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terça-feira, 13 de março de 2018

A falta do diagnóstico - autismo em adultos



Em uma conversa informal sobre o vídeo que gravei para o meu canal do YouTube no qual eu falo sobre a minha adolescência, Miguel me mandou um relato sobre sua vida até o diagnóstico. Ele é casado, tem uma filha autista e uma neuro típica. Hoje consegue viver melhor, com menos cobrança sobre si mesmo. Ele é um dos tantos autistas aspergers que passaram a vida sofrendo a dor do isolamento, da depressão e da crueldade de pessoas que se consideram melhores e mais fortes... Leia o texto dele, com suas próprias palavras, fiz apenas pequenos ajustes gramaticais, mas nada além do necessário para um melhor entendimento sobre o que ele quis expressar.


"Meu diagnóstico como asperger veio tardiamente aos 39 anos, depois de várias crises de depressão e vários percalços na vida." Miguel

"Ao contrário de você, eu nunca tive um diagnóstico, a não ser sentenças estranhas de médicos esquisitos que diziam à minha mãe que eu não sobreviveria porque era demais de esquisito, fora de padrão, ou que eu seria inferior a outras pessoas.
Mas os médicos tinham uma certeza, não era autismo porque eu falava, e eu gostava muito de falar porque era uma forma de eu me defender do mundo estranho ao meu redor, eu não gostava de ser tocado, então eu expressava isso aos outros, depois de me xingarem de "maricas" e "bixola" e tirarem sarro, normalmente me rotulavam de esquisitão e nojento, então paravam de me tocar e pra mim o que importava é que naquele momento não estavam me tocando. Eu gostava de colecionar tudo sobre animais da Amazônia e sobre selos, então eu tinha várias coleções sobre animais, mas não pensem que eu tinha dinheiro, tudo era adquirido no Mercatudo das casas André Luiz, uma espécie de sebo e brechó ao mesmo tempo.
Eu não tinha amigos, nunca os tive, era muito isolado e sempre o último a ser escolhido para qualquer jogo, era um verdadeiro peso para todos, porque quando era escolhido para um jogo, seja de futebol ou vôlei eu não apresentava o rendimento que tinha que ter e fazia o time perder, o que deixava todos furiosos comigo.
O fato de eu ter um "bastão de madeira" de estimação - isso mesmo um pedaço de madeira! Um galho de árvore que eu havia pedido a um marceneiro para lixar, alisar, e envernizar, ... , o marceneiro era meu falecido avô, que anos mais tarde se arrependeu de ter feito o que eu lhe pedira, pois achava que eu tinha muito apego aquele objeto, mas aquele objeto para mim me ajudava a esconder as poucas manias de movimento que eu tinha, então eu ficava jogando ele para cima e o pegava após ele fazer meio círculo no ar, claro que muitos gozavam da minha cara, porque fraco em coordenação motora como eu era, muitas das vezes o bastão caia no chão, ou no meu pé me machucando, mas eu amava fazer aquilo e aquilo me acalmava e me ajudava a pensar. Desculpe se pareço estranho, mas o fato é que sempre fui estranho.
Eu não tinha expressão, eu era parado, mas como percebi que isso agradava às pessoas logo desenvolvi um jeito de treinar isso. Também a questão de olhar no olhos, foi algo que percebi que incomodava muito as pessoas e algumas pessoas gritavam comigo: "Olha pra mim quando falo com você garoto!" Então uma vez, lembro-me como se fosse hoje, eu olhei para um farmacêutico que levantou a sobrancelha para mim e depois sorriu, eu treinei aquilo no espelho por dias a fio, acredito quase um mês, e então estava eu pronto para atacar, estava com minha mãe quando encontramos um amiga dela e ao invés de fazer o que sempre fazia que era me esconder atrás de minha mãe, eu disse oi e levantei a sobrancelha como havia treinado e sorri igual ao espelho, então a pessoa ficou muito alegre e interessada, porque já me conhecia e disse, finalmente ele está desenvolvendo... como eu era o esquisitão da família, o desengonçado, o nerd, então resolvi investir horas naquele processo que aquela mulher havia chamado de desenvolvimento, e então copiosamente pedi para que minha mãe me conduzisse até aquela farmácia onde o farmacêutico pudesse fazer ou esboçar mais reações para que eu pudesse copiá-lo, isso seria muito útil, no primeiro ano funcionou muito bem e eu me dei muito bem, porém depois falhou, era muita informação para decorar e de como agir frente a cada situação, e também porque o farmacêutico ficou de saco cheio de mim e achou que eu estava de gozação com ele por tanto perguntar o que ele fazia quando (1) alguém queria conversar, (2) quando alguém estava brava, etc.
Também eu, sofri muito bullying e fui alvo de muito sarcasmo e piadas e pegadinhas maldosas. Também eu não ligava para o jeito de eu me vestir, nunca liguei, ligava sempre para o conforto. Eu tentava estar nos grupos e tentava ser quem eu não era, isso também me trouxe traumas muito profundos e as cicatrizes ficam...
E as vezes a gente cansa de tentar ser "normal" porque isso nos desgasta muito muito muito. Eu também fiz três faculdades e também não concluí nenhuma das três pelo hiper foco também. Eu cursei matemática por 3 anos e meio, e também cursei tecnologia em hidráulica por 2 anos e depois tecnologia em hidráulica e saneamento ambiental por 3 anos.

