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domingo, 3 de dezembro de 2017

A experiência em atendimentos de emergência

Cheguei no hospital por volta de 19hs. Guilherme com bronquite, falta de ar, lábios roxos e febre. Aguardamos cerca de quarenta minutos até passar pela triagem, na qual entrei sozinha com ele, a regra é um adulto por vez. Ele estava em estado crônico, com crise de asma e rapidamente passou com o médico. Pedi a enfermeira para que deixasse meu marido entrar. Nada feito. Pedi para o médico e prontamente ele disse que a regra do hospital era bem clara e que não podia abrir excessões. Imediatamente comecei a chorar, duas semanas sem dormir, primeiro eu com varicela e depois uma semana com Gui passando mal. Comecei a me balançar com Gui nos braços, soluçava e dizia ao médico que tinha medo que meu filho morresse, que já internou várias vezes, que já entrou em coma, que já quase partiu outras tantas vezes. Eu precisava que ele abrisse uma exceção.


Não sei o que exatamente motivou o médico a mudar de opinião, mas calmamente ele me pediu para me tranquilizar e chamou meu marido. Levamos o Guilherme para o oxigênio, ele não suporta aquelas máscaras horríveis e gigantes no rosto, ele gritava, se debatia, arrancava tudo. Meu marido segurando as mãozinhas dele, enquanto eu tentava equilibrar meu pequeno menino de 1,20m nos braços. Depois raio-x. Eu já estava na privação do sono há vários dias, esgotada emocionalmente e o fato de ter meu esposo comigo fez toda a diferença. Cada vez que tirávamos o oxigênio do Gui ele se acalmava e ficava bem. Pude ir ao banheiro, tomar uma água e parar de chorar. Ninguém entendia nós três fechados como uma concha, com um ventilador portátil na mão e uma criança grande gritando de dor por inalar oxigênio com medicação. Não precisávamos que ninguém nos entendesse, apenas que respeitassem nosso espaço.


No retorno com o médico ele sugeriu internação por conta da bronquite e asma ter evoluído para pneumonia e encaminhou a papelada. Vi meu chão sair debaixo dos meus pés. Orei a Deus e Lhe deixei que agisse com Sua soberana decisão.Quase que como um milagre foi feita uma reunião entre os médicos, quatro avaliaram e auscultaram meu Gui, pulmão crepitando, febre que não cedia. Mas Gui com sua imensa doçura, disse que queria ir para casa e que iria cuidar da mamãe. Nos liberaram com a condição de retornar caso a febre permanecesse além das 16hs do dia seguinte, então precisaria internar. 


Sete horas dentro do hospital, saímos de lá uma e meia da madrugada. 
Cheguei em casa com uma crise de frio sobrenatural, garganta doendo e uma terrível dor nas pernas e quadris. Não tomei banho, nem escovei os dentes. Apenas dei o remédio para o Gui, tirei a roupa e com a blusinha que eu estava me aninhei com ele na cama e peguei no sono antes do frio passar. 
Saúde no Brasil é uma tristeza, mesmo com plano de saúde, mesmo em casos mais graves, não importa. Cada papel que vai ser liberado, cada exame realizado... Tudo leva em torno de uma a duas horas. Pais esgotados, crianças abatidas, médicos que passam sorrindo e conversando com os colegas e com suas pastas a tiracolo, sem olhar para o lado e ver que ali tem seres humanos. Que para chegar até ali tentamos evitar a todo custo, já chegamos no limite do cansaço e da dor.



Graças a Deus e às nossas carteiras de autistas conseguimos ter o apoio do meu esposo, teria sido impossível aguentar tudo aquilo que chegou a ser como uma tortura psicológica...
Eu sonho com um mundo mais humano, onde os médicos tratem os doentes e seus familiares com respeito, que quando dissermos que somos autistas não vejam apenas um "cid", mas sim uma condição que merece cuidado, paciência e o mínimo de exposição possível ao stress.
O autista precisa de tempo para assimilar as coisas. Não é questão de não poder ser contrariado, mas sim da falta de sensibilidade das pessoas em nos explicar as coisas com calma.
Não superestimule seu filho independentemente de ele ser autista ou não. Toda criança precisa de infância, da sua mente livre para processar as informações, da sua dignidade respeitada. Tudo tem um limite, o excesso desgasta, cansa, torna improdutiva  e insatisfeita a mente dos nossos pequenos guerreiros. Eles podem até apresentar inicialmente alguma estereotipia quando ansiosos, porém, precisam aprender a lidar com isso também e somente o tempo e o amor é que lhes poderá proporcionar o auto controle e o prazer pela vida. Tolerância é a chave.
Não apresse as coisas, jamais!
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.
KenyaDiehl 
Empresária, escritora e blogueira 
kenyadiehl@gmail.com 

4 comentários:

  1. Palavras de muita saberdoria,amor e compaixão,me tocaram profundamente...

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    1. Muito obrigada. Deus te abençoe. Beijos no coração

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  2. Relato que transmite a importância do amor para a cura, vc consegue passar isso toda sua doçura, a morte e dedicação pelo seu filho, falo por experiência própria pois infelizmente já passei momentos difíceis assim com meu filho, e com uma força que vem do amor a gente consegue superar, beijos de luz,o amor cura tudo.

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    1. Muito obrigada pela linda mensagem. A força que vem do amor é capaz de conseguir o impossível. Obrigada pelo carinho. Beijos no coração. KenyaDiehl

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