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terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre os interesses restritos dos autistas

O autista, mesmo em grau leve, que não demosntre o seu autismo por estereotipias ou ausência de fala, acaba se entregando pelos interesses restritos, que nada mais é do que focar sua atenção apenas naquilo que lhes agrada e se interessar por assuntos, temas, objetos e movimentos bem peculiares.



Isso é tão importante para eles que quando começam a falar sobre determinado assunto, são capazes de passar horas divagando sobre aquele tema, com uma impressionante riqueza de detalhes. Como um perito conhece seu trabalho, o autista conhece aquilo que domina.
Muitas pessoas não tem tolerância com isso e logo se afastam quando o autista começa a falar... Não é por maldade ou falta de educação, mas os autistas simplesmente não conseguem ficar atentos àquilo que não lhes representa nada. É uma sinceridade extrema, de uma pureza inigualável e admirável que nunca vi em pessoas neurotípicas.
As vezes o que acontece também é a repetição de frases já ditas. Mas porque isso acontece? Tanto em momentos de calma, como de medo ou nervosismo? Porque eles precisam ter certeza de que entendemos o que eles nos disseram, simplesmente pela sua dificuldade muitas vezes de entender o que lhe dissemos, eles podem ter a impressão de que não os compreendemos também.

Certa vez comprei um carro que Guilherme ficou encantado, ele ama carros. Se apaixonou desde o primeiro segundo. Acontece que não tive muita sorte, a central multimídia do carro veio com defeito de fábrica e precisei deixar o carro na concessionária para troca do equipamento apenas após alguns dias da compra.


Nos foi concedido um carro teste drive que tive que utilizar por mais de quinze dias. Logo no primeiro dia Guilherme teve uma intensa crise de choro que não tinha fim. Ele repetia que o carro tinha ido embora e que ele estava muito triste, chorava, chorava, chorava, se deitava e pedia ajuda dizendo que estava triste. Eu tentava lhe explicar que o carro não havia ido embora e que ele não precisava ficar triste. Cada vez que eu tentava lhe consolar ele chorava mais, se deitava no chão... Deixei ele chorar um pouco e fiquei olhando para ele tentando atravessar sua mente autista e entender. De repente um “click” em minha mente! Levantei ele do tapete, pedi que se esforçasse para olhar nos meus olhos, quando consegui o contato visual lhe falei com entusiasmo: “sim!!!!!!! O carro foi embora por alguns dias e isso te deixou muito triste! Eu entendi, é muito triste mesmo, na verdade eu também estou triste!”. Ele foi parando de soluçar, me abraçou devagar e disse: “mamãe me entende”. Foi como um passe de mágica, então entendi a importância de lhes deixar bem claro que os compreendemos.
Um diálogo eficiente com o filho autista necessita envolvimento, entrega e um real interesse pelo que estão dizendo.

Muito embora seja muito difícil para o autista entender entrelinhas, ironias e frases com duplo sentido, eles tem os sentidos super apurados e sofrem muito quando as pessoas fazem de conta que estão lhe ouvindo, eles percebem cada sentimento em nós, mesmo os mais profundos e até mesmo aqueles que nem nós mesmos talvez possamos identificar.

Guilherme se interessa muito por ventiladores, decoração de ambientes, carros, fogueiras, barracas e acampamentos. Atualmente, ele fala de tudo, mantém extensos diálogos, inicia conversas, faz perguntas, é simpático com todo mundo, mas... Quando vê uma criança ele pergunta se ela gosta de ventilador e não importa a resposta ele fala mesmo assim sobre seu objeto de adoração. Se não tiver alguém mediando a conversa, logo a outra criança se desinteressa e sai de perto. Eu sempre entro na conversa quando isso está prestes a acontecer, então eu explico que ele ama ventilador e gosta muito de falar sobre isso, digo que ele é autista e a alegria está feita, muitas vezes eu até ajudo ele a falar algum detalhe do equipamento. Já aconteceu de crianças se encantarem com nossa alegria de viver. Crianças que muitas vezes queriam ir para casa comigo e preencheram meu coração de paz e alegria. Eventualmente, quando percebo que não estamos agradando eu mesma dou conta de conversar com meu filho sobre aquilo lhe interessa, logo depois lhe peço atenção par ouvir o que eu gosto e lhe mostro as alegrias do meu mundo. Assim ele já entende sobre uma porção de coisas da vida, diversos assuntos, computadores e especialmente sobre Deus.

