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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eu autista - parte final - a superação

Sempre fui uma pessoa positiva, apesar de todo o sofrimento experimentado, jamais me considerei derrotada, castigada ou esquecida por Deus. Eu estava com dezoito anos, havia conseguido terminar o ensino médio a muitas custas, reprovei novamente o terceiro ano. Concluir a disciplina de química só foi possível porque meu novo chefe pagou uma professora particular para mim.  

Eu estava com dezoito anos e consegui uma vaga de estágio em uma companhia petrolífera. A vaga era de secretariado, mas acabei indo parar no setor de segurança empresarial. Logo de cara cometi um erro grave e ali não era um lugar de cometer erros graves, o chefe veio falar comigo e eu apenas disse que não ia fazer de novo e que não tinha importância. Me lembro até hoje do tom assustador da voz dele. Ele me disse que ou eu levaria aquilo a sério ou eu cairia fora, que levar as coisas como se fossem erros escolares seriam o meu fim. Saí correndo para fora, sentei em uma escada e chorei muito. Um colega veio e me explicou com calma o porquê daquilo tudo, eu entendi. Precisava novamente tomar uma decisão que mudasse minha vida, foi aí que encontrei a dança do ventre.

Na dança aprendi a me olhar no espelho, enfrentar as tarefas em grupo, os pequenos públicos das apresentações, as dificuldades das coreografias, os xingões da professora quando eu errava, os cuidados com a roupa, a maquiagem. Também aprendi a esquecer de tudo e simplesmente dançar, sentir as batidas da música em meu coração, me envolver de corpo e alma em cada projeto, foi mágico, eu estava aprendendo a gostar de mim. Venci muitas barreiras, dei grandes passos, mas depois de algum tempo não consegui mais pagar pelas aulas e acabei saindo.

No trabalho tudo ia bem, de estagiária passei a contratada, descobri um hiperfoco em serviços de investigação, fazia tudo aquilo muito bem. Os anos foram passando, aluguei um apartamento melhor, viajava muito pela empresa, ganhei muito treinamento, dei palestras, participei de grandes trabalhos, me formei vigilante, segurança pessoal privada, fiz curso de atiradora (sou até hoje), fuga e perseguição em veículos, trabalhei com autoridades (a maioria hoje ou está fora ou está preso). Mas como sempre fui influenciável, com o tempo me tornei uma pessoa um tanto fria, passava por cima de tudo para atingir os objetivos propostos. Eu sofria, sofria demais, estava me fechando dentro de mim novamente, não sabia lidar com aquilo tudo sozinha, era um mundo novo, eu não tinha orientação, continuava sem amigos, me empolgava com facilidade, a essa altura já me assustava de menos, todo o medo que eu tinha havia se transformado em coragem, mas uma coragem perigosa, que me trouxe muitos riscos, alguns deles que geraram traumas irreparáveis.

Continuava sendo a menina estranha de óculos enormes, coque no cabelo, e sobretudo capa preta que não mudava seu jeito misterioso de ser. Aos vinte e dois anos tive a bênção de ser encontrada pelo meu marido, que sacou de cara que eu era diferente, ele topou o desafio, quis tentar. Chegou a ser alertado por um certo “parente” de que eu era uma encrenca. Ele então perguntou para a tal pessoa se eu tinha problemas com drogas e a pessoa disse que não e ele respondeu que então estava tudo certo, que quem era normal nesse mundo louco?

Em seis meses estávamos morando juntos. Eu ainda tinha crises no início, crises de choro que nem eu sabia porque, do nada começava e levava horas para passar, entrava no banho com roupa e tudo, eu ainda tentava me agredir, brigava sozinha, o sofrimento era grande, mas o amor do meu marido era tanto que nunca me deixou desistir... Resolvi sair da empresa e estudar. Entrei para a faculdade de direito. Minha saúde mental melhorou bastante. Eu estava por fio diante de tanta pressão.

Na faculdade eu estava indo bem, tinha problemas com as amizades, como sempre. As pessoas em geral sempre tiveram dificuldade de me entender, da mesma forma eu sempre tive dificuldade de entende-las também. Engravidei do Guilherme no quarto semestre, a gestação deu problema logo no início, mas fui forte e terminei o semestre. Ele nasceu com problemas, mas quando ele estava com nove meses eu consegui retornar para o quinto semestre. Levei numa boa, com algumas dificuldades até o sétimo semestre, as disciplinas que eu não tinha o hiperfoco eram uma tortura para mim, mas eu me esforçava, pegava recuperação, reprovava, deixava para o final, estava longe dos meus planos desistir. Até o dia que...

