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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Eu autista - segunda parte - o diagnóstico

Eu nunca havia mencionado assim abertamente que eu era autista. Sempre falei somente sobre meu filho, quanto a mim eu dava apenas pistas, deixava no ar. Mas depois que falei uma vez, perdi o controle da situação e então não tinha mais volta. Minhas caixas de mensagens lotaram, eram muitas perguntas e achei justo e correto falar sobre isso abertamente... Até mesmo porque se falo do meu filho, é importante para ele que eu fale de mim também... Continuando de onde parei no post anterior, cheguei aos sete anos muito magra. Ao trocar os dentes a situação piorou. Meu dentes eram gigantes, meu rosto pequeno, meu corpo extremamente magro, a pobreza a essa altura já havia tomado conta. Tudo era precário, vivíamos no limite em todos os sentidos, na periferia, com o mínimo suficiente para sobreviver.

Era o ano de 1990 e estava muito na moda se falar em autismo, porque haviam criado uma associações de pais de autistas na época, então se falava disso na escola também. Eu entrei para o que se chamava de primeira série e em um segundo episódio de crise de choro na escola minha mãe foi chamada e alertada sobre a possibilidade do autismo pela segunda vez. Eu havia levado um brinquedo que ela tinha comprado no bazar, mas que ainda não havia pago, a professora titular que era minha referência havia adoecido não tinha ido dar aula e uma substituta foi no lugar. Não entendo até hoje o porquê, mas ela retirou meu brinquedo e disse que não iria devolver porque eu estava me comportando mal. Eu chorei e gritei até minha mãe chegar, me lembro de soluçar tanto que até tinha dificuldade do ar entrar. Fui parar na direção e nem mesmo o fato de me devolverem o brinquedo me fez parar de chorar. Aquilo para mim foi o fim do mundo. Minha mãe me trocou de escola...

Em casa eu seguia brincando com grãos de feijão como se fossem pessoas em plantas de apartamentos à venda nos jornais de domingo, gostava de escutar música em um radinho amarelo com fones de ouvidos, depois que o trauma da música passou eu então passei a amá-las - exatamente igual ao meu filho hoje. Não entendia piadas, não sabia conversar, não aguentava caminhar, não tomava sorvete porque se caísse um pingo na roupa eu chorava até que trocassem para mim. Os fios de cabelo tinham que estar sempre extremamente alinhados, na hora de dormir eu tinha um ritual e era capaz de ir fazer xixi vinte vezes antes de dormir definitivamente. O detalhe é que eu dormia na parte de cima do beliche e na sala. Enquanto eu não levasse um xingão bem alto eu não parava de ir ao banheiro e voltar para cama. E dormia repetindo o mesmo som que saía da garganta e batia nos dentes, voltava para a garganta e saía de novo e batia nos dentes, era um ciclo que só acabava quando eu finalmente pegava no sono, era a única coisa capaz de afastar todos os monstros que me traziam tantos medos...

Eu era sensível demais, ouvia demais, doía demais, até mesmo um grão de areia que entrasse no sapato me fazia paralisar e empacar aonde quer que eu estivesse. Eu pisava com os pés descalços, não tocava em texturas diferentes, não brincava na terra, não olhava nos olhos, não aprendia, não prestava atenção. Ou falava demais ou não falava nada. Quando perguntava algo era sempre uma pergunta sem sentido. E eu era capaz de ficar horas e mais horas olhando para o céu. Os temporais sempre me fascinaram, os dias de sol me deixavam triste, não que eu não gostasse, mas eu me sentia como um pássaro numa gaiola. 

E foi na nova escola, no segundo ano que minha mãe foi chamada pela terceira vez e pela terceira vez ouvi falar em autismo. Eu só queria brincar com uma menina, que por sinal não queria saber de mim. Eu escrevia de frente para trás, de baixo para cima, era considerada um desastre. Achavam que eu tinha preguiça porque para algumas coisas eu era esperta, como por exemplo para contar moedas, isso eu amava, mas era o único jeito de fazer contas. Eu me prendia em detalhes e adorava eles, se a professora fosse com uma blusa com um desenho que eu gostasse eu ficava olhando somente para o desenho e depois para o cabelo e depois para os óculos. Eu sabia todinho o conteúdo da professora e de quem me interessava, mas eu não sabia o que era dado em sala de aula.

