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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Eu autista - o início de tudo


Minha mãe tinha 39 anos quando nasci, ela era pequenina de 1,50 apenas e pesava 47kg. Já tinha outros dois filhos, um de quatro anos e outro de três e uma situação econômica nada favorável. Mas graças a Deus isso não foi impedimento para que eu viesse ao mundo. Nasci de uma cesárea, com circular no pescoço e fui ver minha mãe muitas horas depois. Meu desenvolvimento foi normal. Eu era um bebê calmo, falei cedo, andei cedo, porém, depois o silêncio tomou conta de mim.




Eu falava o suficiente para me fazer entender sobre o que eu queria ou precisava, o problema é que eu nunca sabia o que eu realmente precisava para ficar bem. Aos três anos já sentia uma tristeza tão grande em viver que me lembro como se fosse hoje. E assim fui até cerca de nove anos de idade. Eu tinha medo de tudo, até da minha própria sombra. Só gostava mesmo de me comunicar com a minha mãe. Tinha dificuldade em engolir, vomitava com facilidade e fazia xixi na cama com frequência.



Eu vivia em um isolamento escolhido por mim. Quando bem pequena ainda, já se tem lembranças daquela criança quieta, mas que não dividia brinquedos, nem lanchinhos, nem nada, dita como egoísta por quem visse por fora, mas como tranquila por parte de minha mãe. Próximo aos quatro anos fui colocada em uma escolinha, eu chorei sem parar, não me adaptei. Me agarrei a um brinquedo de madeira, era um papagaio desses de encaixar, como se fosse um quebra-cabeças de madeira. Aquele papagaio era minha referência, eu não participava de rodas, nem de cantigas, nem de jogos... Certo dia uma criança também quis o brinquedo, eu não dei, a professora obrigou, eu então joguei na criança ao invés de dar educadamente e passei o dia inteiro chorando. Na hora do lanche a professora teve que me levar à força para a mesa, me sentou, meu corpo estava endurecido, os lábios cerrados, ela insistia para eu comer. Me recusei, falava apenas por gestos, ela se irritou e pegou o copo de café com leite que tinha na frente e colocou na minha boca e disse que se eu não abrisse a boca ela iria colocar mesmo assim. Eu não abri a boca, tomei um banho de café com leite até os pés e chorei e gritei até minha mãe chegar... Aquele foi meu último dia naquela escolinha que para mim foi o início de uma jornada triste e sofrida na vida escolar.

As brincadeiras com outras crianças simplesmente não aconteciam. Eu não as compreendia, não tinha coragem de conversar, na verdade eu tinha medo. Fui crescendo e me olhava no espelho e sentia como se fosse um ser de outro planeta. Na escola eu era alvo de piadas, em casa era fácil perderem a paciência comigo. Minha mãe tinha que trabalhar, depois que comecei a crescer ela não teve mais como ficar comigo. Eu a via apenas a noite, isso para mim era torturante.

Vivíamos em São Paulo, ali me criei até os meus treze anos apesar de ter nascido no exato lugar em que vivo hoje. Era tudo muito precário, os estudos eram fracos, eu tinha muita dificuldade de aprender. Na segunda tentativa de entrar no que seria hoje o “Jardim” quando eu tinha seis anos a história se repetiu, não falava com ninguém, chorava muito, me escondia na hora da brincadeira e não aprendia o que era proposto. Eu andava de casacos até mesmo no verão, o que não foi aceito por uma das professoras. Um dia estava muito quente, eu estava esperando a “Kombi escolar” e essa professora cansou de me ver de casaco e arrancou ele de mim ao som dos meus gritos que ecoavam pelo pátio do jardim e da escola ao lado, chorei sem parar. Ao entrar na Kombi vesti o casaco de novo e fiquei olhando para ela pela janela... Ali foi a primeira vez que ouvi falar em autismo na minha vida. Minha mãe foi chamada na escola, mas naquela época se conhecia autismo geralmente como aqueles casos clássicos e graves, foi difícil para meus pais acreditarem, na verdade se passou por essa informação como sendo um exagero da professora.


