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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Nossa experiência autista no Beto Carreiro World

Sempre desejei sair de férias com meu filho, como toda mãe. Mas nossa história foi construída um pouco diferente das demais. O autismo nos barrou em muitos sentidos nos anos iniciais. Nunca fui de me preocupar com o que os outros pensavam, mas ouvir os gritos do Guilherme quando exposto a situações que fugiam a sua rotina me geravam uma dor tão intensa que eu fui capaz de abrir mão de tudo em prol de sua tranquilidade.

Foram alguns anos respeitando a rotina dele, sem sair de casa e lhe dando segurança. Não tinha férias, não via os amigos e nem os parentes, mas estava construindo uma relação tão intensa com meu filho que eu tinha certeza de que, superando os obstáculos seríamos capazes de conquistar o mundo... Nesse meio tempo eu apresentava a vida para o meu filho através de fotos e filmes, conversava e sempre lhe passei a tranquilidade de estar ao seu lado, demonstrando que eu entendia suas limitações, mas sempre lhe passando a ideia de que era uma questão de tempo para que pudéssemos viver a vida por prazer e não por imposição.

Esperei Gui manifestar sua própria vontade de conhecer um lugar em especial. Através da televisão ele mostrou interesse em ir ao Beto Carreiro, então eu passei a alimentar esse sonho, lhe trazendo todas as possibilidades de alegria e de frustração. Foram alguns meses planejando, até que nas férias do inverno de 2016 criamos coragem de levá-lo para realizar seu grande sonho.Tudo planejado, desde a saída de casa até o retorno para ela. Todas as paradas, planos alternativos caso desse errado. Uma grande estratégia estrutural física e emocionalmente. Montamos um esquema de lhe dizer um dia antes que iríamos ao Beto Carreiro. No dia da viagem dissemos apenas que iríamos a um hotel, pois iriamos dormir no caminho para não o estressar com a viagem. De lá dissemos que iríamos ao parque, mas o deixamos a vontade para ir ao hotel caso quisesse... Música e silêncio planejados para cada momento, sim! Era um plano de mestre para nosso mestre da vida.

Saímos de casa perto do meio dia, Guilherme tranquilo e parceiro como tem sido nos últimos tempos. Viajamos todo o trajeto com calma e ele não parou de cantar, não dormiu, não descansou. Chegamos ao primeiro hotel e ele ficou muito feliz, chegou a abrir mão do parque porque queria ficar no hotel "para sempre". Para evitar uma crise eu fui conversando aos poucos com ele, lhe dizendo que a ideia era interessante, mas que dormir para sempre em um hotel só seria possível quando ele fosse adulto e tivesse seu próprio hotel, não o contrariei, mas também não o deixei idealizar algo que no momento era impossível, com a graça de Deus funcionou!

Viajamos o dia seguinte todo e ao chegar perto de Criciuma Gui só queria ir para o hotel, dizia que tinha medo do parque e que preferia não ir. Eu concordei com ele e fomos ao hotel sem dizer muita coisa. Fizemos um bom lanche, um bom banho e só então eu peguei o celular e entrei no site do parque, comecei a olhar com meu marido e ele por conta própria se interessou. Pronto, meu filho queria novamente ir ao Beto Carreiro.

Chegamos lá antes do meio dia, sol, dia lindo, tudo colorido. Pegamos a fila preferencial para compra de ingressos e para nossa surpresa tanto eu como meu filho pagamos só meia por conta do autismo. Fui informada que ele tinha preferência nos brinquedos e que não precisaríamos pegar fila. Alugamos um carrinho para deslocamento, aonde ele podia passear sentado, admirando as atrações do parque. Ele tem hipotonia muscular e não aguentaria caminhar os cinco mil passos que caminhei durante todo o passeio.

Logo de cara ele não quis ir em brinquedo algum, disse que estava com medo, sua voz saía baixinho, sua cabecinha estava baixa e ele timidamente me disse que não queria tentar. Parei embaixo de uma árvore e lhe disse que eu estava ali para viver um sonho junto com ele e que não havia problema algum se ele não quisesse brincar, poderíamos assistir aos shows, passear no zoo e fazer um delicioso lanche, mas que se ele mudasse de ideia seria bem divertido. O olhar de sofrimento dele sumiu imediatamente, saímos a passear com o carrinho e de repente ouvi um alto e sonoro "quero pipoca". Meu coração se encheu de alegria, meu marido saiu imediatamente a buscar a pipoca e Gui no seu majestoso silêncio observava as outras crianças brincarem, eu respeitei o tempo dele,

Ficamos passeando até que ele demonstrou vontade de ir ao pedalinho. Tivemos um contratempo de um funcionário mal informado que nos colocou coletes de segurança imediatamente ao chegarmos, mas não nos deu prioridade. Eu não me intimidei,. expliquei para ele que autistas não suportavam esperar em multidões, arranquei os coletes e saí como uma fera. Expliquei para o Guilherme que esse era um bom exemplo de como precisávamos lutar para conscientizar as pessoas que ainda não entendem o que é o autismo. Gui, com sua doçura entendeu.

Em seguida quis entrar em um brinquedo que era um barquinho que ele pilotava sozinho na água. Pedimos prioridade na fila e montaram um barquinho para ele. Um dos funcionários o orientou e ele saiu navegando sua independência piscina afora. Eu, do lado de fora, quando dei de olhos com meu marido não aguentei e desabei em um choro entre soluços e lágrimas que eu não podia segurar. Era um misto de alegria, gratidão, medo, vitória, uma sensação que eu ainda busco explicação, mas creio que nunca terei, porque foi mágico demais. Gui saiu dali vitorioso, orgulhoso e com um indescritível brilho no olhar.

