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domingo, 13 de novembro de 2016

O mundo visto pelos olhos do autista

Em um único dia todos nós 74recebemos milhares de estímulos que são processados pelo nosso cérebro. Cada indivíduo tem uma forma de interpretar estes estímulos e uma consequente reação, de acordo com seu grau de sensibilidade, história de vida, traumas vivenciados ou doces lembranças.

Um perfume no ar pode te trazer a lembrança de um encontro incrível com a pessoa amada, assim como determinada música pode te levar às lágrimas por lembrar um acontecimento ruim, uma perda ou momento de solidão.

Independentemente das diferenças que temos uns com os outros e de cada um ter um tipo de interpretação sobre o que lhe é agradável ou não, seguimos um padrão, temos noção do que um símbolo representa,  como o coelho da páscoa, o papai Noel ou a fada do dente.

Para o autista tudo é sentido de forma diferente. Na visão deles um coelho é apenas um coelho, o papai Noel traz presentes e as renas servem para puxar o trenó. Como eles enxergam de forma fragmentada é difícil entender subjetividades, o contexto como um todo. Para nós, uma decoração de natal com um papai Noel ao centro nos representa a magia do natal. Para os autistas, salvo as exceções, o papai Noel é um senhor, a árvore é uma planta, as luzes fazem cores e os presentes, bom são apenas presentes.

Existe o que chamamos de sensações que é o processo de percepção do que acontece no meio ambiente através dos sentidos - tato, olfato, paladar, audição e visão. E o que chamamos de percepção propriamente dita, que é a interpretação das sensações. Se para o autista a percepção é deficiente, imagine a complicação maior ainda que é ter as sensações aguçados,  ou pior,  precárias. Aí a interpretação pode vir distorcida.

É muito comum presenciarmos cenas de pais e mães orientando seus filhos de como eles devem reagir a determinada pessoa ou situação, lhes dizendo como devem se comportar ou responder a determinados estímulos. Quem tem filho autista sabe bem que para nós essa regra não funciona. O que pode parecer muito triste para mim pode ser insignificante para ele e vice-versa.


Ano passado levei Guilherme para ver o papai Noel da decoração do shopping. Perguntei a ele se ele queria uma foto e ele disse que sim. Bati a foto, linda foto, Gui no colo do bom velhinho, sorrindo e aconchegado, mas.... Quando papai Noel perguntou o que ele queria ganhar ele respondeu que queria a foto e estava bom. O senhor então insistiu e ele disse novamente que já tinha a foto, então papai Noel perguntou se ele havia se comportado durante o ano e ele prontamente disse que não! Sinceridade, objetividade! Eu falei que Gui era autista e ele foi abençoado por toda a turma que estava ali em volta dele. Ganhou um pirulito, agradeceu e quando saímos ele ficou impressionado que tinha conseguido a foto e o doce. Para completar comentou sobre a barba do papai Noel que lhe cobria o rosto e dificultava sua visão sobre sua real identidade... Aventuras experimentadas por mães e pais especiais.

Tudo isso não quer dizer que eles não sintam emoção, pelo contrário, sentem em uma intensidade única. Os graus de percepção variam de autista para autista assim como varia dentro de cada autista dependendo do momento em que a situação é enfrentada. Algo muito bom pode ser doloroso se apresentado em um momento de maior sensibilidade. Difícil demais explicar isso para quem convive pouco com o autista. As pessoas geralmente não entendem essa variação e criam uma grande expectativa para com nossos filhos, mas pode ser um verdadeiro desastre uma tentativa de fazer surpresa por exemplo. Certa vez esperávamos uma visita em casa. Uma pessoa perguntou o que ele gostaria de ganhar na ocasião da visita e eu disse que ele gostava de carrinhos de coleção. A pessoa disse que iria levar o carrinho e eu avisei a ele. Mas a pessoa trouxe uma réplica de um boneco de filme da Marvel. Quando ele abriu o pacote não escondeu a decepção e perguntou porque ela fez aquilo. Fiquei em uma situação delicada, sem saber o que dizer, mas escolhi ser sincera e explicar sobre a literalidade do autismo e a dificuldade de lidar com surpresas. Acho que ela entendeu numa boa.

Enquanto pessoas neurotípicas estão ligadas no movimento maior, como em um evento aonde a atração principal é o palestrante, o autista está focado nos detalhes das luzes, dos enfeites, dos cheiros, das cores. Eles podem nos dar detalhes do ambiente e ainda assim ouvir tudo o que foi dito durante a palestra.

É uma forma tão detalhada de ver o mundo, aonde não há espaço para formalidades, falsidades ou grau de importância. Autistas podem ter dificuldade em olhar no seu rosto enquanto você fala, mas pode entrar em seus olhos enquanto ele fala, é uma questão de foco. Enquanto você fala, ele precisa se concentrar no que você diz, então é melhor usar somente o sentido da audição, por outro lado, enquanto ele fala, ele precisa de sua total atenção e pode olhar nos seus olhos sem sequer piscar.

O que prevalece no autismo é o prazer, o respeito, a sinceridade. Nunca devemos chamar a atenção de nossos filhos autistas quando não querem tirar aquela foto ou entrar em determinado lugar, eles podem estar percebendo algo que está além de nossos sentidos. A vida para eles é algo muito bem resolvido, cada um é o que é e ponto final. Não lidam bem com maldades, não entendem frases de duplo sentido, mas podem perceber de longe uma pessoa ruim.

O mais importante é termos em mente o quanto os autistas são verdadeiros, sensíveis, honestos. Uma lição de amor, de pureza, de simplicidade. Enquanto existem pessoas capazes de planejar o mal, fazer o mal, viver a maldade, o autista vive exercendo sua personalidade, fazendo valer sua voz, seja pela conquista ou pela imposição. Eles têm capacidade, inteligência, vontade, vão longe em busca de seu próprio conforto e se você permitir ele entrará no seu mundo. Se você conseguir entrar no dele terá um fiel amigo que fará de tudo para te ver bem.

Tente enxergar o mundo por partes, separe os objetos de uma mesma cena e verás quanta beleza se perde ao enxergar tudo em um só contexto. Veja os detalhes, sinta, entre profundamente em uma experiência vivendo toda sua riqueza e terás a mesma sensação que o autista tem. Dependendo de sua história de vida terás uma boa ou má experiência, mas irá sentir a vida com toda sua intensidade.

Beijos de luz e paz. Mamãe.

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4 comentários:

  1. simples, e direto, ajuda muito a entender o mundo dos autistas...

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    1. Obrigada querida. Esse mundo é realmente incrível

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  2. Como sempre belos textos, realmente a sinceridade deles nos emociona e demonstra o quanto o mundo seria melhor seguindo essa linda qualidade deles .

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    1. Sim, certamente. Hoje em dia a sinceridade dá espaço à regras sociais que nos afastam uns dos outros. Eu acredito em mundo melhor através de nossos filhos autistas.

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