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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Autismo não é doença

Ainda existe a falsa crença por parte de muitas pessoas de que o autismo seja uma doença. Muito embora alguns pesquisadores busquem a “cura”, não é exatamente a cura do autismo propriamente dito o foco da questão, mas sim a cura dos sintomas, aqueles que prejudicam a vida de pessoas que estão dentro do amplo espectro do autismo.


Um amigo muito querido, ouviu de certa pessoa que “autistas têm a cara estranha”, ele para me defender, mostrou uma foto minha e então o rapaz em sua concepção me achou “linda”, ao que meu amigo respondeu que eu era autista e que não poderia ser julgada pela “doença”. As pessoas nas melhores das intenções ainda têm a ideia equivocada de que somos doentes, de que sofremos ou de que temos vergonha de como somos ou, ainda, de que somos extremamente infantis...
Importante esclarecer que tudo isso está muito equivocadamente “achado” pelas pessoas. Nós, autistas, não sofremos por ser quem somos e muito menos por ser como somos, o nosso sofrimento está em como o mundo anda tão superficial e sem amor. A sinceridade pela qual somos tomados nos coloca em situações difíceis e complicadas de lidar pelo fato de estarmos cada vez mais expostos a ambientes onde pessoas usam estratégias que melhor lhes cabem para obter as vantagens que precisam para satisfazer suas prioridades.

Não somos infantis, podemos ter até um “que” de ingenuidade, mas a maturidade, ao contrário do que se pensa, vem antes mesmo da maturidade adquirida por pessoas neurotípicas. Eu, quando tinha dez anos já sonhava em ser adulta para poder comandar minha própria vida, ter minha paz e fazer minhas escolhas sem depender de ninguém. Meu filho, também autista, com sete anos, já diz que quando crescer será dono de uma locadora de automóveis, que irá ganhar muito dinheiro, irá ajudar as pessoas e ainda se divertir com o que mais gosta.

Temos, em alguns casos (eu e meu filho somos assim) dificuldade de aprender o que não é do nosso hiperfoco, podemos demorar muitas vezes mais que o esperado, em contrapartida somos autodidatas naquilo que nos fascina. Guilherme aprendeu sozinho tudo sobre marcas e modelos de carros e eu faço trabalhos publicitários sem nunca ter cursado nada parecido...

Uma das coisas mais esquisitas que passei após contar para o mundo sobre o meu autismo foi o dia que um ex-colega de faculdade me escreveu dizendo: “poxa, em pensar que dei em cima de você, não sabia que estaria violando uma pessoa tão pura”. Calma, meu amigo, o problema era eu ser casada, o autismo me faz fiel, mas não me torna pura...
Outra situação, esta que considero triste, foi que recebi convite para visitar amigos que há tempos não vejo. Respondi que tenho medo. Então fui questionada o porquê. Eu disse que como agora todos sabem que sou autista não tenho coragem. A conversa terminou com a frase que ficou na minha cabeça: “Sim, imagino”... Não. Não imagina! Porque se fosse amizade de verdade iria incentivar o encontro, dizer que isso não é um problema, que iria me ajudar até mesmo a falar sobre isso... Mas, calma! Não estamos no mundo ideal criado por mim, estamos no mundo real que parece estar acabando... Não foi surpresa, apenas relato aqui como forma de esclarecimento para tantas famílias que se sentem isoladas e convivem com a dor do preconceito.

Eu tenho 34 anos, sou mãe, esposa, empresária, escritora... Sou uma pessoa calma, altruísta... Não represento risco para ninguém...

O autismo não é doença, é um transtorno global de desenvolvimento. Faz com que eu tenha interesses específicos por coisas não tão comuns aos demais e pouco ou nenhum interesse por coisas que a maioria tem. Meus hábitos são repetidos e frequentes, como a maquiagem sempre igual todos os dias, o jeito de estacionar o carro, o local aonde escrevo, a mudança de rotina que me incomoda se não prevejo... Posso olhar nos seus olhos profundamente enquanto você fala, mas quando eu falo isso pode ser um pouco complicado, morro de medo de insetos, amo tecnologia e se gosto muito de uma coisa eu quero muitas delas...

Mas meu coração é bom, eu divido tudo o que é meu, gosto de fazer as pessoas felizes, gosto de sinceridade, sei pedir desculpas como ninguém, choro fácil se me magoar, sinto tudo à flor da pele, me arrepio muito quando falo de assuntos muito interessantes e posso falar demais se gosto muito do assunto...

Eu vejo beleza em tudo, gosto das pessoas, gosto da vida, amo carinho, até demais, todos os meus sentidos são altamente aguçados. Não gosto de ficar sozinha, mas se estou no meu mundo é porque preciso dele para buscar minha paz. Não gosto de ser cobrada, no meu tempo faço tudo dar certo. E o meu sexto sentido é um absurdo de tão potente. Você pode estar sorrindo e sendo gentil comigo, mas se o seu pensamento não for condizente com suas palavras certamente eu irei sentir.

Autismo não é doença, autismo não é vergonha, autismo não é limitação. O autismo passa a ser limitação quando as pessoas nos olham como se fossemos limitados.

E os autistas severos? Ah os autistas severos! Eles são um encanto, têm uma capacidade de compreensão muito superior ao que qualquer pessoa possa imaginar. Eles se entendem muito bem comigo. Quando estou em contato com eles, temos uma troca tão linda, perfeita, através do olhar, do toque, sem palavras, sem gestos. Uma interação que só é possível quando há entrega, amor, ausência de julgamento e cobrança.

Está na hora de pararmos de cobrar uns dos outros. Está na hora de cada um fazer sua parte, para que todas as partes se encaixem perfeitamente na linda missão que Deus nos deu. Se fomos feitos diferentes uns dos outros é porque podemos somar, cada qual com o seu dom, o seu potencial e a sua contribuição com o que tem de melhor em si.

Acreditar em sua própria capacidade não quer dizer que você tenha que ser perfeito, mas que você pode dar o seu melhor, sempre respeitando sua maneira de ser e agir. Não permita que ninguém destrua sua positividade perante a vida. A luta é grande, as dores existem, mas a alegria de viver cada dia supera as dificuldades, os medos e as decepções. O amor é muito mais poderoso, transforma, alegra, te faz seguir em frente. Portanto ame, ame muito, ame as plantas, os animais de estimação, ame a si mesmo, se dê um carinho, sorria diante do espelho. Você é uma criação única e perfeita de Deus.

Autismo não é doença. Não precisamos de cura.

Não basta sermos aceitos. Queremos ser amados.

Beijo muito carinhoso.

Kenya Diehl
Coordenadora MOAB
Movimento Orgulho autista Brasil – Porto Alegre e Região Metropolita


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