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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Autismo não é piada


Autismo é entrega, é dedicação e é também exaustão. Vivemos de tentativas, erros e acertos. Investimos tempo, desmarcamos compromissos, tapamos nossos olhos para o preconceito. E ouvimos coisas que gostaríamos de nunca ter ouvido de pessoas tão queridas por nós. Outras vezes somos nós quem falamos coisas para as pessoas, palavras as quais gostaríamos de nunca termos precisado falar, mas que para o nosso bem ou de nossos filhos autistas é necessário e essencial e, dependendo do caso, chega a ser vital.


Para o bom andamento da vida de uma família em que há um autista, a rotina é prioridade, qualquer coisa que saia do habitual precisa ser avisado e pensado de forma que não hajam prejuízos emocionais, perdas de habilidades já conquistadas ou desequilíbrios alimentares e de sono. Infelizmente uma boa conversa nem sempre é garantia de que a paz será mantida. Pois a insegurança que os autistas sentem quando sua rotina é quebrada pode produzir medos, reações impensadas e atitudes que não condizem com o temperamento frágil e sensível da pessoa com TEA.

O mundo precisa saber que o autismo não representa alienação, que pessoas autistas tem sentimentos, vontades próprias e razões muito especiais para viverem de forma tão diferente das demais. Fazer piada, pouco caso dos sentimentos ou trata-los como tolos os fere igualmente como feriria qualquer pessoa. O espectro do autismo é gigante, existem pessoas com a síndrome que são inteligentes, outras mais inteligentes, algumas com déficit intelectual, muitos falam somente o essencial, outros tantos conversam perfeitamente, parte dessas pessoas não falam de forma funcional e muitos não emitem qualquer tipo de som. A diversidade é enorme, assim como em qualquer outro grupo onde há seres vivos, não existem dois autistas iguais. O que há é uma vasta lista de quesitos presentes na vida de quem está no espectro. Os sintomas, graus de deficiência, necessidade do uso de medicação, presença de comorbidades como epilepsia, hipotonia muscular ou falhas motoras e até mesmo a possibilidade de ter uma vida independente variam de indivíduo para indivíduo, caso a caso, de acordo com a história de cada um, o tanto de estímulos que recebeu, a personalidade, as intercorrências e o grau de comprometimento intelectual.

Existe algo que é praticamente unânime entre os autistas, que é a sensibilidade emocional. Independentemente de ter a linguagem verbal desenvolvida ou não. Escutamos as conversas, compreendemos as falas, a preocupação, o cuidado e também o preconceito. É como uma mente sã presa em um corpo que não consegue se expressar de acordo com o restante do mundo. Não gostamos de brigas, nem de xingamentos, nem de reclamações.

Somos milhões espalhados pelo mundo todo, lutamos pelo nosso espaço na escola, nas redes sociais, nos programas de televisão, nos círculos de amizade, no mercado de trabalho e na segurança e cuidado quando chegar a fase da velhice. Estamos aqui em busca de uma vida digna, com liberdade, saúde, lazer, estudos como qualquer cidadão. Fazemos a nossa parte junto com nossos familiares e grupos de apoio sem ofender a ninguém, sem tirar o espaço dos demais, sem pedir por vantagens ou coisas das quais não sejam realmente essenciais para que possamos ter tranquilidade e também que garantido nosso direito de ir e vir.


Não façam piadas com nossa deficiência, não use nossa síndrome para se referir a pessoas das quais não tem o comportamento que se esperava que tivessem. O autista luta incansavelmente junto com a família, corre atrás de tratamentos, terapias e até medicamentos que lhe possibilitem uma vida independente ou pelo menos confortável e com dignidade.

Por trás de um autista existe uma mãe, um pai, um irmão que deixaram de dormir inúmeras noites, que deixaram de viajar nos feriados, que pararam de comemorar as datas festivas, que as vezes até chegaram a vender o que tinham atrás de uma melhor qualidade de vida. Já ouviram desaforos demais, já tiveram muitas portas fechadas, amigos que partiram sem motivo... Respeite as famílias de guerreiros e guerreiras que sentem a dor do preconceito, da deficiência que não é visível. Não pense nem por um segundo como seria ser autista e ter filho autista em uma sociedade em que não há punição, que a justiça não se faz presente e que para tudo o que se precisa é uma luta, um drama, uma dor diferente...

Seja solidário. Quanto mais você se doa para o mundo, mais o mundo responde positivamente para você. Seja doação de amor, de palavras positivas, de incentivo, de alegria, de fé, de esperança ou o que você tiver para doar. Escolha ser a luz onde não existe mais forças, seja positividade quando todo o mais tiver desacreditado que existe saída. Pense que se suas palavras puderem trazer conforto para ao menos uma pessoa você terá feito com que sua luz tenha se espalhado em nome do bem. E se você puder ajudar um grande número de pessoas então sua alma estará carregada da mais pura energia de vida. Seja amor, seja o bem, porque ao escolher ajudar o próximo grandes bênçãos chegam até nós e aos outros também.

Beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.

Kenya Diehl

Autista Asperger, mãe de autista,

Escritora, blogueira e empresária.

kenyadiehl@gmail.com

https://www.youtube.com/user/kenyadiehl
Instagram: @kenyadiehl


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