Acho que nós deveríamos ter o direito de ter o reconhecimento de um curso superior, apenas o reconhecimento, talvez não um diploma, mas todo asperger ou autista de alto funcionamento que conseguisse cursar mais da metade de qualquer curso superior por duas vezes, caso de inúmeros aspergers e autistas de alto funcionamento.  Uma vez um rapaz autista como eu disse, bem vindo ao clube, eu tentei, dizia ele, por 7 vezes cursar uma universidade e falhei em todas.
Espera aí, eu acho que ao menos nós deveríamos ter o curso superior, ainda que não habilitado em nenhuma área, porque de um forma ou outra nosso processamento como adultos é de nível superior, no meu serviço todos dizem que eu tenho nível superior, então eu desvio o assunto ou preciso ir ao banheiro urgente para sair do assunto. Mas sim desejaria eu que fosse reconhecido o nível superior, primeiro para que aqueles que trabalham e tem como exigência nível superior em qualquer área para poder galgar um cargo a mais no emprego pudessem obtê-lo, também para aqueles como eu que gostam de prestar concursos pudessem concorrer em concursos de nível superior, não um diploma para exibir, não para mostrar, até mesmo porque esse reconhecimento de nível superior não seria um diploma, mas um free-pass, um green card para concursos e acessos de nível superior, porque de fato o temos, mas nosso hiper foco muitas vezes não nos permitirá que terminemos o curso, porque tendemos a especializar naquilo que gostamos e não há uma adaptação para nós, não há compreensão neste fato.
Também acabei sozinho, eu não tenho para oferecer além do que eu sou.
Eu também sou autista e levo uma vida adaptada, gosto de brincar também, mas é tudo muito diferente, no meu caso levo até o estigma de ser homem, porque homem supostamente tem que ser violento, malicioso e um estuprador em potencial, então tenho que tomar muito cuidado em minhas expressões e naquilo que digo, não que ser mulher seja mais fácil, acho que para o autista como nós, é tão difícil quanto, pois se mulher você está mais vulnerável, e se homem você é taxado por uma suposta conduta que deveria ter.
No meu caso, sou eu, minha esposa, minha filha autista como eu, e nossa filha adotiva, minha mãe e só isso, a família me abandonou e insiste que eu tenho autismo só em alguns pontos, poxa, mas eu não tenho autismo, eu sou autista."
Miguel Lndt Filho
Guarulhos/SP

Espero que tenham gostado e que se inspirem a buscar resolver o que mais lhes incomoda. Nunca é cedo e nunca é tarde.
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.

Kenya Diehl
Autista asperger e mãe de autista
Empresária, escritora e blogueira
E-mail: kenyadiehl@gmail.com
 YouTube: youtube.com/user/kenyadiehl
 Instagram: @kenyadiehl
facebook.com/kenyatldiehl

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