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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Rotinas e rituais


Todos nós temos as nossas rotinas e rituais das quais nos sentimos mais seguros e felizes. Desde muito pequenos tínhamos um bichinho preferido para dormir ou aquelai história que não podia faltar. Quem nunca andou pulando lajotas sem pisar nos frisos para não dar azar? Ou trocou de lugar porque só poderia sentar em cadeira de determinada cor?


Esses padrões de comportamento da infância nos acompanham na vida adulta de forma mais sutil, como quando estacionamos o carro sempre no mesmo lugar, escolhemos um único local no sofá para sentar e aquele local tem que ser nosso. Seguimos rituais na hora do banho, da alimentação, do vestir-se, do namorar. É isso que nos dá segurança de que teremos nossas coisas e nossa vida sob controle, é uma forma de manter o poder sobre nós mesmos e a nossa mente.

E quando isso passa a ser um problema? Como lidar com as rotinas e rituais na vida do autista? Você, que tem um filho autista sabe bem do que estou falando. Autistas em geral passam por fases de maior apego às rotinas e aos movimentos repetitivos que são parte de sua vida. Manter a rotina deles é fundamental para lhes dar a segurança de que precisam para se desenvolver com saúde e tranquilidade.

Quando fugimos disso temos grandes chances de disparar uma crise de ansiedade e uma insatisfação e choro principalmente naqueles que ainda não falam. Mas porquê? Porque autistas em geral têm dificuldade de se comunicar e de enxergar o contexto como um todo. A rotina é uma forma de manter sua vida em ordem, sem que aconteçam eventos dos quais eles não saibam lidar. Pela dificuldade de comunicação que eles têm é mais seguro manter tudo igual sempre, da melhor forma possível para a sua tranquilidade e bem-estar. A situação se complica mais quando não há o diálogo. Eu sei que muitas crianças e autistas adultos não falam, mas eles entendem quando explicamos com cuidado.

Para ter sucesso em uma mudança de rotina é preciso avisar antes que algo vai mudar, mesmo que ele não lhe responda, como por exemplo, o dia que você precisa passar no supermercado ou ir à praia com seu filho autista. É necessária uma ordem direta, com olhos nos olhos, informando sobre o que irão fazer, quanto tempo irá durar e o que você espera do seu filho.

Existe o que chamamos de rituais, como aqueles que além de seguir uma rotina fixa, ainda sentem a necessidade de detalhar cada movimento, como dar pulinhos, girar em volta da cama três vezes, apagar a luz pelo interruptor mais próximo e por aí vai. Guilherme quando era pequeno tinha um ritual tão rigoroso na hora de dormir que aconteceu uma vez de fazermos tudo certinho, mas ao sair do quarto meu esposo apagou a luz da sala pelo interruptor do andar de cima. O “cleck” do botão disparou um choro interminável. Gui simplesmente não conseguia dormir, fiquei até altas horas da madrugada tentando reorganizar a mente dele. E foi bem difícil. Estávamos esgotados...

Sabemos que não é possível levar uma vida assim de forma saudável. Podemos ir mudando isso com o tempo, mas para tentar mudar é necessário antes que eles criem confiança em nós que estamos com eles e a melhor forma é seguir seus rituais e rotinas por um longo tempo. A relação de confiança é um elo fundamental que deve ser criado para que possamos dar os passos seguintes. Eu segurei durante cerca de dois anos todos os rituais do meu filho até ele começar a se libertar um a um.


Podemos conversar, tranquilizar, avisar que nada de ruim vai acontecer se não seguir aquele rito. Propor trocas e incentivar ajuda quando a criança começa a crescer. O Grau de entendimento vai ficando cada vez melhor, especialmente se a mãe tem o hábito de conversar com seu filho, mesmo que ele não lhe responda.

Saber respeitar a individualidade da criança também é importante. Devemos pensar sobre a real necessidade de expor a criança a mudanças de rotinas e eventos aos quais elas não se sentem ainda preparadas. Uma ida ao shopping pode ser torturante na cabeça daquele que tem o sensorial muito aguçado. Sair de férias, dormir fora pode ser motivo de perdas consideráveis de batalhas já vencidas.

Quando me mudei para a atual casa aonde moro eu expliquei para meu filho que iríamos nos mudar, que a nova casa era melhor, ele entendeu e aceitou. Ficou encantado com tudo o que viu, afinal, vinha acompanhando a obra a algum tempo. Mas depois de tudo no lugar, quando caiu a noite e me pedia para “voltar para casa”, isso ficou acontecendo por cerca de três meses. Guilherme chorava e dizia “embora” várias vezes. Foi muito triste e frustrante para nós acreditar que ele preferia a casa velha e cheia de problemas, mas na verdade não era isso, ele amou o novo ambiente, mas queria a segurança de sua vida protegida e bem cuidada.