Depois disso criou coragem para o carrossel, o teleférico, chamado carinhosamente por ele de "trapézio", roda gigante, trenzinho do velho oeste e muito mais... Cada lugar desses eu chegava na frente e dizia: "meu filho é autista, ele precisa passar na frente". De repente, Gui passou a chegar nos lugares e dizer: "eu sou autista, não sei esperar"... Encontrei pessoas maravilhosas, funcionários e visitantes que se entregaram para nos proporcionar momentos de alegria e que ficarão para sempre em nossos corações. Gui puxava assunto com as pessoas, perguntava seus nomes e logo se apresentava dizendo que era o Guilherme e que era autista.

Senti uma alegria no meu filho que não imaginei que poderia sentir tão cedo, que foi a alegria de ser quem ele é, de bater no peito e dizer com orgulho que é autista, que precisa de prioridade, que pensa diferente, mas que tem uma vida incrível para viver. Vi em meu filho a alegria de dizer sem medo quem ele é, de ultrapassar barreiras e enfrentar seus medos, foi exposto a grandes alturas, barulho, velocidade, gritos, multidão, calor e frio. Por onde passou encantou corações, me encheu de paz, de orgulho. Quando falo em orgulho me refiro a sua plena felicidade, enfrentando seu mundo e vindo para o meu, permitindo que eu entrasse no seu.

Chegou um momento que cansei, precisei parar para fazer um lanche, Gui entrou em desespero, a praça de alimentação foi demais para ele. Lá tinha um carrossel de dois andares, cheio de luzes e com uma música psicodélica... Comecei a comer, até que ele chorando olhou para mim e disse: "mamãe sou autista, preciso ir ao carrossel". Larguei meu lanche ali e fui correndo com ele, pedi preferência, entramos pela saída e em questão de segundos estávamos no segundo andar do carrossel. Passei mal obviamente, a reação dele foi inesperada para mim, mas no final saímos comemorando.

No final da tarde Gui disse que queria voltar ao hotel, saímos antes de todos, mas com a certeza de dever cumprido. Guilherme encantado, afirmando diversas vezes que havia conseguido. Eu fui caminhando em direção à saída, com exatamente a mesma sensação que tive quando fomos embora da UTI por três vezes em sua vida, a sensação de liberdade e gratidão que só uma mãe especial pode experimentar.

Tudo na vida é possível, desde que tenhamos fé e possamos compreender que existem vários caminhos para o mesmo fim. Precisamos de calma e serenidade para olhar para os lados e vermos como podemos agir. Não descobri ainda melhor forma do que amor e doação.

Chegamos em casa após cinco dias. Sorrimos, choramos, brincamos, eu, estabanada como sempre, bati a cabeça, Gui caiu de joelhos, meu marido riu de tudo isso e juntos fizemos um lindo triângulo de superação. Cada um deu sua parte melhor e somando tudo podemos resumir nossa superação em apenas uma palavra: AMOR.

Gui descobriu por sua própria experiência que é muito bom explorar o mundo, mas que não existe sensação melhor do que voltar para casa.

Beijos cheios de luz e paz. Mamãe.

kenyadiehl@gmail.com

facebook/kenyatldiehl







12 comentários:

  1. Olá, sou mãe de um autista e estou planejando esta mesma viagem com o meu filho. Porém, o pai estará trabalhando e infelizmente não irá conosco, é aí que aumenta a minha aflição, vou com minha irmã, seu marido e seu filho. Minha maior dúvida é: o que foi necessário levar para comprovar que seu Guilherme é autista?
    Entre muitas indagações, acabo por aqui. Agradeço já sua ajuda.

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    1. Olá minha flor. Não precisa levar documento nenhum comprovando. É só pegar a fila de necessidades especiais na compra do ingresso e dizer que ele é autista. Vc e ele só pagam meia. Nos brinquedos também, é só avisar que logo passam a frente. Me chame no face que te dou meu whats para conversarmos sobre suas demais dúvidas. Será um prazer se eu puder lhe ajudar. Beijos de luz

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    2. Olá minha flor. Não precisa levar documento nenhum comprovando. É só pegar a fila de necessidades especiais na compra do ingresso e dizer que ele é autista. Vc e ele só pagam meia. Nos brinquedos também, é só avisar que logo passam a frente. Me chame no face que te dou meu whats para conversarmos sobre suas demais dúvidas. Será um prazer se eu puder lhe ajudar. Beijos de luz

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  2. Estou muitooo emocionada. Muito obrigado. Precisava ler isso hoje. Beijos amiga sou a Allena do grupo.

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    1. Que bom Allena, muito feliz em saber que gostou. Beijos de luz

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  3. "mamãe sou autista, preciso ir ao carrossel"...
    Tipo, n sei nem o que falar sobre isso...

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  4. Me emocionei com este lindo testemunho. Deus nos ajuda a perseverar, Kenya. Meu Rafael tem 5 anos e foi diagnósticado com síndrome de asperger. Ele sai e faz tudo quase que 90 por cento que uma criança neurotipica. O desafio é as pessoas respeitarem quando ele tem as suas dificuldades, pois cobra a tal normalidade. Julgam sem manha, mimo enfim... E vamos perseverando e acreditando, porque para nossos filhos as limitações podem ser superadas sim, através do amor e em primeiro lugar entregando o nosso caminho ao Senhor. Deus abençoe sua família!

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    1. Nossa, o caso do teu filho é exatamente como o meu. Parabéns mamãe pela força e perseverança. Obrigada pela mensagem. Deus te abençoe infinitamente. Beijos de luz

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    2. Nossa, o caso do teu filho é exatamente como o meu. Parabéns mamãe pela força e perseverança. Obrigada pela mensagem. Deus te abençoe infinitamente. Beijos de luz

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