Tinha uma professora de Direito de Família que eu adorava, ela tinha sotaque mineiro, eu amava ouvir ela falar, gostava das suas feições, das suas histórias de vida, das suas aulas, tudo o que ela falava eu acreditava. Costumava observar seus cabelos, suas roupas, suas unhas pintadas, olhava com carinho, eu queria ser como ela. Minha alegria foi quando descobri que ela seria minha professora de novo em uma oficina de horas complementares. Eu nunca havia notado que ela não gostava de mim. Certo dia eu fiz uma pergunta, criei coragem e fiz a pergunta na frente de todos os alunos, coisa que eu não costumava fazer, era a oportunidade que ela esperava, as palavras da resposta dela não saíram da minha cabeça: “Kenya, tem pessoas que não nasceram para o Direito, que estão aqui perdendo tempo, olhando para as pessoas ao invés de prestar atenção no conteúdo, você não tem o menor direito de me perguntar nada, volte para o seu mundo e um dia você verá que eu tenho razão”. Eu saí da aula naquele exato momento e nunca mais voltei.

Meu filho precisava de mim, eu não tinha tempo a perder com o mundo que não me compreendia, não valia a pena. Eu estava exausta. Aquilo não era para mim.
Tempos depois entrei para a faculdade de educação física, já com vinte e nove anos. Eu queria trabalhar com inclusão, dar treinamento para pessoas com deficiência física. Peguei um estágio em uma academia de musculação, mas como sempre acabei me comportando como uma adolescente descobrindo o mundo. Não tinha limites para brincadeira, falava da minha vida abertamente para qualquer babaca que se apresentasse, eu dava minhas coisas pessoais, levava todo mundo de carro para cima e para baixo. Nunca me esqueço o dia que uma mulher me perguntou o que eu estava querendo com aquilo, que eu só poderia estar com segundas intenções. Eu não queria nada, era o meu jeito de ser.

Enquanto isso na faculdade esbarrei na disciplina de biologia celular e molecular e também na de estatística, aquilo foi literalmente impossível para mim, ainda mais tendo o Guilherme como prioridade, no auge do autismo, eu precisaria de uma dedicação exclusiva para passar nessas disciplinas e isso eu não tinha como fazer. Além disso eu tinha medo de falar sobre o autismo, não falava sobre o Gui e muito menos de mim. Eu tinha colegas que me adoravam e também tinha os que me odiavam.

Troquei para a licenciatura para fugir da biologia, mas continuava com o sentimento de medo, eu estava me perdendo, não sabia interagir de forma apropriada, me comportava como as meninas mais jovens e isso estava errado, queria cuidar da minha família, parar de sofrer com as dificuldades do aprendizado, parar de sofrer para ser aceita...
Quer saber? Eu precisava fugir! Doeu, doeu demais, dói até hoje. Mas aos trinta e um anos de idade eu descobri que não era um diploma que faria de mim uma pessoa melhor, que as pessoas, na sua grande maioria estavam comigo enquanto eu lhes oferecia algum benefício, com exceção daquelas maravilhosas que jamais me esquecerei.

Mais uma vez caí em uma armadilha, no horário escolar do Guilherme me matriculei em uma academia de musculação, eu estava acima do peso, esgotada emocionalmente, precisava da ajuda dos outros sem saber que a grande ajuda estava dentro de mim. Ao invés de fazer minha parte apenas, que aliás fiz muito bem, perdi dez quilos, defini meu corpo, eu acabei me envolvendo com a dona da loja de roupas da tal da academia que também usou e abusou da minha paciência, mas eu demorei para perceber. Até o dia que ela me mandou mensagens via whatsapp me humilhando dizendo coisas que não se diz nem para um inimigo. Saí da academia humilhada, envergonhada, com todos rindo de mim e dizendo que eu era louca. Certo dia encontrei com ela em um supermercado e ela disse para o Guilherme olhando nos olhos dele que tinha pena dele por ser meu filho e ele começou a chorar. Eu sei que a culpa foi minha, mas nunca mais vou deixar isso acontecer.

Cansei, me deprimi, sofri e resolvi me conhecer profundamente. Passei cerca de dois anos me dedicando exclusivamente ao meu filho, meu marido, minha mãe e a mim. A transformação foi incrível, foi mágica. Finalmente entrei na vida adulta, aos trinta e três anos de idade.

Nesses dois anos eu li bastante, descobri muitas coisas, me aceitei como sou, aprendi especialmente a não deixar as pessoas pisarem em mim, seja quem for. Descobri minha verdadeira vocação que é ajudar o próximo, evoluí como ser humano, me tratei.

Em maio de 2016 lancei o blog, tenho um grupo e uma página no Facebook, esta última criada em parceria com duas amigas de luta. Também escrevo diariamente para um grupo de pessoas em uma lista de transmissão no whatsapp com palavras de incentivo, escrevi um livro que não publiquei, faço visitas para as mães que precisam de ajuda seja que tipo de ajuda for.

Em 2017 recebi o diagnóstico de TDAH – Transtorno de hiperatividade e déficit de atenção, o qual já estou tratando e tem colocado minha vida em ordem. Eu não imaginava o quanto isso atrapalhava minha vida.

