Total de visualizações de página

terça-feira, 7 de junho de 2016

Sensibilidade a toques, cheiros, texturas...

Percebi muito cedo que Guilherme era sensível ao toque. Conforme ele foi crescendo essa sensibilidade foi aumentando e atualmente está bem mais controlada, mas ainda necessita cuidados. Preciso estar atenta, observar os ambientes, prever os acontecimentos e ser rápida, muito rápida caso ele se desorganize para que volte a si. Nem sempre é tarefa fácil.

São sutilezas que uma mãe consegue perceber. Os autistas tem caraterísticas que, por mais diferentes que sejam um do outro, existem coisas em comum entre eles, como a sensibilidade sensorial, que varia de forma e intensidade, mas de maneira geral está presente na vida deles.

Quando pequenino Guilherme chorava no carro caso o tênis caísse do pé porque o ar frio entrava em contato com o pé quente e isso lhe gerava muita dor, gritava desesperadamente caso anoitecêssemos na estrada porque as luzes dos postes, ao passar muito rápido pela janela, faziam seu cérebro doer tanto que ele se contorcia de dor. Fazer churrasco até hoje é um problema porque o cheiro intenso da carne assando lhe gera sensações fortíssimas e isso o desorganiza completamente, fazendo-o entrar em transe.

Um carinho, se feito da maneira errada pode doer como uma navalha em sua pele. Atualmente Guilherme gosta muito de abraço e beijo, mas quando percebi, aos dois anos de idade, que ele “não gostava de carinho” e que preferia dormir no berço do que no meu colo eu passei a dormir no berço junto com ele. Sim! Você leu direito! Eu entrava e me espremia na caminha minúscula e ali ficava até que ele pegasse no sono, e não raro meu marido ia me buscar ali quando estranhava minha ausência por muito tempo. Não demorou para que ele se aconchegasse e voltasse a ter um excelente contato comigo. Se meu filho não era verbal, então eu também não era, inventei um jeito de falar com ele, por mais que os médicos dissessem que era errado, fiz o que para mim era certo. E funcionou.

Percebi também que ele usava as mãozinhas com um pouco mais de força para tocar em mim. Então concluí que se ele tinha muita sensibilidade com som, não gostava de etiquetas nas roupas, se incomodava com certos tipos de tecidos, logo o carinho também tinha que ser forte... Passei a fazer carinho sob forma de pressão, a alisar ele com mais força, sua expressão facial foi de total prazer, e a partir daí comecei a fazer com mais frequência, ao ponto de que hoje Guilherme pede por carinho e é carinhoso com as pessoas também.

Certa vez Guilherme caiu na escolinha, bateu o queixo na mesa com muita força, a professora havia me dito que não era nada, mas meses depois percebi que todos os seus dentes da frente haviam amolecido. Peguei referência de uma dentista que diziam ter muito jeito com criança, inclusive com criança autista. Fui confiante, infelizmente criei expectativa demais. Ela falava muito, falava alto, dizia que eu tinha que segurar Gui a força, que autistas gritavam mesmo, que um dia ele ficaria grande e forte e que somente com uma injeção seria possível mexer em sua boca, isso se não fosse necessário lhe arrancar os dentes... Mantive a compostura e fui embora, meu filho já estava com trauma de dentista. Eu tinha que manter a calma e cuidar de seus sentimentos. O que eu sentia naquele momento era secundário.

Em função disso passei dois anos fazendo limpeza de tártaro na boca do Gui em casa, comprei jaleco, mascara, luvas de borracha, ferrinho de limpar e, com toda paciência do mundo, eu fui mostrando para ele que mesmo se doesse logo passava, consegui limpar os dentes dele diversas vezes até ele perder o medo totalmente. Até o dia que ele me pediu para ir a uma dentista de verdade de novo. 

Chegou o grande dia, lá vamos nós, uma linda moça, “totalmente” preparada, educada, querida, mas... Falava alto, que pesadelo! Meu Deus, porque falam sempre tão alto? Enfim, estávamos até indo bem, Gui só precisava de tempo, a coragem estava vindo, ele queria ver o equipamento primeiro, ela pegou o equipamento que joga água e teve a infeliz ideia de jogar um jato de água fria justamente em sua mão. Guilherme gritou tão alto, tão forte, um grito de pânico, de dor intensa... Minha mãe estava na recepção, ela tinha certeza que a Dra havia o pegado a força para limpar os dentes.Sua mão doeu, com água, doeu muito, pode parecer estranho, mas é muito natural isso entre autistas, ainda mais um jato e gelado.
Bom,resumindo, ficamos de novo sem dentista, eu limpando os dentes do Gui em casa e lhe passando confiança novamente.

O que para uma criança comum é rotina para o Guilherme é uma grande aventura como aprender a brincar de massinha de modelar, manusear gelecas e argilas, tintas, pisar na areia com pés descalços.

O importante sempre é acreditar. Se não dá de um jeito tem que haver outro. Gui travou uma luta muito grande até conseguir, a cada desistência eu lhe explicava que fazia parte, não dava muita importância, no fundo eu sempre soube que ele iria conseguir, sempre tive fé.

Fazia questão de mostrar que para mim o que valia mesmo era se estava feliz e essa regra continua valendo. Mas não devemos desistir, o potencial deles é imenso, com uma forma de pensar diferente, se conseguirmos enxergar com os olhos deles podemos descobrir um mundo novo e magicamente interessante.


Nossos filhos são tesouros, os temos sob nossos cuidados, não podemos desperdiçar essa incrível oportunidade de conviver e compreender o que se passa com eles. Aposte tudo, se coloque no lugar dele, sinta como ele sente, veja como ele vê. A vida que temos é um presente inestimável e a companhia de nossos filhos especiais nos dá a oportunidade de nos tornar seres altamente sensíveis assim como eles são, se assim buscarmos ser.

Tudo o que sentimos na pele, eles sentem dez vezes mais do que nós. Às vezes vemos que nossos filhos estão chorando e não sabemos porque. Podemos tentar lhes tirar a roupa toda e colocar outra, pode ser até mesmo a cor  da própria roupa incomodando.Se não for a roupa, pode ser o perfume de alguém, o spray perfumado de ambiente, o barulho de algum tictac de relógio, uma conversa de duas ou mais pessoas que não tem fim, um música que eles sentem saudades de ouvir... Enfim...

Olhe nos olhos do seu filho, busque a resposta no seu coração.

Se seu filho ainda não fala, certamente seu coração falará por ele.

Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe.


facebook/kenyatldiehl.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário