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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Porque eles não se alimentam?

Como é triste ver o filho não comer. A sensação é de medo, impotência. As amizades mais próximas e parentes dizem que estamos educando mal, que do jeito que fazemos só podia a criança não comer mesmo.

Mas não comer na vida do autista envolve muito mais do que o simples não querer. Muitas vezes pode se tornar um drama e uma dificuldade tão grande que afeta outras áreas da vida e do convívio social.

No início parece uma simples rejeição, algo que toda criança faz. Com o passar do tempo vai se tornando cada vez mais difícil. O autista enxerga por quadros, dificilmente consegue enxergar um contexto inteiro. Pode se tornar um pesadelo o simples fato de olhar para o macarrão coberto de molho. A mistura não lhes cai bem. A sensibilidade sensorial grita alto quando se trata de alimentação. Cheiros, cores e texturas podem fazer com que a pessoa autista simplesmente pare de comer.

Guilherme foi um bebê gordinho, comia de tudo. Não podia sentir o cheiro de comida que erguia os bracinhos em busca de uma porção. Comia desde brócolis até pão com nada. Tinha as bochechas gordinhas, as pernas com várias dobrinhas e por vezes era difícil de manter ele no colo de tão pesado que era.

Imagina o tamanho da minha dificuldade quando ele, de uma hora para outra, parou de comer. Me lembro como se fosse hoje, Guilherme havia comido uma caixa de cereal matinal em apenas dois dias e depois disso não quis mais saber de comer nada.

Tentávamos de tudo, ele não queria, sentia o cheiro da comida e provocava vômito. Os dias foram se passando e ele perdendo peso. Tinha cerca de dois anos quando isso começou a acontecer. Em pouco tempo aquele bebê gordinho e feliz foi dando espaço a uma criança magrinha e de olhar tristonho. Era desesperador para mim, fui em vários médicos, gastroenterologista, endocrinologista e até cardiologista. Mas a resposta era sempre a mesma: “Mamãe sua ansiedade não está deixando seu filho comer”. Pronto, a culpa era sempre minha.

Gui, aos poucos, foi ficando fraco, teve queda de glicose, foi parar no hospital e eu sempre ouvia a mesma história de que eu estava ansiosa e por isso ele não comia. Acontece que isso estava bem longe de ser verdade. Alguns meses depois eu liguei para a pediatra e pedi uma requisição para um RX - EEG (Raio x do esôfago, estômago e duodeno), então descobri que ele havia desenvolvido uma hérnia hiatal, ou seja, uma porção do estômago subia para o esôfago e isso lhe provocava vômitos e dor no peito. Apesar de ser ruim me tranquilizei, eu lhe daria a medicação correta e ele sentiria fome, só que não foi isso que aconteceu...

Meu filho estava medicado, com fome, mas continuava sem conseguir comer. Certo dia bati uma porção de feijão no liquidificador e lhe dei aquele creme de feijão. Tive que fazer mais duas porções, ele devorou tudo! Tive a brilhante ideia de comprar na farmácia uma fórmula multivitamínica que é usada em hospitais, misturei no feijão e pronto, meu filho tinha todos os nutrientes que necessitava em um prato de feijão batido. Tive uma trégua para conseguir pensar com calma o que estava acontecendo.

Não desisti de lhe oferecer alimentos jamais, mas ele não aceitava e isso é muito pior do que se pode imaginar. Pense em uma mãe com uma criança que quando eventualmente tenta ir a uma festa de aniversário e o filho não come nem sequer um docinho. O aniversário dele de dois anos foi realmente preocupante, Gui não comeu absolutamente nada do que tinha à disposição. Tudo que tentávamos ele colocava no cantinho da boca como um hamster e se recusava a engolir.

Quando íamos a encontros familiares era sempre o mesmo problema e novamente a “mãe ruim” entrava em cena. Diziam que eu deveria deixá-lo com fome até comer, que enquanto eu lhe desse o que ele aceitava ele não iria querer comer por comodidade de ter à sua disposição o alimento de sua preferência. Mas meu filho não comia, eu sofria e as pessoas me criticavam. Foram momentos de muita dor até o dia em que descobri a tal da seletividade alimentar.

Os autistas têm preferência por poucos alimentos, sobretudo no início da vida. Eles se sentem seguros com a rotina, certo? Com os alimentos não é diferente. Eles preferem comer sempre a mesma coisa pela segurança e estabilidade emocional. Sua circulação sanguínea é mais acelerada, bem como todo o seu sistema digestório é mais lento. Facilmente algo lhes causa indigestão e então eles preferem comer sempre a mesma coisa com a segurança de que irão se sentir bem.


