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sábado, 23 de setembro de 2017

O diagnóstico tardio, as amizades e a importância disso para os seus filhos


Autista de alto funcionamento ou autista asperger é o termo que se usa para as formas mais leves de autismo, em alguns casos até mesmo imperceptíveis para os que não tem um olhar mais apurado sobre o transtorno.


Estamos vivendo uma época em que todos dizem não ter preconceito, mas poucos aceitam, acreditam e confiam de verdade em uma pessoa de posse do diagnóstico. Muitos mitos ainda nos rondam, nossa missão não é nada fácil e nossa vida em meio a um mundo cheio de malandragens é muito difícil de ser compreendido.

"Nós Asperges, estamos mais próximos da neurotipia do que do transtorno propriamente dito. Isso nos torna pessoas mais cobradas nas regras sociais, na desconfiança que existe sobre a realidade do diagnóstico e também na dificuldade de se manter em uma rede real de amizades..." (Nando Castro). Por vezes pensam que temos a mentalidade infantil ou que não temos condições de assumir um compromisso sem desistir na metade do caminho.

Existe a sensibilidade ao toque, aos cheiros, aos sons, aos estímulos visuais, mas existe também a sinceridade, a transparência e a capacidade de vencer barreiras que poucas pessoas conseguem sem estar no espectro. Por isso a importância de uma rede de amizades, não exatamente pela quantidade e sim pela qualidade desses amigos que nos tornam mais fortes e inseridos no mundo. Nosso feeling é aguçado e percebemos de longe quem gosta da gente, quem não gosta ou quem é falso. É uma espécie de sexto sentido que não raramente demora para aparecer, podemos facilmente ser seduzidos ou enganados, mas quando percebemos, a impressão nunca será falha.

Não gostamos de ser encarados como seres de outro planeta, como doentes ou incompetentes. Somos diferentes, mas com uma consciência gigante sobre a nossa missão, os nossos direitos e nossos deveres. Quem se aproxima e gosta da gente, é de verdade, do jeito que somos. Isso não quer dizer que queremos ser aceitos a qualquer custo sem abrir mão de nada. Sabemos que precisamos ceder por um lado, enquanto as pessoas cedem por outro e assim temos a chance de nos encontrar bem no meio do caminho.

Mas pare e pense no porque desta busca incessante pelo diagnóstico, por parte de muitos pais e mães de autistas. Imagine-se desajustado do mundo toda uma vida, até o dia que você encontra uma pessoa que “meio que te entende”, casa e: tem um filho autista! Então você passa a virar especialista no assunto e percebe que na verdade você não foi tão estranho assim, mas sim você foi incompreendido, solitário, vítima de amigos, parentes, professores, colegas e uma lista infindável de pessoas que nunca te aceitaram como você realmente precisava...

Resgatar a própria história e buscar respostas para perguntas que não pareciam ter soluções é saudável e esperado por todos que viveram a exclusão social e o abandono. Ajuda, inclusive, a transformar as próprias experiências em lições para ajudar aos nossos filhos a superarem as suas próprias dificuldades, transformando assim um obstáculo em um grande degrau que os impulsionará a serem livres e aceitos não somente pela sociedade, como também por si mesmos.

Eu percebi que meu filho se daria melhor na escola sem a professora auxiliar quando me recordei sobre a minha infância na vida escolar. Percebi que se eu tivesse uma monitora para sair da sala de aula comigo eu jamais teria concluído sequer o ensino fundamental. Minhas fugas da sala de aula eram constantes e minhas pernas pareciam que iriam sair correndo sozinhas se eu continuasse sentada. Até a cor do batom da professora era capaz de me gerar desespero, mas como eu tinha medo de andar sozinha acabava ficando a maior parte do tempo me controlando para permanecer ali, pelo menos fisicamente já que minha mente permanecia constantemente perdida em minhas próprias ideias.

Ao resgatar a sua experiência de vida terás mais compreensão consigo mesmo, mais aceitação com a sua realidade e mais capacidade de ajudar os seus filhos sem o medo do desconhecido. Não estamos vivendo uma época em existam mais autistas, mas sim uma época em que existe uma gama maior de conhecimento por parte dos especialistas e o diagnóstico de pessoas que jamais sequer desconfiaram serem autistas antes de receber a notícia de que seus filhos o são.