Muitas pessoas ainda me questionam o que me faz autista hoje em dia, perguntam se estou curada. Bem, a pessoa não tem autismo a pessoa é autista, portanto, sim sou autista. A minha vida segue alguns rituais, não consigo sair de casa se não estiver tudo no lugar. Uso a mesma maquiagem todos os dias, de domingo a domingo, sempre igual. Se gosto de uma blusa ou vestido, compro três ou quatro iguais, tenho várias botas de inverno, mas com certeza você me verá usando a mesma bota quase todos os dias do inverno porque me sinto segura com elas. Não lido bem com imprevistos, portanto se a pessoa chegar e tocar a campainha da minha casa eu não vou abrir a porta. Tem que avisar antes de ir.

Eu gosto de ajudar as pessoas, então acabo me envolvendo demais, principalmente aonde não sou chamada. Por vezes a pessoa está me ignorando e eu estou bem feliz escrevendo para ela e dando ideias de como ela pode fazer para solucionar o problema dela. Não raro a pessoa é irônica comigo, como por exemplo: “parabéns pela superação” e eu bem feliz respondo: “ah muito obrigada” e a pessoa estava brava comigo porque eu não quis acompanha-la em determinado evento, mas me propus a ir na televisão ajudar os autistas severos. Para esses casos hoje em dia sou bem direta e já corto de cara. Nunca fui vítima e também não gosto de vitimismo.

Aprendi a não dar chances de maiores conflitos, porque sei que sempre saio perdendo. Acho que quem me conhece sabe das minhas intenções. Quem não me aceita como sou, não é dando explicação que a pessoa vai passar a me aceitar. Eu continuo fazendo o bem. Espalhando o amor, gosto disso, não espero nada em troca. Acredito cegamente em Deus e nas coisas que somos capazes de atrair com nossos pensamentos e atitudes.

A perspectiva de vida de um ser humano hoje em dia é muito longa, caso eu viva bastante tenho muitas coisas em mente para fazer, sei bem onde quero chegar, quero sempre ser feliz!. Me encontrei exatamente no momento que desisti parar de buscar aceitação dos outros, sejam amigos ou conhecidos ou, ainda, parentes, hoje sou uma pessoa feliz, tranquila com meus diagnósticos, tomo minhas medicações e não tenho a menor vergonha de dizer isso. Sei que sou capaz de muitas coisas, mas minha melhor virtude, sem sombra de dúvidas é a humildade. Me esforço todos os dias para ser uma pessoa melhor, para aprender mais, viver de acordo com aquilo que Deus escolheu para mim.

Olhe à sua volta, veja a grandiosidade da vida. Sozinhos, somos como grãos de areia, mas juntos podemos ser grandes montanhas.
Beijos de luz e paz. Mamãe.


facebook/kenyatldiehl

11 comentários:

  1. Parabéns por toda sua luta e todas suas conquistas.
    O mundo precisa urgente de gente que se preocupe com gente.
    Você é um grande exemplo de vida.

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    1. Muito obrigada, feliz em ler suas palavras. Deus te abençoe.

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  2. Queridos, sempre os admiramos e agora mais ainda depois desse testemunho. Adv a ampara e a ama do jeito dele e intensamente. Tu, Kenya, sempre delicada conosco. Sempre nos recordamos do nosso encontro, sem querer, em Torres , quando voltávamos do teu casamento. Tu és guerreira, mãe dedicada e esposa companheira. Bjs saudosos. Deus continue te iluminando e te use dentro dos propósitos dEle.

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    1. Beth querida me lembro daquela noite com muito carinho. Eu ainda me comportava praticamente como uma criança. Vocês sempre foram tão cordiais comigo. Obviamente pela experiência de vida que têm perceberam que havia algo de diferente em mim, mas ao contrário de muitas pessoas daquele grupo sempre me trataram com gentileza e alegria. Isso eu não me esqueço jamais. Permita-me dizer: Amo vcs.

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  3. Parabéns minha querida a sua historia é linda e emocionante.Você tem a minha admiração e respeito, pois realmente você é uma grande vencedora.

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    1. Muito obrigada querido. Deus te abençoe infinitamente.

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  4. Impossível não chorar, Deus abençoe grandemente todos os dias de tua vida!

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    1. Obrigada, muito obrigada. Deus te abençoe e te ilumine.

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  5. Que maravilha devorando cada texto me sentindo dentro das histórias de tão reais e completas Lindo de mais

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  6. Que maravilha devorando cada texto me sentindo dentro das histórias de tão reais e completas Lindo de mais

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    1. Muito obrigada pela sua mensagem. São esses momentos de carinho que tornam a vida especial. Fazem todos os acontecimentos nos levarem adiante como um impulsionamento de luz e força. Beijo muito carinhoso. Fique com Deus.

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