No dia que entendi isso passei a respeitar meu filho, todos me criticavam, mas a saúde dele era de ferro, nem resfriado ele não pegava. Tivemos a fase do feijão batido, do mingau de maisena, do Milk shake, da pizza, do hambúrger, da polenta, do iogurte de soja e por aí vai. A cada período ele ingeria apenas uma dessas coisas e não adiantava tentar incluir mais. Eu lhe dava o que ele conseguia comer e suplementava com o multivitamínico. Não preciso dizer que fui condenada por tudo e por todos. Eu não me preocupava, fazia o que era necessário e os exames de sangue provavam que eu estava certa. Ele comia até enjoar e depois trocava.

Aos poucos ele foi confiando em mim e sabia que se algo não lhe caísse bem eu não iria insistir e então ele passou a abrir mais as possibilidades de agregar comidas novas em seu cardápio. Tivemos tentativas desastrosas, choros e muito vômito em cima de mim. Mas nunca lhe obriguei a comer quando não conseguia.

Os autistas, na maioria das vezes, têm algum problema de saúde associado e não raro tomam medicação, o que dificulta muito o processo de se alimentar. A medicação pode lhes causar enjoo, secura na boca, fraqueza no processo de deglutição e piorar ainda mais seu trânsito intestinal.


Guilherme, aos sete anos passou a comer de tudo, experimentar, engolir, até mesmo de comida de panela e todo tipo de alimento que aparecer. Mas quando algo não lhe agrada ele guarda no canto da boca e pede para cuspir. Sua diferença é clara em sua alimentação. Se ele vai a uma festa de aniversário escolhe um tipo de salgado e só come aquele. Eu acho interessante e sou solidária com ele, também escolho apenas um e como somente aquele. Ele sente que não está só e às vezes até tenta alguma troca comigo.

Quando estamos falando de autistas, estamos tratando de seres iluminados, espertos (mesmo os em grau severo) que sentem de longe as nossas intenções. Nunca tente lhes enganar escondendo algum alimento no meio dos outros, eles percebem. Ou pior, nunca tente lhes mostrar uma boneca que come, porque aí sim é que não vão comer, porque irão se comparar com a boneca e ver que aquilo não serve para eles, afinal, se não sou uma boneca não preciso comer como ela.

Não existe fórmula para lidar com autista. Existe respeito, admiração, compreensão. No momento que eles sentem segurança na pessoa que está com eles tudo é possível, do contrário apenas irá lhes gerar ainda mais limitações.

Pense bem antes de deixar seu filho com fome para que ele coma o que tem, você só irá se distanciar ainda mais do universo autista.

O amor e a ternura servem como inspiração para o autista confiar e seguir em frente explorando esse mundo louco em que vivemos.

Beijos cheios de luz e paz. Mamãe.
facebook/kenyatldiehl
Twitter: @KenyaDiehl
Site: kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos


20 comentários:

  1. agora sei que existe alguém que sofre como eu!!muito obrigada amiga você me ajudou muito a entender meu filho autista!!beijos!!simone lange-aldalange@bol.com.br

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    1. Obrigada Simone, feliz em saber que nos identificamos. Beijos de luz.

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  2. Excelente texto, minha vida foi assim exatamente como a tua, mas apesar de nunca ter tomado medicação ainda é seltivo, mas fiz exatamente como vc. tudo pra que ele comesse.

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  3. Boa noite Kenya! Não sou mãe de seletivo ou de autista mas compreendo imensamente o que aconteceu com você. Sou psicóloga e trabalho com o comportamento alimentar infantil - em especial com a seletividade. Uma das comorbidades mais comuns é o autismo. Recebo muitas e muitas mães desesperadas por que não sabem mais o que fazer, todos acham que a culpa é delas ou falam para deixar sem comer, dar um doce ou forçar. O que, obviamente, nunca adianta. Nunca recebi um caso em que a culpa era da mãe. Isso não existe. O pior é quando as mães veem que teve uma causa médica - como a questão gastro e se sentem aliviadas: é só cuidar disso e acabou-se. Mas infelizmente não funciona assim. A seletividade já se instalou. Apesar da "causa" ter ido embora os sintomas já estão lá. Mas o tratamento dado, geralmente é ineficaz. Eu trato de forma comportamental e neuropsicológica meus pacientes e quando descobrem todas as questões envolvidas e que a culpa não é da mãe elas geralmente choram. É lindo ver a criança começar a perder o estresse, ansiedade e começar a comer. A confiança, como disse, é a base de tudo. Se quiser me envia um e-mail que te envio uma palestra que fiz: mariacristinalopes@gmail.com . Acho que vai achar bacana. Um grande beijo para você e seu filhote lindo!