Eu, que tive um diagnóstico aos nove anos de idade, que foi escondido pela minha mãe uma vida inteira (para a minha própria proteção), que sofri bullying desde muito pequena, tive hipoglicemia, crises de vômito, de choro, de “anorexia”, de medos, traições e abusos, consegui lutar, morei de forma precária durante muitos anos, dormindo no chão, sem alimentos, sem aquecimento, sem condições mínimas de sobrevivência, consegui trabalhar, namorar, casar, ter filho... Sou empresária, escritora, blogueira... Dei a volta por cima, sempre acreditei que não existiria um mundo ideal para mim, mas que eu buscaria meu espaço por onde quer que eu fosse. Agarrei com todas as minhas forças as minhas amizades o tempo que foi possível, me dediquei a trabalhos que achava que eu daria conta e evitei assumir compromissos dos quais achei que não daria conta de cumprir.

Fica difícil imaginar porque uma pessoa como a gente seja esquecida pelos amigos ou que seja vítima de preconceito. Pois é, acontece que são poucas as pessoas que gostam de sinceridade, isso parece muito bom em um primeiro momento, mas nem sempre se quer ouvir a verdade sobre o seu cabelo estar horrível ou sua bunda estar caída caso você peça a minha opinião. Da mesma forma, pode parecer desagradável eu demorar para perceber que você está cansado e que não quer mais a minha companhia. Ou, ainda, que saio imediatamente de um local em que tenha um inseto voando. Também o fato de não gostar de surpresas coloca as pessoas muitas vezes em decepção, prefiro ouvir antes o que você quer me dizer ou com o que você quer me presentear, não é falta de respeito, é apenas uma segurança de que saberei lidar com a situação.

Posso parecer falsa em não conseguir olhar nos seus olhos em um primeiro momento, mas posso ser mal interpretada com a profundidade do meu olhar, que é capaz de atravessar sua alma caso eu confie em você.

As amizades, a busca pelo diagnóstico tardio, a possibilidade de resgatar sua própria história e desvendar os mais profundos mistérios do seu ser te levam a uma sensação de plenitude e leveza. Não subestime as suas impressões, não se abale com o primeiro péssimo atendimento por parte de um profissional que desmerece as suas impressões e não se entregue sem ter a certeza de que chegou ao fim da linha. Acredite em profissionais de verdade, que irão te ajudar a fazer tão sonhada viagem interior.
Tente ser um pouco melhor a cada dia, mas liberte-se da ideia de perfeição. Seja humilde em falar sobre as suas dores, não tenha vergonha de suas lágrimas e ensine os seus filhos a sentir o que, de fato, deve ser sentido. Um dia eles precisarão entender que todo mundo sente dor e que tentar ser perfeito só te leva ao caminho da solidão. Observe as pessoas ao seu redor. Somente conhecendo o seu próximo é que você será capaz de sentir a real necessidade do que ele realmente precisa e, assim, poderá ser útil de verdade, longe do egoísmo e da busca pelo reconhecimento.

Relaxe, sinta-se feliz e não se cobre tanto. Viva os seus sonhos e se dê sempre uma nova chance, não importa quantas vezes você precisará recomeçar.

Um beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.


KenyaDiehl

Escritora, blogueira e empresária


Facebook: Kenya Diehl

Instagram: @kenyadiehl


12 comentários:

  1. Eu também tive e tenho estas mesmas dificuldades!

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  2. ...Nem sei bem o que dizer...Obrigada!!❤

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  3. Nunca aceitei ir a um psicólogo ou psiquiatra, apenas aos 23 anos quando tive minha pior crise procurei um psiquiatra, logo no início da consulta ela diz pra mim que eu não pareço ser autista porque olho nos olhos, achei tão absurdo que não conseguir responder a ela que conseguia fazer olhar para ela apenas porque treinei a vida toda para conseguir isso. Depois desse episódio desisti de procurar por um diagnóstico, logo fará 2 anos desde que tive a consulta, queria muito encontrar uma profissional que me entendese pois tenho consciência de que estou piorando.

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    1. Meu amor, existe um certo preconceito por parte das pessoas com relação a isso. Muitos acham que queremos o diagnóstico para ter um beneficio. Não desista, vai em outro médico. O bom médico sabe que não existem benefícios quando a história de vida é tomada por dor e exclusão. Beijo muito carinhoso e fique com Deus.

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  4. Não canso de ler seus textos Kenya, são maravilhosos, obrigada por nos ajudar expressando suas vivências e emoções vividas com o TEA.

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    1. Obrigada pelo carinho minha linda. Muito bom ter você aqui comigo. Super beijo.

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  5. Sempre autentica e verdadeira nas mensagens que nos transmite amiga, lindo texto, minha sincera admiraçao e respeito por voce e pela sua historia!

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    1. Oh meu brother. Tu sabe que o carinho de irmãos é verdadeiro. Obrigada por existir. Beijo no coração.

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