Total de visualizações de página

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

E quando os autistas batem em si mesmos?

Um assunto delicado, situação que não tive a tristeza de passar, talvez por ter barrado no início, por ter tido sorte ou por ter sido abençoada por Deus. Não sei, só sei que é muito triste e cruel ver uma criança se agredir, se machucar até sangrar, muitas vezes se mordendo, arrancando os cabelos, batendo a cabeça, se arranhando e até provocando queimaduras e cortes. É de cortar o coração, dói demais e os pais se vêm muitas vezes impotentes diante dessa situação que foge do controle de qualquer pessoa que convive com o autista que não pode fazer nada para ajudar senão contê-lo com luvas ou capacetes.

Quando Guilherme demonstrou os primeiros sinais do autismo ainda muito pequenino eu barrava qualquer comportamento que lhe prejudicasse, mesmo que isso fosse politicamente errado, porque sempre tive em mente que eu precisava educa-lo assim como qualquer criança. Uma criança com comportamento típico quando tem uma atitude inadequada a gente impede que ela continue, então com o autismo não seria diferente. Não demorou e Gui começou a se agredir, eu prontamente impedi lhe segurando as mãos e dizendo não, assim como foi com todas as demais estereotipias e comportamentos repetitivos.

Quando o autista se sente desconfortável ou desorganizado mentalmente ele busca esse equilíbrio através das estereotipias ou também da autoagressão, é algo que lhes traz conforto emocional ou físico, como uma sensação de preenchimento de um vazio que ninguém pode compreender. Uma tendência que eles têm de fazer isso pelo seu próprio instinto e por isso a necessidade de barrar no início. Você já experimentou morder sua mão em um momento de desespero, quando não pode responder um desaforo por exemplo? A sensação é de alívio, de descarga, de plenitude, é algo que vicia, é o ombro que ninguém pode te dar, a palavra que nunca vem. Mas não é saudável então como temos consciência não fazemos. Uma alternativa é ensinar o autista a alisar sua mão, trocar a sensação de bater ou morder por alisar-se, auto estimular-se de maneira carinhosa. Como é bom receber uma gostosa massagem, na pressão ideal dos dedos, da nossa própria mão então não tem preço. Isso é muito saudável, libera hormônios do prazer e acalma.

Nós pais de crianças pequenas estamos sempre com nossos filhos, observamos o tempo inteiro seus hábitos e atitudes e podemos desde cedo acostumá-los de forma positiva. Mas e os filhos maiores? Como perceber que eles estão se auto agredindo? Se isso não é feito de forma evidente, é importante estar atento para sinais como tristeza sem motivação, marcas pelo corpo, choro fácil e falta de comunicação além do normal.

Mas se o seu filho autista já tem esse hábito e se machuca com frequência, como vejo diariamente nas conversas que mantenho no dia a dia o mais importante é não brigar, não ofender, não ameaçar e não tentar negociar. A autoagressão é algo que foge o controle deles e o que podemos fazer para ajudar é tentar equilibrar o emocional abalado motivando atitudes positivas com amor e substituindo por ações positivas, aos poucos, com paciência, proteção, calma e amor. Muitas vezes, eu diria que, praticamente sempre, é necessário o acompanhamento de um terapeuta para tratar a causa do desconforto que gera o comportamento agressivo e mostre que você se importa com ele. A pior coisa que pode acontecer é você tentar ignorar para ver se passa. Isso definitivamente não passa, é algo muito sério, que gera sofrimento para o autista e para quem vive com ele e não se resolve sozinho. Muitas vezes não se resolve nem com acompanhamento, quem dirá se for ignorado pelas pessoas que ama.

Em uma situação de crise evite fazer perguntas, se a situação chegou a este ponto apenas mostre que está junto, evite machucados maiores, faça o possível para ajudar, tente lhe dar apoio em silêncio por mais difícil que isso possa parecer, às vezes no desespero da situação desandamos a falar e isso pode ser o pior que há porque pode desorganizar ainda mais a mente que já está confusa tentando se reorganizar. No silêncio mostramos compreensão, parceria e ausência de julgamento. O silencio é precioso quando não sabemos o que dizer e principalmente quando não sabemos o que queremos ouvir.  
Quando a situação começa a se acalmar você pode tentar fazer o que foi uma das principais coisas que já fiz pelo meu filho e que o ajudou muito a manter o controle sobre si mesmo que foi traduzir seus sentimentos sem evitar que ele os sentisse. Então quando ele estava bravo eu lhe dizia que ele estava bravo e qual era o motivo, assim eu fazia quando ele sentia sono, fome, medo, cansaço, calor, frio, sede e todos os sentimentos que eu pudesse identificar. O que eu não identificava eu dizia que não sabia e lhe explicava que nem sempre saberíamos tudo na vida, que às vezes precisaríamos paciência e tempo para resolver as coisas. Sempre parti do pressuposto que os sentimentos foram feitos para serem sentidos e vivenciados em sua total intensidade. Gui ficou muito bem com isso e tive a sorte de ele perder o hábito de se bater antes mesmo de receber o diagnóstico oficial de autismo.

Quando uma criança se agride ela não está tentando chamar a atenção e nem agredir aos demais. Se ela quisesse fazer isso ela bateria nas pessoas à sua volta ou até mesmo em brinquedos ou nos animais de estimação como forma de expressão do que quisesse falar, mas a autoagressão é algo muito mais profundo, tem um importante significado emocional, uma dor imensa guardada dentro de si, uma falta de consciência no momento da agressão, que quando cessa vem uma sensação de arrependimento e solidão, ele tem consciência do que fez, sabe que é errado, mas é como um vício que não pode ser satisfeito de outra forma, sabe que geralmente não é compreendido.