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    1. Obrigada pela mensagem. Linda a forma que vc tem de trabalhar. Profissionais assim nos ajudam a divulgar o autismo como ele é. Grande beijo cheio de luz

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  4. Excelente post! Aconteceu a mesma coisa com meu filho. A gente se adapta a eles e segue em frente!

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  5. Obg pela linda mensagem me emocionei, eu tenho um bebê de 1 ano e 9 meses e tenho sérias suspeitas de que seja um autista nessa sexta dia 11 de novembro levarei ele a um neuropediatra e creio que ele me dará o diagnóstico. Sei que nada mudará entre mim e ele pq vou ama-lo do mesmo tanto e farei de tudo para que ele tenha a melhor vida possível. Depoimentos como o seu me traquilizam por isso muito obg.

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    1. Minha querida. Obrigada por escrever. Vou torcer muito para o dia 11 Deus lhes orientar da melhor forma. Conte comigo, me envie email ou mensagem inbox que te dou meu WhatsApp se vc quiser conversar, ok? Fé, tudo se ajeita, ainda mais com uma mamãe atenta e amorosa. Beijos de luz

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  6. Aff, o pior é que todo mundo sabe mais do que você. Aqui em casa até um pão com queijo vira polêmica. Rodrigo ama pão. Geralmente, crianças preferem pão doce, mas ele gosta de pão francês. Pronto!
    Para ele, verdura é verde, ele odeia verdura, mas come batata, abóbora, cenoura... Chuchu não, chuchu é verdura. Mas ninguém se importa. Eu estou errada. Parece que o chuchu, que eu também odeio, possui uma espécie de supernutriente, indispensável na vida de uma criança, que não pode ser encontrado em nenhum outro tipo de alimento e eu estou cometendo um crime, pois não o forço a comer.
    Aquela conversa de que ele não gosta da textura da carne também é invenção minha. Ninguém apresenta outra explicação para ele aceitar o sabor dela nos alimentos e quase vomitar se um fiapinho cai na sua boca, mas se fui eu quem observou, está errado.

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    1. É assim mesmo, por isso minha luta em conscientizar, difundir, cada vez mais falar sobre o autismo, para dar liberdade e proteção para mães, pais e filhos.

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  7. Lindo texto , meu filho tem 5 anos tem autismo e não come ainda ,foi desistindo aos poucos fazemos terapias e acredito que logo vou sentir o prazer de velho de barriga cheia :)

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    1. Com certeza vai, aos poucos e dando o que é de sua preferência, ele irá retomando confiança e vai comer melhor.

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  8. Bom dia,ninguém entende melhor nossos anjos como nós , os pais, parabéns pelo seu exemplo, sempre esta nos incentivando .

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    1. Muito obrigada pela mensagem, estamos juntos na mesma luta.

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  9. Eu chorei lendo esse texto. Eu tenho um filho de 6 anos. Levei em vários médicos, Mas ainda não tem um diagnóstico definitivo. Ele só toma mingau e abóbora batida no liquidificador. Fiquei arrasada em pensar que eu já deixei ele com fome achando que ele iria comer.

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    1. Oh minha flor. Não se sinta culpada. Todos nós buscamos o melhor para nossos filhos. Vamos aprendendo aos poucos. Estamos juntas. Beijos de luz

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  10. Tenho um filho com 6 anos e tenho a suspeita do autismo desde os 2 anos e meio e nossa como é difícil essa parte da alimentação, foi muito bom ler isso aqui. Espero um dia que ele venha a conseguir experimentar outras coisas.

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    1. Vai sim, são fases que passam e vão sendo substituídas por outras. O bom é que geralmente a saúde deles é de ferro. Estamos juntas. Beijos de luz

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  11. O meu agora experimenta algumas coisas, também tem só uma suspeita... Mas quando era pequeno também passava um tempo aceitando só um tipo de alimento... hj se eu deixa ele tbm que fazer isso... Esse dias ele tá só querendo sopa... e não come se não tiver bastante caldo. Ele já me deu muito trabalho e na escola passava o dia todo sem comer.

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  12. A sopa é muito boa para o paladar deles, que geralmente preferem alimentos sem texturas salientes, mas com o tempo tudo melhora. Fé e força. Beijos.

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