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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Apenas uma reflexão

Você já parou para olhar à sua volta e se colocar no lugar no seu próximo? A maioria das pessoas responde rapidamente que sim. Mas, fazendo uma reflexão mais profunda, percebo como o mundo anda egoísta e trágico, imediatista e cruel eu diria.

Agora eu falo da minha experiência sobre se colocar no lugar do meu próximo. Eu estava dirigindo, como de hábito. Entre um trajeto e outro, de tantos que faço, de repente fechou o sinal e passou bem em frente ao meu carro um cadeirante girando com as mãos a roda de sua cadeira, apressado antes que o sinal abrisse, senti o esforço em seus braços, seu coração acelerado, seu pensamento sobre dar tempo de chegar do outro lado, seu foco em conseguir atravessar e alcançar a parada de ônibus. Em seguida veio o vendedor de carregadores de celular com olhar distante, vi naquele olhar um homem que já tentou de tudo na vida e agora luta para sustentar a família, a moça distribuindo panfletos que aparentemente está chateada, seria porque deixou o filho chorando em casa? Ou não dormiu a noite? Ela teve o que almoçar? Não sei, mas senti dor e calor ao olhar para ela, o senhor irritado ao volante no carro ao lado mesmo com todo o conforto do carro automático com ambiente climatizado do ar condicionado inteligente.

Aí você me pergunta, mas o que tem a ver o senhor do carro automático com as pessoas anteriores? O que percebo é que muito embora pareça triste ver o cadeirante suando a camisa para atravessar a rua, você parou para pensar que aquele pode ser o símbolo de sua independência e vitória de um grande obstáculo? A superação de um trauma de um grave acidente ou a vitória de um problema genético de uma vida inteira? Por outro lado, o senhor no carrão pode ter tudo, saúde, poder, dinheiro, mas o preço de tudo isso pode ser a solidão e a doença emocional?

Não estou dizendo que é errado ter dinheiro. Estou dizendo que o que conta mesmo é a motivação que nos leva a ser quem somos hoje. Nossa história de vida faz valorizar ou não cada etapa que conquistamos em nossas vidas. Porque no fundo, o cadeirante, o vendedor, a moça dos panfletos, o senhor do carrão e eu que ali observava tudo somos todos iguais, o funcionamento entre corpo, mente e alma é o mesmo. Tudo na vida é muito relativo, o valor das coisas varia de acordo com o que você viveu.

Pessoas que irão duvidar do seu caráter sempre irão existir, pessoas que irão sugar suas energias também, pessoas que verão tudo dar certo para você e mesmo assim dirão que está errado, mais ainda. Não estou sendo negativa, estou sendo realista. Eu demorei muito para entender que existem pessoas ruins no mundo, mas sim, elas existem e é importante ter essa noção para que possamos manter o equilíbrio e a energia necessária para seguir em frente.

Dificilmente as pessoas irão se colocar no seu lugar e sentir o que você sente ao ter um filho autista. As pessoas podem orar por você, simpatizar com você, ter compaixão, dizer que entendem, mas é muito difícil alguém fechar os olhos, ver o que você vê, ouvir o que você ouve, viver o que você vive, mesmo que seja por instantes.

Ninguém irá enxergar os pensamentos como os autistas enxergam, sentir o sabor doce dos alimentos como eles sentem, infinitamente mais doce do que o esperado, infinitamente mais azedo ou amargo ou seco... Não irão entender porque é tão fácil vomitar com algo aparentemente simples, porque um perfume pode colocar um dia inteiro a perder, porque entrar em um táxi pode ser tão ruim. Autistas sentem na pele muitas vezes mais que os outros, eles são capazes de ver alem dos olhos dos outros, ouvir a quilômetros de distancia o ruído dos motores.

Saber se colocar no lugar do outro é muito mais do que ter pena. É entender que a pessoa tem uma motivação para ser quem é e acreditar no acredita. Podemos ser quem somos até o ponto em que não machucamos ao nosso próximo.