Tente se colocar no lugar do autista, se imagine sendo hiper estimulado, com os sentidos a flor da pele, ouvindo sons muito altos, enxergando todas as cores em sua intensidade, com suas mãos formigando, oscilando entre calor intenso e frio insuportável, uma luz fortíssima diante de seus olhos, seus pés pisando sobre lanças... Assim é a desregulação que leva à agressão e a sensação que vem após se morder até sangrar ou bater nos ouvidos até eles taparem é de que calmaria, de como se desligassem os botões da tortura, todos os estímulos deixassem em paz, é um alívio, um prazer. Por isso eu falo em tentar substituir por auto massagem, por tocar-se positivamente. O resultado pode ser o mesmo, de calma, de tranquilidade e satisfação.

Sempre ouvi dizer que o amor é algo natural, que brota por si, mas o amor pode ser ensinado, especialmente para aqueles que estão sozinhos e com medo. O amor é amor em qualquer circunstância, seja nascido por si próprio ou ensinado por alguém que já sabe amar. Quem tem amor, sabe dar amor e sabe que amor se multiplica, cresce, faz bem, faz nascer o bem, tira dor, faz mais amor. Acredite no seu lado bom, esqueça as pessoas ruins, esqueça as dores, as frases destrutivas que você já ouviu, acredite que existem muitos dias bons reservados para você.

O autismo é assim, cheio de amor, mesmo aonde existe dor, justamente ela existe para nos ensinar a desenvolver mais e mais amor.

Beijos, cheios de luz e paz. Mamãe.

facebook/kenyatldiehl
Twitter: @KenyaDieh
Site: http://kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos

                

12 comentários:

  1. O amor vence tudo mesmo, vence estas barreiras , vence estas autogressoes, muito bem colocado que podemos e devemos ensina-los a também amar e acima de tudo cuidar deles, fazendo o nosso melhor,lindo texto, maravilhosa mensagem,agradeço de coração por compartilhar este seu lindo talento da escrita nos proporcionando uma experiência nova.

    ResponderExcluir
  2. Por favor me adiciona no grupo do wtsapp tenho um filho.autista com.22 anos. .nome dele e Gabriel preciso de ajuda com algumas as coisas.obrigada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi amada me envie um e-mail ou mensagem através do meu site. Os endereços estão no final de cada texto. Beijos de luz.

      Excluir
  3. Eu sou autista. Por favor, escute o que eu tenho a dizer: Infelizmente nunca vi uma pesquisa sobre isso, mas por tudo que tenho visto, a causa numero 1 de auto-agressão em autistas é reprender o stim (prefiro esse nome do que o feio "estereotipia"). Stims são tão naturais e necessários para um autista quanto respirar. Imagine você ser um ser humano num planeta alienígena onde é socialmente improprio respirar. Imagine que eles te ensinassem que você deve sempre segurar o ar até onde aguentar sem desmaiar e quando finalmente puder respirar deve fazer isso de forma com que ninguém veja... Você acha que uma pessoa se desenvolveria de forma saudável dessa forma?
    E sobre "comportamento adequado", usando esse argumento poderíamos dizer que todas as negras deveriam fazer chapinha. E que surdos não podem sinalizar em publico. Você pode achar que línguas de sinais são bem vistas hoje em dia, mas nem sempre foi assim. Na maior parte da historia, elas foram vistas como um sinal de exclusão e baixa inteligencia, algo que deveria ser eliminado e suprimido. No seculo 19 isso ficou mais intenso ainda, toda escola e centro para surdos proibiam a sinalização. Alguns chegavam até a amarrar as mãos das crianças. O "normal" era querer ensinar a uma criança de 3 anos a ler lábios e falar sem escutar. Se hoje um grupo de surdos pode conversar em libras num lugar publico, isso veio de muita luta. E se conseguimos isso com língua de sinais, podemos conseguir o mesmo com stims.
    Stims são uma forma de regular nossos sentidos desregulados. Como aquela tampinha da panela de pressão. Se você entope não deixa o ar sair, o que vai acontecer com a panela? Ela vai explodir de pressão. O autista vai ter a auto-agressão, crises nervosas, síndrome de burnout. Normalmente a panela explode lá pelo fim da adolescência. É uma historia que eu já vi se repetir diversas vezes. E felizmente já li relatos de autistas que estavam com auto-agressões sérias, reaprenderam seus stims e agora estão livres.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo seu relato. É muito importante conhecer o que se passa na cabeça dos autistas. Minha intenção não é jamais barrar nada, nenhum comportamento, estereotipias ou crises. Minha missão é informar, proteger e amar. Beijos de luz.

      Excluir
  4. Olá , gostaria de participar do grupo do whatshap , meu filho tem 8 anos , um anjo mais que especial

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite. Por favor me envie um e-mail para kenyadiehl@gmail.com
      Será uma honra ter vc conosco
      Beijos de luz

      Excluir
  5. Perfeito! Muito obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pela leitura. A luta é de todos nós.

      Excluir
  6. É correto o uso de luvas para crianças que se mordem e sangram as maos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu diria que sim, para manter a integridade física. Porém, sem jamais desistir das terapias e das tentativas de fazer com que esse comportamento acabe, ainda que seja necessário substituir por outro que lhe dê prazer e calma, mas que não se machuque.
      Beijos

      Excluir