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domingo, 21 de janeiro de 2018

Mães do autismo com "like autism"

"Like Autism" é o nome que se dá quando uma pessoa apresenta comportamentos autísticos, mas não fecha o diagnóstico por não ter requisitos básicos que a poderiam enquadrar em autismo propriamente dito.

O diagnóstico de autismo de um filho gera uma dor quase que incapacitante na vida dos pais. Essa dor pode demorar apenas alguns segundos, no momento em que se recebe o laudo (o que é raridade), mas também pode variar de horas, dias, meses ou até anos para que a informação possa ser processada e digerida. Não corro o risco de falar em superar a dor porque acredito que isso seja algo meio inviável. Muito embora a maioria de nós, mães, conseguimos dar a volta por cima e amamos cada vez mais nossos filhos, a dor que se sente ao pensar nas dificuldades que um filho autista irá enfrentar e a perda daquele filho idealizado perfeito, faz com que volta e meia essa dor latente retorne...

O autismo existe desde que o mundo é mundo. Mas somente de uns tempos pra cá é que passou a se falar em autismo leve (dsmV) ou síndrome de Asperger (cid). Até pouco tempo quem era asperger geralmente não falava sobre sua condição com medo do preconceito. Já o autismo mais severo sempre foi de fácil visualização pelas dificuldades apresentadas como um todo na vida de quem o tem. Então, ou a pessoa era autista ou não era, "simples assim". Porém, as dificuldades que o autista leve enfrenta são muitas e a dor que uma família experimenta é grande o suficiente para abalar qualquer estrutura, por mais bem montada que esta esteja.

Com a passagem do tempo, os avanços nas pesquisas e com a fácil disseminação de informações pela Internet passamos a ter cada vez mais acesso aos profissionais e aos tratamentos, bem como passamos a conhecer melhor este misterioso universo que é o autismo.

Muitas mães, de posse do diagnóstico do filho e com a aquisição de conhecimentos sobre essa nova realidade acabam encontrando no autismo uma válvula de escape para que a dor se torne um pouco mais suportável. Passam então a se identificar com os sintomas de autismo do filho e, por instinto, acabam "imitando" hábitos e comportamentos autistas, o que as faz acreditar também serem autistas e, assim, criam uma grande expectativa de que o filho irá superar todas as dificuldades assim como ela superou. Porém, isso pode ser perigoso para ambos os lados. Pois cada autista é diferente um do outro e essa mãe pode estar enfrentando um quadro grave de depressão e estar precisando de ajuda, mas pela maneira como ela encontrou para criar forças acaba sendo difícil até mesmo os familiares perceberem a dor e a angústia enfrentada por essa mãe.

Nem todos conseguem mensurar a gravidade de uma depressão. Mas ela é uma doença mental grave e que pode ter consequências drásticas se o paciente não pedir socorro ou se não houver a intervenção de um familiar para que a ajuda seja buscada com os profissionais capacitados para isso. Psicólogos e psiquiatras fazem excelentes trabalhos com resultados surpreendentes e a permanência em um tratamento de terapia e até medicamentoso ajuda essas mães a terem mais clareza de idéias para enfrentar a dor e fazer o que precisa ser feito para ajudar o seu filho.

Leia, a seguir, o depoimento de uma mãe, Jacky Santos, que passou por isso e hoje não se vê  mais autista, faz o tratamento adequado para depressão e já enxerga a vida com outros olhos:

"Não poderia deixar de dividir com você o meu diagnóstico que recebi da psicóloga essa semana. Eu não tenho TEA... Na hora eu não sabia se agradecia ou se chorava, mas enfim, irei começar a tratar da depressão. A Dra me falou que o que acontece comigo é muito comum entre as mães de autistas, pois muitas entram de corpo e alma nesse mundo e passam a sentir tudo que seus filhos sentem, daí por que o isolamento, as tristezas e etc..
Ela relatou que eu sinto necessidade de ter pessoas ao meu redor, porém nesse momento estou muito mais focada na vida do Leo que esqueci de viver.
Achei muito interessante tudo que ela me falou e me perguntou se eu quiser ela vai me ajudar a lidar com a depressão e como ser mãe de um autista.
Eu até pensei em vc colocar esse assunto no blog para assim talvez mais mães estejam passando por isso.
As sequelas que apresento são todas relacionadas à epilepsia, como a linguagem destorcida às vezes, a perda de memória, a escrita atrapalhada, a falta de concentração...
Enfim... Tenho que cuidar agora também da minha saúde mas tenho certeza que logo estarei 100%... Beijinhos, Jacky e Leo."



Existem casos, porém, como o meu que fui diagnosticada pela primeira vez aos nove anos como autista e hoje possuo diagnóstico de asperger ou autista leve. Assim, temos mães e pais que, de fato descobrem o autismo em si após fazer um exame detalhado de sua história de vida, as recordações de uma infância difícil e a dificuldade de se enquadrar nos padrões. Por isso é importante ir atrás de um diagnóstico, seja ele de autismo, de depressão ou qualquer outro que o faça se sentir melhor e ter o atendimento adequado para melhorar a sua qualidade de vida.

Todos sabemos que o autismo não é tudo de bom... Mas, depois do luto, há vida, esperança e podemos ser felizes. Claro que existem casos mais difíceis, outros nem tanto, uns com comorbidades, outros não. Mas os pais e as famílias podem ter uma vida com menos sofrimento através da aceitação da realidade na qual estão inseridos, especialmente se estiverem livres de fazer comparações uns com os outros, tanto entre os autistas quanto consigo mesmos. Cada indivíduo é único e sempre existe um meio para que consigamos sair das profundezas das dores para um mundo mais feliz e real.
Todos os filhos são especiais e, em qualquer síndrome ou deficiência, a lição é grande e proporcional ao tamanho da luta.
Juntos somos mais fortes.

Autismo é vida - me ame como sou.


Kenya Diehl
Escritora, empresária e blogueira
Autista asperger e mãe de autista

kenyadiehl@gmail.com

Instagram @kenyadiehl



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