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sábado, 28 de abril de 2018

Meu estranho mundo autista


Desde pequena sentia um vazio existencial que me feria a alma. O excesso de pensamentos parecia me enlouquecer. Eu pensava, queria falar, queria tocar a tudo e a todos, mas minha voz não acompanhava a velocidade do meu raciocínio. A textura do chão era pesada para os meus pés e a temperatura da água para o banho e para tomar nunca se encaixava no que eu precisava. Eu sabia falar, mas tinha medo, pois explicar que a água não caía na velocidade ideal me renderia uma série de comentários sobre aquilo "ser bobagem"... então, chorar era bem mais eficiente, pois ninguém aguentava meus gritos por muito tempo.
Tenho lembranças de épocas tão antigas que até médicos já duvidaram ser reais, mas que ao conversar com minha mãe, sei que são fiéis aos acontecimentos assim como eles aconteceram, obviamente com minha impressão pessoal, porém com detalhes comuns aos demais que se envolveram naqueles momentos.
Minha primeira lembrança é de um papai Noel com "cara de plástico" que havia ido visitar minha família e eu tive uma crise de choro que não parava, meu peito doía de tanto chorar, o ar começou a ficar deficiente e me lembro de acordar horas depois no berço, sim berço! Eu ainda não tinha dois anos quando isso aconteceu. Depois, me lembro de um homem de barba mordendo meu rosto, minha mãe engolindo uma mosca sem querer ao abrir um bocejo de cansaço, a retirada rápida de minha e outras tantas famílias em uma caçamba de caminhão em uma enchente que devastou a pequena cidade de Guaíba onde morávamos e perdemos tudo...
A lembrança mais estranha que tenho é a da casa de um vizinho de pegou fogo e aos meus olhos parecia o fim do mundo, chorei por dias, mas não chorei pelas ruínas do incêndio, chorei pelo homem que saiu chorando de toalha na cintura, um homem forte, bonito, jovem, mas que chorava muito. Eu não falava, mas ouvia tudo. Todos falavam sobre a perda da casa, o perigo de uma explosão, o botijão de gás, os cachorros, mas ninguém mencionou o homem que chorava, eu queria lhe dizer que estava tudo bem, queria lhe abraçar e levar ele para casa, mas eu só conseguia gritar e chorar e, em um momento de distração o homem sumiu, não sei para onde foi levado e tudo o que eu queria na vida era poder ouvir sobre o medo que o levou a chorar tanto.

Eu vivia caindo, ferida ou chorando, sentia tanto desajuste com esse mundo que havia em mim uma saudade de algo que eu não sabia o que era. Amava minha mãe, mas queria ir embora. Certa vez coloquei um pedaço de alho em um buraco que havia no muro da humilde casa que morávamos, peguei um fósforo (que observei dias e mais dias minha mãe manuseando para poder fazer igual), apanhei junto uma garrafa de álcool, joguei um pouco de álcool e acendi um palito, logo começou a subir um pouquinho de fogo. Empolgada com a idéia de sumir em uma espécie de "big bang" despejei toda a garrafa de álcool no pequeno buraco. Uma bola de fogo veio ao meu rosto e me incendiou. Começou pelas minhas sobrancelhas, pegou meu cabelo que era à altura do quadril, minha camiseta, minhas pernas... Eu vi que não havia desaparecido do universo e um pânico tomou conta de mim, uma vizinha ouviu meus gritos e pulou para o meu quintal com uma sacola de roupas que ela havia comprado, me jogou no chão e me cobriu com as camisetas apagando assim o fogo. Fiquei sem sobrancelhas, sem cílios, com uma queimadura nas costas e outra na perna. Minha mãe chegou do trabalho e eu estava no banho, com hipertermia e tremendo muito. Ela me questionou para saber o que havia acontecido mas eu não falava. Logo a vizinha bateu na porta e eu percebi que levaria uma bronca. Me antecipei e comecei a gritar, de medo, de solidão, de vontade de sumir desse mundo... Não me livrei da bronca e os ferimentos enrugados e com bolhas me doíam mais na alma do que na pele.
Eu mais sonhava do que vivia, eu fui crescendo e uma voz interior me dizia que eu um dia iria ajudar muita gente. Meus ídolos não eram os cantores de música infantil ou os palhaços do momento, eu queria me inspirar em Ayrton Sena e Jô Soares... A moça do tempo era para mim autoridade máxima, pois ela me garantia escolher uma roupa que não me deixasse desconfortável no dia seguinte. Eu assistia o Jornal Nacional atenta ao momento que seria prevista a temperatura do dia seguinte e ninguém, jamais, compreendeu minha paixão sobre essa parte do jornal. Uns diziam que eu seria jornalista, outros diziam que eu estudaria astronomia, outros até arriscavam dizer que eu seria vidente... A única coisa que eu conseguia pensar era em poder viver em um lugar onde eu pudesse usar um casaco que regulasse a temperatura do meu corpo de acordo com a temperatura ambiente.
Sempre me vi estranha, sempre me senti feia, a vida inteira fui um desajuste difícil de explicar. Eu queria ir em locais públicos desde que estivessem vazios, queria tomar sorvete desde que ele não sujasse minhas mãos, queria cada fio de cabelo alinhado um exatamente ao lado do outro, queria poder usar sandálias com meias sem ser zoada na escola...
Enfim, queria ser eu mesma, mas o que posso dizer é para que entendam que padrão social algum poderá te fazer mais feliz do que ter a liberdade de ser você mesmo.

Compreenda o autista, ele não quer te ferir, ele só quer ter o direito de ser feliz. Peço encarecidamente para observar o comportamento depressivo em seus filhos e evitem o pior. Com o tempo tudo se ajeita, a resiliência nos faz fortes e podemos acabar ajudando muita "gente nova" que chega ao mundo com a difícil missão de ser autista.
Um beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.
Kenya Diehl

3 comentários:

  1. Depois de anos e anos ouvindo relatos de pessoas com autismo e seus familiares, chega-se a um momento em que você acha que nada mais pode surpreendente ou venha a lhe mostrar algo novo...Eis que então me deparo com esse depoimento incrível. A velocidade com que a água cai no corpo...O sentimento de uma criança ao ver um homem chorando depois de uma tragédia...Assistir o Jornal para se antecipar sobre a temperatura e tentar usar roupas menos desconfortáveis... Tudo isso vindo de uma criança, me faz imaginar quanto ainda temos que aprender sobre o que faz nossos filhos sofrer. Minha querida filha do coração, minha Chinoca Azul, obrigada por existir nesse nosso universo tão diferente e as vezes cruel. Você é linda demais e tem a sabedoria dos fortes, porque vence todos os dias! Com muito amor Berenice Piana

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    1. Minha linda, minha mãe de alma. Pensei duas vezes antes de postar uma foto sua comigo assim como postei com a Fa. Evitei te expor. E de repente leio um recado desse assinado por você, a Rainha azul, quanta honra, quanto amor e quanta gratidão. Eu que sempre fui sua fã, agora sou sua filha. Me sinto adotada pela vida, reconhecida como pessoa. Não pelos títulos que você tem, mas pelo ser humano incrível que és. Te amo, do fundo da minha alma. Beijos no coração

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  2. Sem palavras!! Nossa quantas sensacoes sentidas sendo que eu nunca pensei que poderia existir..tenho muito ha aprender...te acompanho sempre, e tenho muito carinho e respeito.
    Tenho dois filhos com autismo.Um menino de 7 e uma pequena de 2 aninhos...tenho uma longa estrada pela a frente...cada dia uma batalha e com certeza tb conquistas❤

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