Em casa eu não falava, ficava horas enrolando os fios de cabelo entre os dedos das mãos, eu arrancava um fio e enrolava em um dedo de cada mão até mudar a cor da pele, depois desenrolava e depois começava tudo de novo. Eu ficava tanto tempo fazendo isso que chegou ao ponto de minha mãe me perder dentro de um guarda-roupas dentro de casa. Eu entrei ali, em uma fresta, puxei a porta e fiquei até o anoitecer, distraída com um fio de linha, todos me procuravam, na rua, nos vizinhos e até na igreja, me encontraram por acaso, ao abrir a porta por alguma razão.

Assim eu era, no meu mundo não podia tirar a franja da testa, pois mostrar a testa era algo como mostrar uma parte íntima do corpo, por isso eu odiava sair no vento, camisetas eu vestia somente as que cobrissem os ombros, não comia bananas porque tinha medo das sementes, vai entender né... Assim como muitos outros alimentos, em cada um eu via uma ameaça diferente. E alguns outros me faziam vomitar. Tinha medo de banheiro, de escuro, de pessoas, de fantasmas, de barulhos, de insetos, especialmente de aranhas... Chorava se ouvisse música, se gritassem comigo, se me vissem sem roupa... Na verdade eu mais chorava do que qualquer outra coisa...

Eu vivia no meu mundo, era um mundo depressivo, eu não entendia o que se passava nem fora de mim e muito menos dentro de mim. Sempre achei que eu não fosse desse mundo. Tudo o que eu queria era ser um pouco, pelo menos um pouco mais aceita pelo mundo. Isso levou muitos e muitos anos para acontecer.

A singularidade de cada pessoa é algo tão complexo que se não buscarmos o autoconhecimento corremos o risco de ir embora deste mundo sem sequer ter nos dado a chance de nos amarmos em nossa real personalidade. Seja você mesmo, por mais que isso incomode quem não tem doçura o suficiente para te compreender.

No próximo post a história continua...

Beijos de luz e paz. Mamãe.



facebook/kenyatldiehl








12 comentários:

  1. Nossa kenya que difícil. Com a sua história entendi muitas coisas de lipe. Deus te abençoe. Anciosa para o próximo texto.

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    1. Obrigada querida. Emocionada com a tua mensagem. São tantas lembranças, tenho que escolher com muita calma o que escrever. Beijos de luz

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  2. Como me emocionei com sua história... mais uma vez me identifiquei. Minha mãe diz que eu era muito agitada(hoje sei que era por causa das convulsões ),inteligente para copiar os outros, mas repiti a primeira e a segunda série. Não passava da primeira linha logo parava e começava a observar as outras crianças, como se quisesse entende-las...

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    1. Ai que amor. Viu só. E aos poucos vamos nos idenficando e entendedo uma porção de coisas que aconteceram nas nossas vidas. Essa troca é inspiradora e motivadora também. Beijos minha flor.

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  3. Quero aqui deixar a minha grande satisfação de ter encontrado você distribuindo vida e esperanca aos nossos corações, agora nos dando a honra de conhecer sua história de vida , que com certeza vai ser de grande crescimento para mim,transmite a minha imaginacao esses momentos como se eu estivesse ali também vivenciando aquilo tudo, sou seu fã amiga e irmã de luz, aguardo anciosamente o próximo, abraços.

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    1. Muito obrigada pela linda mensagem. Que Deus ilumine sempre os teus caminhos e abençoe tua vida e tua família. Abraço fraterno.

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  4. Se hoje ainda é difícil para muitos entender o autismo, nem posso imaginar o que você deve ter passado em tua vida, querida Kenya. Mas graças a Deus que te está usando para ser luz para muitas pessoas. Beijos saudosos em todos!

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    1. Não foi fácil e confesso que ainda não é. Mas graças a Deus aprendi a viver de forma tranquila e feliz. Obrigada pelo carinho. Saudades demais de vcs. Beijo muito carinhoso

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  5. Boa tarde, alguém aqui no grupo conhece ou tem informações referente a vaga escolar com bolsa em instituições especializada?

    Há 6 meses venho quebrando a cabeça, e a omissão de informações e a falta de respeito em órgãos públicos é muito grande, informações vagas e sem direção...

    Por favor se alguém já passou por isso ou conhece um caminho me ajude!
    ����
    11 959457184

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    1. Olá, infelizmente não conheço. Sou de Canoas/RS. Mas no Facebook existe o grupo "O Cantinho dos Autistas" que tem muitos integrantes do Brasil inteiro. Pode ser que lá alguém possa te ajudar. Boa sorte. Beijo grande.

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