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sábado, 20 de agosto de 2016

O autista não diagnosticado

O sonho em ter um filho forte e saudável é da natureza de qualquer ser humano que gere em seu ventre um novo ser humano que venha ao mundo. São muitas expectativas, sonhos e programações. Uma entrega constante. Pais e mães abrem mão de seus próprios desejos para proporcionar ao filho um futuro próximo ao que almejaram para eles mesmos. De repente aquele ser que foi tão idolatrado apresenta características diferentes das demais crianças da idade dela...


Diante de tal frustração os pais tem duas opções, ou procurar ajuda e diagnosticar o filho a fim de procurar tratamento e enfrentar um luto temporário e depois seguir em frente ou ignorar e acreditar que seu filho irá passar por aquela “fase” numa boa. Quando a segunda opção é escolhida, o que não é raro de acontecer, existe um longo caminho de sofrimento e dor para todos os envolvidos.

Em alguns casos a recusa em aceitar a procura pelo diagnóstico só atrasa o início do tratamento e faz com que um precioso tempo seja desperdiçado e importantes funções cognitivas e motoras sejam perdidas, pois como se sabe, quanto mais cedo se inicia a intervenção das terapias, melhor é a inserção da criança autista no convívio social com satisfação e alegria. Nesses casos há o que chamamos de regressão e a criança piora notavelmente.

O que considero também muito grave e triste são aqueles casos que passam despercebidos, como se o autista tivesse superado a “fase” e deixado de ser autista. Então os pais comemoram, vibram e se dão por satisfeitos em não ter buscado ajuda, considerando que seu filho tenha sido apenas uma criança esquisita, um adolescente quieto, que não fazia amizades e tinha interesses restritos. Mas dentro de seu coraçãozinho o que se passava? Quanto lhe custou a dor da solidão de um vazio, de uma personalidade nunca desvendada? Quantas vezes se sentiu solitário e incompreendido em um mundo frenético tentando se adaptar?

Será mesmo mais fácil gritar para o mundo que seu filho não é asperger? Ou tentar entrar no mundo dele, ignorar os rótulos impostos pela sociedade? Viver o amor que você escolheu ao querer ter um filho e assumir a responsabilidade real da maternidade é um caminho que resulta sempre em menos dor e mais amor.
Um asperger não diagnosticado vive em um mundo isolado em que as coisas não lhe fazem sentido, as broncas não surtem efeito, o mundo gira rápido demais, até mesmo as sacolinhas de supermercado podem ter um barulho torturante dentro de seu cérebro sensível... Conviver com irmãos pode ser complicado, cheiro de xampu, bater de panelas, televisão alta.

Chega a adolescência, aquele que cresceu como sendo “normal” parece agora intolerante, isolado, estranho. Geralmente inteligente, brilhante, de uma notável capacidade de organização, mas um serio problema de comunicação. Cumprir ordens pode ser complicado, perder boas oportunidades parece ser regra, o mundo começa de novo a lhe engolir, assim como foi no início da vida, mas desta vez sem o colo dos pais e com a obrigação de se manter vivo por sua própria capacidade.
São anos de luta, uma trajetória de altos e baixos em que nem eles conseguem se entender, por vezes utilizam de artifícios para conseguir se comunicar e serem aceitos e depois vem a dor, o sofrimento, o arrependimento. Difícil entender os próprios sentimentos, quem dirá os sentimentos dos outros, por vezes passam por seres frios e insensíveis, quando na verdade estão explodindo em um turbilhão de emoções de uma vida inteira não cuidada e não trabalhada.

Ainda há a sinceridade extrema, algo que machuca quem não os compreende, mas que é de uma doçura que só eles sabem ter. E a literalidade peculiar de verdadeiros aspergers que levam tudo ao pé da letra e passam por maus momentos em rodinhas e grupos onde por vezes são mal vistos e mal interpretados.
O bom é que autistas são seres especiais que cedo ou tarde encontram uma luz, um norte, um caminho. Chega um momento em que de uma forma ou outra a porta se abre. Se não foi possível na infância descobrir e tratar e houve uma vida de isolamento e dor, tem uma hora que eles acabam despertando e se encontrando por conta própria. Seu grau de inteligência e percepção faz com que eles mesmos se percebam autistas e se identifiquem nesta condição, buscando ajuda, tratamento e adequação. Ou simplesmente por conta própria buscam se entender, se ajustar e se enquadrar em funções e relacionamentos com pessoas que sabem que são de acordo com sua personalidade.
Geralmente pessoas assim tem histórias de vitória e sucesso, que terminam muito bem. Falo por experiência própria, por conhecer adultos e mais adultos que nunca foram tratados quando pequenos e hoje sabem que são e vivem muito bem. Volta e meia vejo noticias informando que o numero de autistas vem aumentando no mundo. Ai eu te digo, não é o numero que autistas que vem aumentando e sim o numero de diagnósticos.

Não basta repreender um filho e querer coloca-lo nos padrões a todo custo. Talvez o padrão dele seja único. Quem sabe o sonho dele seja outro. Será que sua agressividade não está escondendo um medo de algo que ele tenta mas não consegue expressar? Sempre digo que criar filhos não é difícil, educar é que é a parte mais complicada, porque para isso precisamos enxergar a essência do ser, entender que nossos filhos não precisam obedecer cem por cento das vezes. Às vezes precisamos lhes pedir desculpas, afinal também erramos com eles. É uma troca. Não somos peças de um jogo em que cada um tem uma função que nunca se inverte. Somos construídos pelo que presenciamos, pelo que sentimos e construímos juntos.

Certamente você esta se perguntando se eu escritora sou uma autista não diagnosticada... Ou não tratada...

Uma pessoa não tem autismo, ela é autista. Porque autismo não é algo que se porte e sim algo que faz parte do seu ser. 

Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe.


facebook/kenyatldiehl

Obs.: Edição feita em 27/03/2017: Sim, sou autista diagnosticada ainda na infância. Editei o texto porque quando o publiquei originalmente ainda não havia contato publicamente sobre eu estar dentro do espectro.

5 comentários:

  1. Kenya,minha flor! Vc? É nosso anjo de luz♥

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  2. Aos poucos vou lendo todos seus texto e me surpreendo cada vez mais com o conteúdo que leio,faz um excelente e abençoado trabalho em prol desses seres divinos que são nossas crianças, amei esse texto, muito obrigado!

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    1. Muito obrigada pela leitura e pela linda mensagem. Luto cada vez mais por um mundo melhor para nossos amados autistas. Beijos de luz

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