Total de visualizações de página

sábado, 2 de julho de 2016

O nascimento do Guilherme, lutas, perdas e ganhos

Eu estava na metade da faculdade de Direito quando não pude mais esperar para ter meu filho. Algo dentro de mim me chamava para a maternidade e nem mesmo uma promissora carreira de Promotora de Justiça me tirava do meu objetivo de ser mãe. Todos à minha volta me diziam para esperar, mas eu não queria, decidi ter meu filho e assim foi.

Apenas um mês depois de parar o anticoncepcional engravidei.  Na época eu fazia estágio no setor de acordos de um famoso escritório de Direito em Porto Alegre e era bem reconhecida, tive até um texto publicado no jornal da empresa, mas logo que souberam da gestação fui despedida. Meu objetivo se mantinha firme e forte, fiquei feliz porque eu queria mesmo me dedicar para o que eu esperava que fosse a melhor fase da minha vida.

Infelizmente foram sete meses de medo e angustia, internações e muitas ameaças de perda. Logo na nona semana de gestação tive uma hemorragia. Eu estava deitada quando senti algo quente escorrer para debaixo de mim e era realmente muito quente. Corri para o banheiro, antes mesmo de chegar em frente a pia olhei para trás e vi um rastro de sangue, aonde eu chegava perto ficava tomado da cor vermelha. Fui capaz de dar o maior grito de toda minha existência. Eu não poderia perder meu já tão amado e esperado filho. Entrei em estado de choque por perda de sangue logo após perceber que eu estava diante de um possível aborto.


Acordei no dia seguinte, zonza, perdida e com muito medo. O "sossega leão" que a médica me deu foi forte demais. Após acordar me levaram para a ecografia, fraca e com a afirmativa dos médicos de que eu havia perdido minha gestação. Ao iniciar o exame logo escutei aquele coraçãozinho batendo rápido, super acelerado. Eu pulei da maca, vibrei, comecei a chorar. Metade do meu útero era tomado de sangue e a outra metade tinha um coração batendo. Quando a médica veio conversar comigo ela estava com a agenda na mão me dizendo que havia marcado a curetagem para dali a dois dias. Segundo ela, a gestação se levada adiante seria um grande problema, se eu não o perdesse durante o período gestacional eu que poderia perder a vida por alguma complicação. Ela tentava me convencer dizendo que eu era muito jovem e poderia tentar de novo. Mas minha intuição era maior, eu sabia que ali estava um grande guerreiro. Decidi seguir, se fosse para perder a vida do meu filho, então que fosse decisão de Deus, na minha cabeça eu já estava vivendo um milagre.

Durante toda a gravidez fiquei mais no hospital do que em casa, além da perda de sangue que não cessava tive ameaças de parto desde as vinte semanas, infecção renal e insuficiência respiratória. Mas eu tinha certeza de que Guilherme nasceria com vida. Fui muito medicada, eram remédios fortes e eu receava que a própria medicação prejudicasse meu bebê. Me restava apenas ter fé.

Em uma das noites que passava em casa, meu marido dormia tranquilamente enquanto eu me revirava na cama. Senti o líquido quente descer novamente. Corri para o banheiro, mas desta vez era transparente como água. Imediatamente telefonei para a Obstetra que insistiu em dizer que eu havia urinado na cama. Eu sabia que não, estava bem acordada, com a típica dor nos quadris dos sete meses e do nada aquela água escorreu. Ela me pediu para ir ao hospital, mas não acreditou que a bolsa havia rompido. Me mandou de volva para casa. Passei cinco dias com a bolsa rompida e meu guerreiro ali dentro, lutando pela vida.

Era cinco horas da tarde, eu estava em casa, com pressentimento ruim resolvi arrumar tudo. Estava com 33 semanas e cinco dias. O nascimento do Gui estava previsto para 8 de janeiro do ano seguinte. Ainda era 26 de novembro... Senti uma dor forte no baixo ventre, liguei para o meu marido que veio correndo para casa. Minha mãe tentava me acalmar dizendo que apenas havia chegado a hora, mas eu sabia que era o início de muita luta e dor. Cheguei no hospital com quarenta graus de febre e uma dor tão forte que eu tinha episódios de desmaio e consciência. Tiraram sangue, fizeram eco, map e tudo o mais que havia a disposição. Eu havia tomado umas quantas injeções de Surfactante, um acelerador de amadurecimento do pulmão do bebê, mas eu sabia que a situação havia se agravado. Eu sentia que havia muita luz em volta de mim, mas mesmo assim sentia um medo que não sei descrever. Fui levada para o banho, baixou a febre para trinta e nove graus e o inevitável aconteceu. Fui levada para a sala de cirurgia. A essa altura eu não sabia mais o que se passava a minha volta, apenas pedia que salvassem meu Guilherme. A anestesista furou minhas costas sete vezes até conseguir efetivar a anestesia, acabou sedando meu pulmão e precisei de respirador artificial.

Do lado de fora, com roupa hospitalar e máscara estava meu marido, encostado na parede quando a Obstetra foi falar com ele. A decisão estava em suas mãos. Eu estava com uma horrível infeção que se espalhava rapidamente. Ou ele escolhia salvar o bebê, mas meu sangue se contaminaria e eu não resistiria ou eles me davam os antibióticos naquele exato momento, mas o bebê seria fortemente atingido e então o perderíamos. Flávio ficou estático, não conseguiu responder e então tiveram que correr e fazer o parto.

No relógio marcava 23:36, nasceu meu bebê, iluminado por Deus, pesando 2,025 kg e medindo 46cm, cabeludo, rosado no rosto, com apgar 8/9 e reclamando muito. Mas assim como minha placenta, ele estava com as mãos, braços, pés e pernas da cor verde. A insuficiência respiratória apareceu logo em seguida do choro, foi administrado oxigênio e em seguida entubado no CPAP. Só pude vê-lo novamente no dia seguinte, na UTI. Logo de cara fui chamada para uma conversa e a médica me esclareceu que ele não tinha capacidade de respirar sozinho... Meu coração foi arrancado de mim, aquele ser minúsculo que deveria estar na minha barriga estava cheio de fios, esparadrapos e com um tubo atravessado da boca até o pulmão, sem se mover. Não perdi minha fé, mas me enfraqueci a ponto de conhecer o desespero.

Ainda naquela mesma tarde ele teve mal convulsivo, treze convulsões que entraram uma dentro da outra e quase lhe tiraram a vida com apenas algumas horas após o nascimento. Pela noite recebemos a confirmação de que ele havia contraído meningite e o prognóstico não era nada bom. Vi meu chão sumir debaixo dos meus pés, mas nessa hora resolvi levantar a cabeça, eu não podia me entregar. Gui fez doze dias de antibiótico, mas no décimo terceiro dia perceberam que não havia surtido efeito, a febre tinha invadido seu corpo e ele precisou iniciar um novo tratamento ainda em coma porque a dose de ataque de anticonvulsivo que deram para sedar as convulsões o induziram a um coma não intencional.

Nesse meio tempo ele ficou fraco, perdeu peso, precisou de transfusão de sangue, seu organismo rejeitou o leite e ele fez um cateterismo que rompeu no ombro quase fazendo perder seu braço esquerdo porque estava em vias de gangrenar, seguido de uma hemorragia pulmonar que durou dias.

No décimo sexto dia tive a bênção de pegá-lo no colo pela primeira vez, toda a equipe médica preocupada, dizendo que eu teria de ensiná-lo a mamar, afinal, ele só havia recebido alimentação via umbilical dentro da minha barriga e igualmente pela encubadora através de sonda umbilical. Para surpresa de todos e não minha - eu tinha certeza de que ele iria conseguir - ao sentir seu rosto em meu corpo, mesmo cheio de fios pendurados pelo corpo, sua cabecinha veio descendo até meu peito e ele sugou fortemente, sugava e engolia cada gota de leite que lhe cabia, até que tiveram que tirar ele de mim porque seu organismo não estava preparado para processar aquela quantidade de leite. Minhas lágrimas molharam todo o seu cabelo naqueles rápidos minutos que ele esteve comigo. Ali tive a certeza de que ele iria vencer a batalha.

Durante aqueles dias que ele esteve na UTI recebemos um padre que o batizou, uma ordem de registrar nosso filho em cartório, apesar de eu querer esperar, mas a médica do plantão sem a menor piedade me disse que eu precisaria registrar o nascimento para fazer o atestado de óbito. Aquelas palavras me atingiram fortemente e por uns dias deixei o pânico tomar conta de mim...

Com um mês de seu nascimento tivemos a glória de sua alta hospitalar, com a ordem de que ele ficasse apenas em casa, não recebesse visitas, não fosse pego no colo por quem quer que fosse além dos pais e eu tinha que, a cada meia hora, contar quantas respirações ele dava por minuto. Eu aceitei, saímos do hospital as dez da noite, com medo que nos tomassem ele de volta. Ao chegar na porta de casa nos ajoelhamos com ele nos braços e choramos a Deus nosso choro de gratidão. Sabíamos que o desafio era grande, não tínhamos a menor ideia de quais sequelas ele teria entre tantas que foram previstas pelos médicos. Nossa fé era tanta que passava os limites da racionalidade. Foram meses de luta. sem comentar com ninguém tudo que nos havia ocorrido, apenas as pessoas extremamente próximas souberam de parte da situação. Nos reservamos ao que chamamos de nosso casulo e dali enfrentamos muitas barreiras para voltar a viver. Gui ficou até os três meses com peso de prematuro, depois seguiu com seu desenvolvimento normal até um ano e um mês quando a epilepsia voltou...


Guilherme teve muitas complicações com sua saúde nesses seis anos de vida, como hipotermia, hipoglicemia, hipotireoidismo, epilepsia, hipotonia muscular, hérnia hiatal e algumas pneumonias. Esteve na UTI por mais duas vezes, mas sempre com serenidade no olhar, sorriso no rosto e uma luz tão intensa que levou nossas vidas para o caminho da paz. Nunca deixei que meu medo passasse para ele e sempre tivemos um acordo de cuidar um outro. Na realidade ele sempre foi mais forte que eu e me ensinou exatamente tudo que eu sei hoje sobre o sentido da vida.


O autismo quando diagnosticado não foi surpresa para mim, eu sentia que esse dia chegaria, porque a palavra autismo esteve na minha cabeça por longos meses e eu sabia que seria preparada para essa doce, única e encantadora missão.

Meu recado é para que você que está lendo encha sua mente com tudo o que é bom, digno, correto, puro e agradável. No mais Deus dá conta de nos dar conforto e esperança.

Beijos cheios de luz e paz. Mamãe.

kenyadiehl@gmail.com

facebook/ktldiehl.com








6 comentários:

  1. Sem palavras....Emocionada com a sua história e com esse guerreirinho..Grande beijo e que DEUS os abençoe infinitamente..

    ResponderExcluir
  2. Estou encantada com suas histórias de amor e determinação!!! Família linda Deus abençoe sempre!!! 🙏🏻

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deus te abençoe e te ilumine. Muito obrigada pela linda mensagem. Bjs de luz

      Excluir
  3. Nossa, sem palavras, lágrimas nos olhos.... parabéns por sua força e dedicação. Qdo a gente pensa que não vai aguentar, vê relatos como esse de força e superação e nos faz seguir ainda mais confiantes....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dividir nossa história pode trazer luz para quem está no início. Obrigada pelo carinho, Deus te abençoe.

      Excluir