Total de visualizações de página

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Adaptação ao mundo

Você já teve a sensação de não estar adaptado a este mundo e sentir que faz parte de outro planeta? A grande maioria das pessoas já se sentiu assim, incluindo crianças, jovens, adultos e idosos. É como se de repente nada se encaixasse e você estivesse sozinho, sem compreensão e sem saber para aonde ir.

No universo autista isso é muito comum de acontecer. Na ansiedade de ver seus filhos dentro de um padrão ditado pela sociedade, alguns pais cobram de seus filhos uma adaptação para a qual ele não está preparado. Comportamentos que ele não pode ter, não está amadurecido ou simplesmente não quer porque não se sente bem. Pessoas próximas acusam as mães de deixar que seu filho se perca,  não dão aquela resposta que elas esperam... E como isso dói.

Diariamente somos expostos a situações das quais não nos sentimos confortáveis. Os colegas de trabalho podem parecer incompreensíveis, o mundo parece te esmagar. O que fazer? Não há como mudar o mundo. Quem muda somos nós. Isso não quer dizer deixar de ter a personalidade que temos, mas sim mudar a forma como vemos as coisas.

Agora imagine isso na cabeça do autista, que é infinitamente mais sensível. Eu sempre digo que não adapto meu filho ao mundo, mas sim adapto o mundo a ele. Obviamente não tenho a pretensão de mudar ninguém, mas sim filtrar os lugares que ele vai, as pessoas com quem ele convive e acima de todas as coisas, respeitar as vontades dele, sempre o ensinando e educando para ser um homem que sabe respeitar, mas também sabe impor o devido respeito que merece.

O autista no bem da verdade coloca cada um em seu devido lugar. Na visão deles não existe falsidade, não existem aparências, eles são o que são, como são e isso não muda. Jamais um autista de verdade vai conseguir esconder o que sente. Ele pode até ser educado, mas não vai sentar e conversar com alguém por apenas uma convenção social. Para eles não existe pessoas menos ou mais importantes, menos ou mais bem vestidas, com menos ou mais dinheiro. Autista gosta de quem é de verdade, de quem tem sentimento, de quem se entrega e sabe se doar verdadeiramente para o próximo. Uma pessoa que ama um autista consegue conversar em silêncio com ele e ainda assim entender perfeitamente seu mundo.

O que vejo é um mundo com predominância de pessoas que tem um egoísmo intrínseco, que é capaz de cobrar o outro porque aquele não se comportou como ele gostaria. Ou como minha psicóloga sempre diz que “o maior de desejo de todo ser humano é mandar e ser obedecido”. Sinto falta de pessoas que gostam de sinceridade, que desmarcam um compromisso sem ter que dar desculpas. Porque o que mais me machuca não é não ser atendida na hora que eu gostaria, mas ter que olhar nos olhos de uma pessoa, saber que ela não está sendo sincera e ainda assim não poder falar nada, afinal, as regras de convivência dizem que é melhor assim.

Meu lindo filho autista me ensina diariamente que não há sensação melhor no mundo do que um abraço bem apertado com um longo suspiro. Que dar gargalhadas quando todos choram ou chorar quando todos riem não é feio, é apenas real, é o nosso mundo, sem querer ofender ninguém. Nós somos assim pura e simplesmente.

Considero de vital importância manter os tratamentos, conhecer o mundo como ele é, mas nunca tirar essa essência pura e verdadeira de ser quem somos. Verdadeiros, felizes, sinceros, apegados a coisas simples, ao cheiro da terra molhada, ao caminhar lento das nuvens em um dia de sol. Meu filho me ensinou a olhar para o alto. 

Ele sempre vê detalhes de construções altas, luminárias de coberturas, pássaros em ninhos, ele vê coisas que geralmente a maioria das pessoas não vê. Me recuso a lhe pedir para olhar para as pessoas quando na verdade ele está vendo o mais belo da vida, os detalhes que fazem toda a diferença.

O autismo é assim, ele nos ensina a ser de verdade, a comemorar cada detalhe, a sentir todos os cheiros, gostos e sons em sua pureza e intensidade, sem maldade, a conhecer a essência das pessoas e suas intenções. Se engana quem pensa que o autista não entende entrelinhas, a maioria deles percebe muito antes da pessoa até mesmo falar. Mas seu lindo universo prefere calar ao responder determinados questionamentos tomados de segundas intenções.


Nunca cobre do seu filho que ele olhe para quem ele não quer, que ele responda para quem o chama insistentemente, pode ter certeza que ele percebeu e, do jeito dele, ele respondeu. Talvez a pessoa que se direcionou a ele seja tão superficial que nem se deu conta da singeleza de sua resposta.

Se liberte da vergonha, do querer ser igual, do querer treinar para seguir um padrão. Olhe profundamente para o autista com os olhos da alma e verás um paraíso abençoado por Deus.

As vezes um simples olhar é tão profundo que é mais suficiente do que muitas palavras. Olhe nos olhos.

Beijos de luz e paz. Mamãe.


facebook/kenyatldiehl

Twitter: @KenyaDiehl

Nenhum comentário:

Postar um comentário