da madeira estava super forte tomando todo o ambiente, além de que ambas as portas estavam encostadas na parede, aparentemente sem função. Sim, isso foi suficiente para assustá-lo e desorganizar sua mente, porque era algo diferente do habitual. Isso não acontece quando visitamos as pessoas porque em casas que ele não conhece ele já espera pelo novo, então a situação é completamente diferente.


O que mais tocou meu coração foi que quando identifiquei o problema, expliquei para ele a razão das portas estarem lá, qual o destino que elas teriam e que nossa vida seria sempre essa  constante luta, mas que se nos esforçássemos mais seríamos capazes de transformar isso em algo muito bom, porque pelo menos podemos perceber muito bem os ambientes. Nesse momento Gui, que estava olhando pela janela do carro, olhou para mim, pegou no meu rosto com seus gigantes olhos lavados em lágrimas e me disse “desculpa mamãe eu estava com muito medo”... Choramos feito crianças, abraçados, choramos juntos, choramos alto, com o carro andando, meu marido em seu respeitoso silencio, com sua compreensão de mundo que lhe é peculiar, de um verdadeiro guerreiro que escolheu ficar do nosso lado, muitas vezes confesso que eu lhe disse para partir, mas ele quis ficar e viver essa loucura, essa doce loucura que é ser autista em dobro, porque eu também aprendi a ver o mundo através dos olhos do meu filho amado.
Onde quer que estejamos nosso filho deve
ser sempre prioridade, ser abraçado, compreendido, mesmo que no momento não possamos descobrir o que há, basta que lhes digamos que é ruim sim o que estão sentindo, que faremos de tudo para descobrir, que eles podem confiar em nós, isso já lhes dá ao menos esperança de que estamos tentando saber o que lhes ocorre.

Lembre-se que de nada vale se preocupar com o que os outros pensam quando nossos filhos não estão bem, você só consegue sentir paz de verdade quando aprende a se ocupar, de corpo e alma, do momento presente, porque a experiência se torna tão intensa que não sobra preocupação para o que pode vir depois.
Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe.

kenyadiehl@gmail.com
facebook/kenyatldiehl.com




Um comentário:

  1. Valeu🌺. Muito claro e comprencivoo texto. Será de muita.utilidade para quem Realmente está empenhado em conseguir a tranquilidade de seu filho. Luz e paz🌟🌟🌟

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