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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Eu autista - terceira parte - a adolescência

Depois de uma infância difícil e uma adaptação ao mundo que eu esperava acontecer mas que nunca chegava, eu comecei a ter noção do que era a vida. Sonhava com o dia que fosse adulta para ter minha própria independência, sempre soube que seria incapaz de cursar uma faculdade, mas algo dentro de mim me dizia que eu teria outras alternativas.

Eu não posso mencionar detalhes da minha história por não ter autorização, por motivos óbvios, de pessoas importantes que foram fundamentais em diversos acontecimentos, a maioria deles tristes, mas que me tornaram imune ao sofrimento e fizeram com que eu transformasse tudo em energia ao meu favor.


Nos mudamos de São Paulo para Porto Alegre em busca de um sonho, um sonho de paz, de tranquilidade, de uma vida melhor... Minha cabeça estava uma confusão terrível, não tinha casa, não tinha mais meu pai, não tinha mais minhas coisas, tudo havia ficado para trás. Morávamos de favor com parentes, até que conseguimos alugar um apartamento para nós. 

Minha mãe foi trabalhar em uma padaria no centro da cidade e minha depressão foi profunda. Eu passei a ter ataques de gastrite e o atendimento no SUS era dos piores que se possa imaginar. Era inverno, ano de 1996, um dos mais frios que minha mente registrou até hoje. Eu não estava preparada para isso. Aonde eu morava anteriormente não fazia frio como aqui. As aulas iniciavam de manhã, eu simplesmente não conseguia ir para a escola. Vestia uma jaqueta jeans e uma camiseta de manga comprida para sair às sete horas da manhã, de ônibus, no frio de dois graus ao vento. Não fui forte o suficiente para aguentar. Eu não conseguia comer e minha mente não conseguia funcionar.

Minha mãe foi chamada na escola para conversar com a psicóloga, a diretora, junto comigo e uma professora e lá ouvimos o que minha mãe considera a maior ofensa que ela já ouviu até hoje quando o assunto sou eu. A psicóloga disse a ela que as outras crianças riam muito de mim, que eu não tinha condições de me socializar, que eu não tinha roupas para vestir e que eu faltava muito, para ela, a psicóloga, só havia uma solução. Ela sugeriu para minha mãe que me tirasse da escola, que eu parasse de estudar para poder trabalhar e ajudar em casa. Não consigo conter as lágrimas ao escrever isso. Aquela moça destruiu meus sonhos naquele dia. Mas fomos fortes. Me esforcei, a primavera chegou e eu terminei o ano. Com a mesma roupa, sem comer e passando a roleta por baixo porque não tinha passagem para o ônibus.

Antes de completar quatorze anos eu tive que sair de casa. Um problema horrível e que tinha muita prioridade não permitiu que minha mãe ficasse comigo. Passei em casa de amigas, de conhecidas, até que passei a morar em um sótão de uma garagem que me emprestaram e depois aluguei uma garagem de verdade para mim. Consegui meu primeiro emprego em uma fábrica que produzia plásticos, passei a estudar a noite, no oitavo ano do ensino fundamental. No ano seguinte, quando passei para o ensino médio, me inscrevi no curso técnico de secretariado e consegui meu primeiro estágio nos Correios...

Foram anos passando frio, fome, dormindo às vezes no chão. Mas o pior disso tudo foi a incompreensão do mundo. Passei uma adolescência conturbada. Como eu não tinha limites, não sabia parar, fiquei embriagada pela primeira vez aos quatorze anos, quase entrei em coma alcoólico, não fui socorrida, mas apanhei na cara, urinei nas calças, paguei meus pecados.

Eu era inconveniente, não sabia conversar, se ia dormir na casa de alguma amiga eu não tinha assunto e o que mais incomodava as pessoas era a minha mania irritante de observar os detalhes, eu era capaz de observar cada pedacinho da pessoa, desde os dedos dos pés até a ponta da orelha. Fazia perguntas inconvenientes e quando falava, acabava falando demais, como se a pessoa fosse um padre e eu estivesse diante de um confessionário.
Facilmente levava um fora, sempre as pessoas tinham uma desculpa para não estar comigo. Ah como doía, mas era vida que seguia. Não sei porque, mas desde muito pequena apesar de tristonha eu tinha uma positividade fora do comum. Na minha cabeça eu iria sair daquela situação de um jeito ou de outro. E nas piores horas eu sempre tive uma boa alma que me estendesse a mão. A solução aparecia, a ajuda chegava, o milagre acontecia.

Eu buscava conversar com pessoas de mais idade que eu. Não suportava me relacionar com pessoas da mesma idade. Elas não conseguiam me entender, eu sabia que elas riam de mim e isso me gerava verdadeiro pânico. As pessoas mais velhas sempre tinham algo a ensinar. Então eu gostava de conversar com as pessoas que já tinham se dado bem na vida, que tinham superado dificuldades e eu perguntava para elas como haviam chegado àquela etapa da vida e na minha cabeça eu ia registrando tudo para poder fazer igual depois.

Confesso que a essa altura da vida o autismo já não era uma lembrança viva na minha cabeça, eu me achava feia, fora de contexto, buscando aceitação das pessoas. E talvez esse tenha sido meu grande erro. Eu era facilmente influenciável, como eu queria ser aceita acabava comprando a ideia de qualquer monstro que se atravessasse pelo meu caminho.

Com dezesseis anos troquei de estágio em busca de um salário menos pior. Fui ser secretária de um advogado que trabalhava sozinho. Um senhor de idade muito bravo e exigente. Foi terrível, eu ficava sozinha o dia inteiro, mas aguentei por um ano e dois meses lá. Ia a pé trabalhar, de lá a pé para a escola, a pé para casa, já não podia mais passar por debaixo das roletas e a situação financeira ainda era um caos. Ou eu morava em um apartamento e andava a pé, ou andava de ônibus e voltava para as garagens de 50 reais por mês. Reprovei o segundo ano do ensino médio, não aguentei tanta pressão e desisti do curso técnico que era integrado com a escola. Refiz o segundo ano, tentei novas amizades e só me machuquei. Até hoje ainda não entendi porque certo dia cheguei na escola e tinham coisas horríveis escritas no quadro para uma amiga minha. Todos diziam que tinha sido eu e ela queria me bater, chegou a me pegar pelos cabelos, seguraram ela, mas não seguraram a raiva de uma turma inteira contra mim. Meu mundo havia desmoronado, eu não tinha feito aquilo, eu via o sorriso dela por trás das pessoas, satisfeita com a minha derrota, mas não entendo porque isso aconteceu, porque fizeram isso contra mim...

Em casa as dificuldades só aumentavam, minha imagem era destruída pouco a pouco diante do espelho. Tinha crises cada vez piores, chorava, me batia, me mordia, arrancava os cabelos, urrava, babava, as vezes quebrava tudo, mesmo morando sozinha, as crises vinham. Um dia uma vizinha gritou dizendo que ia chamar a polícia. Decidi por conta própria consultar um psiquiatra do plano de saúde que o estágio oferecia. O cara, usando o argumento de que precisava entender porque eu me achava feia, mandou eu trancar a porta e tirar toda a roupa para ele ver meu corpo e dar sua opinião. Saí correndo, claro que sem fazer o que ele mandou, mas morrendo de medo, eu tinha ido em outro que tinha me dado uma lista com treze medicamentos para tomar, eu também tinha ficado com medo. E agora? O que eu faria? Fui para a farmácia e comprei toda a medicação, comecei a tomar. Cerca de um mês depois tive uma rigidez muscular na mandíbula que a travou atravessada com a arcada dentária de cima. Só gritei tanto assim na vida de novo quando meu filho nasceu. A dor era insuportável, fui para a emergência do hospital, estava entrando em convulsão...

Depois disso minha mãe me acompanhou até uma psicóloga que sugeriu uma internação, ela viu que eu estava no limite. Com 17 anos, 1,62m de altura, pesando 39kg, intoxicada de medicamentos... Minha mãe não aceitou, pensou que se me internassem em uma clínica psiquiátrica seria meu fim. Eu fui para casa sozinha, me tranquei no apartamento, joguei todos os medicamentos pelo vaso sanitário e esperei a crise de abstinência chegar. E ela chegou, foi horrível, eu vi coisas, queria morrer, gritei, me atirei no chão, pedi socorro, desmaiei... Na segunda-feira fui trabalhar, não podia perder o emprego, ninguém podia desconfiar, eu tinha que começar a comer. Eu precisava reagir, não podia me entregar. E assim foi, sobre eu estar abatida, apenas disse que havia passado mal, o que não fez muita diferença, ninguém prestava atenção em mim.

O lado bom de tudo é que a mente do ser humano é poderosa, opera milagres. Tem uma capacidade incrível de se recuperar. Nesses anos todos, em que se passou tudo isso e que narro apenas a mínima da mínima parte da história me tornei forte, aprendi a lutar, descobri que a força interior é o Deus que temos dentro de nós. E isso pode nos levar muito mais longe do que imaginamos.

O início da minha grande transformação foi quando comecei a dançar. A dança do ventre me levou para dentro de mim, enfrentei não somente os pequenos palcos aonde me apresentei, mas descobri uma menina que nunca havia conhecido, corajosa, competente e com uma capacidade gigante de superação.
No próximo post, a quarta e última parte. Aguardo você.


Beijos de luz e paz. Mamãe.
facebook/kenyatldiehl


13 comentários:

  1. Engasgada....assim estou no fim da leitura.
    Kenya...em um futuro próximo estarei comprando sua história publicada em um livro.
    Deus é maravilhoso e tem grandes própositos em sua tragetória ainda.
    Uma história de vida trite e uma coragem de superação emocionante.

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    1. Muito obrigada minha linda. Se isso acontecer será um livro grande, com muitas coisas para contar. Se for da vontade de Deus sairá. Beijo muito carinhoso.

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  2. Isso mesmo... Nos ajude e se ajude com os relatos! Bjin

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  3. Estou emocionada.Quanta dor.Tenho um neto autista e muito medo por ele. Como será? Tudo de bem para vc.

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    1. Deus protege. Seu neto será sempre feliz. Se depender de mim teremos um mundo cada vez mais inclusivo e preparado para nós autistas vivermos com dignidade, respeito e liberdade. Beijos

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  4. Estou encantada com seus textos e fico imaginado minha filha adulta. Graças a Deus ela vem sendo preservada de uma infância de dificuldades financeiras, algo que faz parte da minha e que meu esforço vem livrando ela de vivenciar. Se você conseguiu se tornar esta mulher, só posso pedir a Deus que permita o melhor a minha filha também. Eu dedico tudo que tenho a ela. O seu depoimento é luz para muitas mamães que fazem tudo hoje,ja que nao sabemos o amanhã! Só posso orar e abençoar você e seu pequeno. Um forte abraço

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    1. Deus te abençoe. Muito obrigada pela leitura e pela linda mensagem. Parabéns por ser esta mãe dedicada que és. Estamos juntas. Beijos de luz e paz.

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  5. Nossa.. vc é muito guerreira! Incrível sua história! Vc é uma menina de ouro. Que tem um dom fantástico para escrever e se expressar através da escrita. Vc pode ajudar muita gente com a sua história!

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    1. Muito obrigada, até pouco atrás eu não sabia escrever. Mas após ler dezenas e mais dezenas de livros descobri em mim a arte da escrita. Falar sobre meus sentimentos e sobre as as coisas que aprendi na vida é uma forma de me libertar também. Beijo grande.

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  6. Sempre se superando essa linda e querida menina! Bjs. Deus é bom demais!

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    1. Obrigada minha querida Beth, saudades enormes. Foi um alívio imenso poder me apresentar como realmente sou. Uma verdadeira libertação. Beijo grande.

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  7. Minha filha é asperger e mora sozinha desde os 23 anos,mas vou pousar com ela duas vezes por semana. Doeu muito ler teu relato e sei o quanto é sofrido o dia a dia de vcs. Minha filha fez faculdade,dirige,trabalha e namora. Sempre foi muito esforçada e corajosa sofreu muito na escola o ser humano é bem cruel quando quer. Minha filha tem um psicólogo maravilhoso ela dizia quando criança que ele era o amigo que ajudava ela a resolver seus problemas. Tem dias que ela está irritada e se tranca no quarto chora . Tomou medicação só quando criança. Lutei e ajudei minha filha como pude hoje é independente mas sabe que a mãe está sempre aqui. Bjs

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