Ao mudar de ambiente com uma criança especial temos que ter em mente que para eles isso é complicado demais de aceitar, eles não sabem o que vai acontecer, se irão chegar pessoas estranhas, se a mamãe vai estar junto, e se a mamãe ficar (o que é bom para eles), será que vai acontecer alguma coisa com alguém? Porque está tudo tão diferente? Porque mexeram no meu mundo sempre igual para colocar coisas tão fora do comum?

É do instinto do ser humano socializar, mas os autistas não gostam muito, se sentem bem com suas coisas, seus cheiros, seus gostos, o que foge disso é sofrimento. Eu compreendo pais ansiosos que se sentem tolhidos por não terem férias perfeitas com as quais sonharam, chateados porque o jantar naquele super restaurante durou apenas alguns minutos, a visita que veio de longe mal conseguiu conversar... Mas quando temos filhos especiais eles são prioridade e se soubermos respeitar seu tempo teremos grandes chances de melhorar muito essa situação com o passar dos meses e anos.

Saber respeitar as manias e rituais que não prejudicam ninguém como comer sempre no mesmo prato ou usar somente uma marca de xampu também ajuda, ninguém tem nada a ver se seu filho é diferente ou cheio de comportamentos diferentes. Existem cores que eles não gostam, cheiros que eles não suportam, vozes que os perturbam.


Acho que um dos pontos principais e que envolve todos os outros assuntos é não querermos que nossos filhos sejam diferentes do que são. Todos nós sonhamos com progressos, mas aceitar o temperamento e a personalidade de nossos filhos especiais traz benefícios para todos envolvidos na situação. É previsto e aceitável que seu filho se desorganize com as mudanças e imprevistos, o meu volta e meia se desorganiza e chora, faz parte de seu funcionamento que isso aconteça. É nobre da parte dos pais não se desesperar e entender que isso passa, que os seus sonhos não são os mesmos dos seus filhos. Para você um evento em família pode ser o que há de mais precioso, mas para seu filho autista o mais precioso pode ser ele poder correr em volta da casa todo dia pontualmente às 17hs. 

Cada um tem sua forma de ver a vida, com os autistas não é diferente, existem coisas que lhes dão intensa alegria e existem outras que a gente acha que seria ótimo para eles, mas na verdade pode ser uma tortura.

Impor limites e regras é importante para que os pais não percam o controle da situação, desde pequenos não deixar o que não pode, como quebrar coisas ou ouvir música alta em um rádio sem fones, mesmo que a criança chore e insista, manter o controle da situação lhe dará mais segurança para agir conforme a criança for crescendo. Porque toda criança precisa de limites, a diferença é que no autista os gostos são bem peculiares. Como eu disse acima, reveja sua rotina, pense se o que seu filho faz prejudica os outros ou a ele mesmo. Não hesite em tirar o hábito se for prejudicial ou manter a todo custo se for benéfico, nem que para isso você enfrente parentes e quem mais se envolver nisso.


O bem-estar é fundamental para qualquer pessoa, todos queremos nosso espaço no mundo, cada um do seu jeitinho. O autista em especial precisa de muito amor, compreensão, ausência de preconceito e cuidados. O autista tem sensibilidade extrema e o que você sente ele sente também, mesmo que suas palavras sejam diferentes do que se passa em seu coração. O autista pega no ar o que há de mais profundo em quem convive com eles, especialmente os sentimentos, tanto bons quanto ruins.

Tenham compreensão com quem mais precisa de sua ajuda, salve seu filho, mostre para os outros que você está com ele independente de qualquer coisa. Você pode ajudar a diminuir o sofrimento de seu filho, desde que haja um elo de confiança e amor.

Beijos de luz e paz. Mamãe.
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Twitter: @KenyaDiehl

Site: http://kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos

3 comentários:

  1. Simplesmente lindo, nós precisamos dessa força e energia que passa para nós com tuas palavras, nessa vida nada melhor do que transferir essa experiência para nossa família azul, Obrigado por tudo!

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    1. Obrigada vc, não sei quem escreveu mas sinto uma energia muito positiva nesta mensagem. Independente de qualquer coisa essa luta é nossa, seguimos unidos em busca do melhor para nossos autistas. Beijos de luz

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    2. Sim...sempre, nosso tempo neste mundo é muito curto para fazer tudo que queremos...
      Mas fazer o possível é nosso dever, e você o faz com muita grandeza,amor e respeito...
      Abraços de muita paz e sigamos nosso caminho comemorando a Vitória desses nossos anjos!
      Amigo.

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