É uma troca constante. Não existe relacionamento perfeito, nenhuma criança, autista ou não, irá ser como os pais ou a sociedade espera. Mas ao se entregar para eles, temos grandes chances de tê-los conosco também.
Uma vez estávamos em uma recepção de pediatria, Gui apontava e fala sobre o ventilador e eu dialogava com ele. Uma mãe que estava ao nosso lado falou que ele tinha ideia fixa e repetia muito, que não havia nada de mais no ventilador, outra mãe concordou. Eu olhei para elas e perguntei se elas já haviam parado para olhar um ventilador girando, elas disseram que não, então respondi que elas naquele momento não olhavam nem para o ventilador e nem para os seus filhos, pois estavam preocupadas com nossa adoração, ao passo que eu estava atenta ao ventilador e ao meu filho ao mesmo tempo. Elas se olharam e se deram conta de que seus filhos brigavam por um pequeno brinquedo e não havia ninguém para orientá-las. Nessa hora elas se levantaram e o médico nos chamou, não olhei para trás, mas tenho certeza de que pensaram no que falei.

Na verdade o autismo me ensina muito mais sobre seres humanos do que propriamente sobre autismo, porque com meu filho eu sei o que é realmente se doar por alguém e ser correspondido com tanta intensidade que esquecemos o mundo ao nosso redor. Eu amo os autistas e sinto que eles me amam também, mesmo os que não conseguem falar, me olham nos olhos e me fazem carinho. Essa troca é mágica. 

Não se preocupe com os outros, se preocupe com seu filho. Uma mãe é capaz de se doar totalmente, mas não consegue aguentar ver seu filho ser ignorado por pessoas desavisadas que não sabem o que é o verdadeiro o amor.

Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe

facebook/ktldiehl.com

Twitter: @KenyaDiehl 


3 comentários:

  1. Final do ano pasado kaio não tinha sido diagnosticado. E o enfeite do shopping era toy story. Kaio ficou louko com um buzz e um wood do meu tamanho. Pediu para coloca-lo no braço e deu um abraço no buzz. Qnd fomos abraçar o wood a moça q trabalhava pegou kaio pelo braço e disse muito brava: não pode. Eu fui bem firme e disse: o q não pode é vc tocar no meu filho. Não te ensinaram antes de vim trabalhar. Ela me explicou q não podia e eu disse. Va chamar o segurança. Qnd ela saiu kaio beijou e abraçou o wood como se abraça o melhor amigo. Esperei o segurança e expliquei o q aconteceu. Qm levou bronca foi ela por não saber lidar com criança. Imagina agora eu sabendo q kaio é autista o q eu faria.
    O testo não tem muito haver com o q relatei. Mas senti muita vontade de dizer. Allena melo

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    1. Eu entendi, tem a ver sim. Sua mente a levou para uma memória de uma paixão dele pelo Woody. E a incompreensão do mundo conosco. Na verdade você ainda não tinha o diagnóstico, mas seu coração já sabia, lá no íntimo, que iria enfrentar. Tomou uma linda atitude de mãe, eu não faria diferente. O que acho mais impressionante é a alegria que nossos filhos são capazes de sentir mesmo diante das maiores tempestades. Amei teu relato Allena. Mil beijos cheios de luz.

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    2. Eu entendi, tem a ver sim. Sua mente a levou para uma memória de uma paixão dele pelo Woody. E a incompreensão do mundo conosco. Na verdade você ainda não tinha o diagnóstico, mas seu coração já sabia, lá no íntimo, que iria enfrentar. Tomou uma linda atitude de mãe, eu não faria diferente. O que acho mais impressionante é a alegria que nossos filhos são capazes de sentir mesmo diante das maiores tempestades. Amei teu relato Allena. Mil beijos cheios de luz.

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