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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Algo inesperado - reação autista


Hoje era para ser um dia normal, uma manhã de segunda-feira como tantas outras, mas com a diferença que era véspera de feriado e eu já comecei a ficar ansiosa pela quebra da rotina que viria logo depois. Eu gosto muito de feriados, mas o problema é a sensação de vazio que dá em um dia de semana em que todo o comércio fecha, as pessoas resolvem fazer churrasco todas ao mesmo tempo e o cheiro toma conta do bairro, alguns vizinhos aproveitam para colocar música alta e os cachorros de todas as casas ficam naturalmente mais agitados, nossas terapias são interrompidas e meu marido não vai trabalhar. Sim, finais de semana também são assim, mas eles têm previsão de roteiro que nos mantém seguros e preparados.        
Gravei um vídeo para o meu canal do YouTube enquanto Gui estava na escola, dei uma ajeitada na casa e algo em meu sexto sentido me dizia para não ir de bicicleta buscá-lo. Resolvi seguir minha intuição e chamei um Uber. Para minha total falta de sorte, o carro dele estava todo amassado. Entrei e logo de cara perguntei se ele havia se acidentado, mas eu só queria que ele disse sim ou não, o rapaz sem saber sobre meu autismo, naturalmente começou a contar detalhes do acidente que sofreu e os motivos pelos quais ele não havia consertado o carro. Imediatamente me veio em mente o meu acidente, de dois meses atrás. Ouvi os gritos, as batidas, a derrapagem, todos os carros batidos à minha volta, meu choro, minha sensação de impotência, a música que tocava no rádio, as lentes do óculos de sol que estava em nosso bichinho de pelúcia e voaram para o alto, cada detalhe, som, cheiro e minha cabeça parecia que ia explodir.
Ao final da história do moço só consegui dizer um "que legal", ao que ele me olhou pelo retrovisor com ar de dúvida... Paramos em frente ao colégio e eu desci correndo, com o celular na mão e sem me dar conta de que havia deixado a chave de casa no banco do veículo. Tentei conversar com a Coordenadora e as profes, mas eu repeti a mesma história umas cinco vezes, nada relacionado aos acidentes, era algo sobre o Gui, mas era uma história que me lembrei de contar e que não saía da minha cabeça e eu alternava em momentos de distração e euforia. Percebi minhas "gafes" quando uma professora de outra turma com a qual eu nunca havia conversado antes me deixou ali falando sozinha e saiu atendendo seu telefone celular.
Chamei o uber de volta para casa e parei na casa da minha mãe para pegar a cópia da chave do portão que ela tinha no chaveiro dela, mas as chaves das portas ela não tinha. Então eu e Gui fomos para casa, entramos pelo portão e fomos até os fundos do quintal.
Queríamos fazer xixi e fomos para a lavanderia para usar o banheiro e quando abrimos a porta demos de cara com a árvore de natal que foi esquecida de subir para o sótão. Ponto fraco do Guilherme, árvores de natal! Meu ponto fraco, medo de aranhas! Entramos em um acordo e resolvemos fazer xixi na grama... Gui na maior naturalidade, enquanto eu procurava um canto sem insetos, sem barulhos, sem chance de me sujar... até que ele disse: "faz isso logo mamãe", pedi que ele virasse de costas e ali eu fiz xixi, com medo de aranhas, de minhocas, formigas e marimbondos...
Olhei para a varanda do meu escritório e vi que a tela estava se soltando nos grampos de baixo e tive a brilhante idéia de pegar uma escada de obras que havia no galpão, trouxe até a porta e não consegui alongá-la para encostar na parede. Subi todos os degraus disponíveis, me segurei no suporte da tela e a escada balançou. Meu plano havia dado errado, mas dei graças a Deus que não me machuquei!
Eu queria entrar em casa a qualquer custo e não tinha um "plano B", comecei a ver as árvores, os gatos, a grama e a lavanderia se voltando para mim, meu corpo começou a coçar, eu suava e não conseguia mais pensar direito. Resolvi ligar para o meu marido, chamei um hambúrguer na tele entrega e por sorte eu tinha vinte reais no bolso.
Comemos nosso lanche com uma coca cola no banco de madeira ao lado da janela da cozinha. Mosquitos me perturbavam e eu tentava manter a calma. Guilherme na paz de sempre e de repente me dei conta do quanto ele me fez evoluir, me mostrou que, quando nos expomos, naturalmente aprendemos.
Meu esposo chegou com a chave dele e com uma carinha de quem se segurava para não rir. Me atirei no tapete da sala para comer o restante do hambúrguer que, a esta altura Gui não dava a menor importância, mas eu precisava terminar e comi até o fim. Eu comeria o universo inteiro naquele momento.
Mais tarde minha mãe chegou para alegrar meu dia e me mostrar que nada é tão ruim assim...
Acostumem seus filhos a encontrarem soluções, essa habilidade a gente adquire dentro de casa, quando precisa alcançar algo que está no alto, quando sentimos medo do escuro, quando achamos que não podemos vestir as roupas sozinhos. É no detalhe do dia a dia que se desenvolve a força de um gigante. Obviamente é mais trabalhoso deixar um filho autista fazer o próprio lanche, se irritar, fazer sujeira, mas é justamente essa tentativa, erro e acerto que nos leva a pensar em momentos reais de crise.

Coragem! Você consegue, dê autonomia para o seu filho e descobrirás habilidades que nem você sabia que ele tinha.
Um beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.
Kenya Diehl

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