Se colocar no lugar de nossos filhos é entender que eles ouvem muito alto, que conversas demais incomodam, que métodos rígidos de tratamentos são sofridos. Que muitas vezes teremos que abrir mão de receber aquela tão amada visita, deixar de entrar naquela loja que tem aquela super promoção, o sensorial deles desregula fácil, mas não será assim a vida toda. Com o tempo, com amor, confiança e paciência tudo tende a melhorar.

Se colocar no lugar deles é também entender que muito embora estamos cansadas de saber que o melhor é uma alimentação saudável e mais natural possível o seu organismo pede por um sorvete na hora do almoço, sua circulação é diferente, tudo é muito rápido, seus pensamentos tem textura, cheiros e cores... Não será o fim do mundo modificar as regras de um dia se a necessidade deles for essa... Basta que possamos explicar-lhes o que estão sentindo para que eles mesmos se compreendam.

Se colocar no lugar do autista é também entender que mesmo em uma briga em que nitidamente x tem razão, z também sofre. O mundo anda julgando muito. Tenho visto muitos “juízes” espalhados por aí trabalhando de graça. Quem nunca ganhou? Quem nunca perdeu? Quem nunca sofreu? Quem nunca ofendeu?

Se pudéssemos ter o dom de pensar e sentir o que o outro sente com mais facilidade teríamos um mundo com menos ironia e mais compaixão. Menos dúvidas sobre a sinceridade do nosso próximo, seríamos todos mais verdadeiros como são os autistas.

O bem da verdade é que olhando de cima tudo se encaixa, o cadeirante, o vendedor, a moça dos panfletos, o senhor do carrão, eu e meu filho no nosso mundo... Cada um com sua missão fazendo sua parte, carregando suas perdas e suas vitórias, lutando, perdendo e ganhando.

A diferença do autista é que ele sente o que outro sente, por isso a dificuldade em se relacionar, é um turbilhão de sentimentos a serem filtrados, isso leva anos para aprender, para assimilar, separar o que é deles e o que é do outro, não se envolver, não se deixar levar...

E quer minha opinião? Muitas vezes acontece de eles serem surpreendidos pelo envolvimento sem que tivessem percebido... Aí já é tarde demais. Por isso a importância de se cercar de pessoas boas, maduras, bem resolvidas e com conhecimento sobre a síndrome.

O ser humano está acostumado a carregar consigo e proteger muito bem seus pertences materiais. Vejo mulheres agarradas às suas bolsas, homens cobiçando as mulheres, crianças insatisfeitas com o tablet ultrapassado, mas não vejo as pessoas se protegerem de suas mais nobres emoções.

O tempo tem passado rápido e os ciclos terminam e começam também rápidos demais e eu fico me perguntando: "O que estou fazendo neste mundo?" Quando eu for embora daqui terei deixado algo bom? Essa é minha missão, meu propósito, porque o que mais temos de valor não está no que carregamos ou no que podemos tocar, está no mais profundo do nosso ser.

Muitas vezes deixamos o tempo passar tão depressa e acabamos esquecendo de conversar com nós mesmos, quando percebemos aquele adolescente ficou lá atrás e o adulto que hoje está aqui busca um entendimento sobre seu filho, mas ainda não se conhece bem.

Deixo essa reflexão. Converse com você, conheça-se!



Beijos de luz e paz. Mamãe. 

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5 comentários:

  1. Perfeito querida me comoveu muito, e todos nós pais queremos empatia um olhar de compaixão principalmente para os nossos amados!!! Adorei 😘

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    1. Obrigada. Queremos e precisamos. Esse mundo precisa urgentemente de mais compaixão. Beijos de luz.

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  2. Perfeita visão de quem enxerga um mundo mais humano, realmente precisamos ter olhos mais atentos para tudo a nossa volta,tudo tem um motivo, uma razão para ser e acontecer, sigamos em frente nessa caminhada, obrigado por nos dar mais uma oportunidade de crescermos com suas reflexões!

    Luís de Oliveira.

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    1. Hoje essa mensagem caiu perfeitamente meu amigo. Muito obrigada. Deus te abençoe

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