Após a reunião com a direção minha mãe me levou ao pediatra, até porque eu sofria com uma dor de cabeça interminável que me consumia, dor nas pernas, sono, fraqueza, eu estava sempre quase morrendo como diziam...

O pediatra logo que me viu me disse que eu era linda, o que eu achei um absurdo, afinal, eu era feia que era um raio e ele era um homem adulto, aquilo me assustou, depois me pediu que lhe desse um beijo, eu senti muito, muito medo mesmo. Ele tentou conversar, mas eu estava resistente. Quando ele mandou tirar a roupa para examinar (eu fui de macacão), aí foi o fim do mundo, lá se foram os gritos e choro de novo, fiz o exame a força. Sim, eu era autista. E agora?

E agora que minha mãe sabiamente nunca contou pra ninguém. Nem mesmo pra família. Ainda tinha o mito de que a mãe era culpada pelo autismo como “mãe geladeira”, o que ela estava muito, mas muito longe de ser, minha mãe sempre foi mais pra forno do que pra geladeira, minha mãe era tanta segurança para mim que quando ela saía eu entrava no roupeiro e ficava entre os cabides de suas camisolas sentindo seu perfume até ela voltar. E tínhamos o agravante da pobreza, da falta de recursos, de dinheiro, onde tratar? Como medicar? O que fazer? Se for mesmo é algo muito leve...

Me lembro muito bem que voltamos para casa aquele dia num silêncio diferente, minha mãe, sempre muito forte, pensativa. Tinha uma família de cinco pessoas para cuidar, uma criança que era um amor, mas ao mesmo tempo aos olhos dos outros era um problema, não ia se dar bem na vida... Tomamos três ônibus para voltar para casa, todos lotados, como de costume vomitei em um deles, depois de umas três horas e meia chegamos em casa. Minha mãe sempre dizendo que se uma pessoa foi capaz de conseguir algo é porque outro também pode. Costumava dizer e diz até hoje que nada é impossível.

Ela usou o reforço positivo, sempre falava que eu iria conseguir, dava forças, dizia que eu era inteligente, não se abalava nem em meio ao caos e olha que enfrentamos muitos caos e de todos os que passamos eu acho que fui o menor deles.

Mudei de escola novamente, um grande impacto, tudo novo. Demorei um tempo para me adaptar, dois anos se passaram... Mas desta vez ao invés de ser apenas quietinha e diferente eu passei a fugir da sala de aula e logo após passei a fugir da escola também. Me encantei com a morte e me fissurei em escrever poemas sobre ela, tinha uma agenda onde escrevia poemas diariamente sobre morrer e se libertar e assustava a todos com isso. Ninguém queria saber de ficar perto de mim. Eu estava com onze anos, trocava o dia pela noite e no quinto ano escolar só passei em matemática porque tinham medo do que eu escrevia... Por dentro eu estava pedindo socorro, não sabia me expressar, achava que iria me parecer com Raul Seixas e um milagre aconteceria, mas foi bem diferente disso, eu só estraguei tudo...

Nessa idade eu já conversava bastante, o problema é que nunca soube diferenciar quem era bom de quem era ruim e também não sabia a hora de parar. Não sabia ter limite com nada, nem com brincadeira, nem com coisa séria. Muitas pessoas se aproveitaram disso para cometer as mais diversas maldades contra mim. E eu era sempre a última a perceber...

Entrei na adolescência antes da hora, saí de São Paulo e vim para Porto Alegre. Perdi toda a minha referência de vida, de lugar, perdi meu pai, minha casa, meus objetos pessoais, enfim, tive que reaprender a viver, sorte mesmo foi ter minha mãe...

Lembre-se que de nada adianta você se mudar de lugar infinitas vezes se todas as vezes você se leva junto. A grande verdade é que você precisa se aceitar. Eu aprendi isso aos trinta e um anos de idade.

A história continua no terceiro post...

  
Beijos de luz e paz. Mamãe.
facebook/kenyatldiehl




13 comentários:

  1. Ainda impactada com tua história! Serve de aprendizado pra nós! Muitas vezes podemos achar que é o "jeito" da pessoa/criança/adolescente e nos afastarmos por não termos aquela "sintonia" de amizade. A cada dia mais concluo, nunca se pode julgar uma pessoa por suas atitudes antes de saber pelo que ela passa. Lendo seu post, me recordei do meu tempo de escola em que eu tinha uma colega, esquisita, quietinha, não gostava de conversar com ninguém e eu sempre tentava, mas ela não me dava abertura (nem pra ninguém)... Fiquei pensando nela. Tuas postagens tem auxiliado a mim na questão de percepção do diagnóstico. E como é bom ver que o autismo é algo adaptável, que pode ser tratado... Direcionado... A sociedade não vê assim! E não vê pq são leigos no assunto. Eu era leiga. Obrigada Kenya! Pq eu ERA leiga. Parabéns pelo texto. Parabéns pela coragem. Parabéns!

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    1. Mari, cada vez mais encantada com sua capacidade de compreensão sobre a vida e as adversidades. Fico muito feliz que você leia e entenda meu ponto de vista e minhas colocações. Muitas pessoas precisam dessa compreensão e desse amor. Beijo muito carinhoso. Fique com Deus. Ainda tenho mais duas partes para publicar.

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    2. A capacidade de empatia nos seres humanos ainda se mostra muito deficiente.Por muitas vezes e por ser absolutamente leigo e desinformado a assuntos adversos ao mundo chamado de normal,é que as pessoas julgam sem saber.O mundo de diferenças sempre esteve entre nós,só é preciso olhar para as pessoas com olhos de amor.E o amor trasforma,enfrenta obstáculos,e nos faz fortes.Parabéns ao amor incondicional e compreensivo que sua mãe de deu,foi por esse amor que você chegou até aqui e obteve vitórias em toda sua tragetória.
      Parabéns pela força e coragem.Beijos de luz.

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    3. Mãe é como um anjo, até o cheiro conforta. Assim sou hoje para meu filho. Obrigada pela linda mensagem. Beijos de luz.

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  2. Cada vez mais encantada com você, com sua história, seu modo de ser e acima de tudo com tua coragem. Vejo na sua história muitas coisas de lipe. Tá sendo um aprendizado. Tenho certeza que você é um anjo enviado por Deus pra ajudar as pessoas. Beijos de luz.

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    1. Que alegria para minha alma ler tuas palavras. Deus te abençoe. Beijos de luz.

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  3. Me emociono cada vez mais com a tua história de vida e superação e coragem.
    Aguardo ansiosa o terceiro post.
    Um abraço!!

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  4. Me vi denovo. ..Minha dúvida era sobre diagnóstico quando pequena minha mãe me levou no psicólogo mas não me lembro de ter sido falado nada sobre autismo.Sofro muito até hoje as pessoas não me compreendem tenho um filho pequeno para o qual dedico todo meu amor e também me mantenho atenta com ele.Sempre tive medo...mas agora começo a pensar que eu sim seria meu Deus seria a única explicação. Nada muito a fazer mas tentar me entender e me reservar.Gostei muito do seu texto quero continuar acompanhando muito bom.

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  5. Me vi denovo amei quero continuar acompanhando.Nunca fui dignisticada apesar de passar por psicólogo agora começo a me entender e realmente é provável mas a essa altura so me resta tentar me aceitar me direcionar.Muitos não me entendem até hoje.Tenho um filho pequeno o qual dedico todo meu amor e sempre fico atenta a qualquer sinal.

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    1. Pretendo ainda hoje escrever a terceira parte. Será uma ter sua leitura. Beijos de luz.

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