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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Uma viagem autista - parte dois


Dormi boa parte da noite e, comparada à anterior, tive um sono relativamente bom. Me arrumei como habitual e desci para o café da manhã. Encontrei Nando na recepção e em seguida Fa chegou para completar o trio. Tudo estava tão bom, eu havia tomado meu remédio, tinha dormido melhor e consegui comer uma panqueca e tomar um café com leite. Fomos para a Assembleia e eu me sentia feliz e empolgada, queria falar logo, queria ver o deputado Pericles que tanto me inspirou, reencontrar Berenice, Fernanda e tanta gente boa envolvida na causa.
Meu slideshow funcionou, não tomei toda a água da bancada e não saí tantas vezes para ir ao banheiro - no dia anterior eu queria ver o copo vazio, queria concluir o copo que havia começado, mas o moço da água vinha e o enchia de novo, acabei saindo inúmeras vezes para fazer xixi...
Dei minha palestra, ouvi minhas lindas Fa e Bere falando e aprendi muitas coisas. Presenciei momentos inesquecíveis, depoimentos de mães que estavam no limite da dor e no máximo da emoção, do calor e da vontade de mudar o mundo.
Almoçamos com a Governadora do Estado e depois tivemos uma reunião em seu Gabinete, expusemos nossas ansiedades e nossos pedidos referentes ao autismo e falamos sobre nossa vontade de transformar o Paraná em referência para o autismo na América Latina.

Prestei atenção em tudo, mas confesso que foi um grande desafio estar naquela sala e não tocar cada detalhe que havia nela. Eu sentia vontade de alisar as esculturas, de sentir o perfume das flores e de girar as cadeiras, minhas mãos formigavam de tanta vontade de explorar o ambiente e uma corrente elétrica parecia percorrer minhas veias, sentia meu coração batendo em meu pescoço, mas minha consciência me manteve sob controle disso tudo e consegui, inclusive, me apresentar e me colocar à disposição para ajudar no grupo de trabalho.
Sentei na mesma poltrona que a Fa e os lindos e cheirosos cabelos dela me traziam a serenidade e a concentração que eu precisava para estar ali, naquele momento e focada em manter o equilíbrio entre ouvir, falar e não falar sem parar.
Descemos a pé a caminho da Prefeitura, estávamos eu, Nando, Fa, Bere e Borges. De repente senti uma força vinda do alto, olhei para trás e um rapaz todo de preto com o casaco fechado até o pescoço e a mão direita no bolso abordou Berenice chamando seu nome de forma incisiva e com olhar penetrante. Levei um susto, o resto do mundo parou, olhei para trás e quando abri a boca para gritar: "A Berenice não!!!" A vi sorrindo e cumprimentando o rapaz que logo depois descobri ser um produtor da Rede Globo que estava muito feliz em encontra-la ali... meu coração disparou, fiquei ansiosa, mas segui em frente.
Tivemos uma reunião muito produtiva com o Prefeito da cidade e seguimos viagem para Ponta Grossa. Na estrada uma breve parada para um suco e um queijo quente e fomos embora para a palestra na Universidade.

Entrei despretensiosamente no campus, tudo gigante, mas poucos estudantes circulavam pelo local. Foi quando me dei conta de que teriam estudantes na minha pequena imaginária plateia. Fomos caminhando e seguindo o deputado. Quando vi uma enorme multidão aglomerada em volta de um auditório, pensei que a pessoa que iria falar ali precisaria de muita coragem e, para minha surpresa, aquele era o "nosso local". Desviamos das pessoas e fomos em direção à mesa. Todas as cadeiras estavam ocupadas, haviam pessoas em pé e no alto, nas cadeiras superiores, uma cena linda, digna de quem sonha mudar o mundo. Seguimos o roteiro Fa - Bere - Kenya, ficando eu, portanto, por último a falar, quanta honra e que desafio! Haja coração, desodorante e mente que aguente. Falei, cumpri minha missão e fomos jantar.
Nos levaram a uma charmosa pizzaria, mas lá haviam luzes amarelo claras e uma penumbra tomava conta do ambiente, comi duas fatias de pizza, conversei, comemoramos, mas meu sensorial não aguentava mais. As vozes misturadas pareciam atravessar minha cabeça por entre os ouvidos e eu não mais processava a velocidade das palavras das pessoas. Aproveitei a conversa sobre espontaneidade e disse que minha espontaneidade me implorava para ir embora. Nosso querido Nilson se prontificou a me levar ao hotel, levantei que nem um jato, não me lembro de ter me despedido de alguém, mas quando saí lá fora meu pulmão voltou a receber ar.

Ao entrar no quarto arranquei toda a roupa, liguei o chuveiro e não conseguia regular a água que ora ficava quente, ora ficava gelada, entrei em desespero e comecei a chorar, a água quente caiu sobre minhas pernas e consegui finalmente regular a temperatura, chorei por trinta minutos, mas nesse momento percebi o tamanho de minha coragem e quantas pessoas boas estavam comigo, agradeci a Deus, mandei uma mensagem para a Fa e adormeci...
Continua no próximo texto...

2 comentários:

  1. ... e de outro lado, na platéia, muitas pessoas ansiosas para te ouvir: experimentar sua coragem, espelhar-se no seu desafio e principalmente esperando aprender a ser tão valente como você... eu era mais uma mãe naquela multidão de estudantes, de pesquisadores, de profissionais e pais. Eu fui um dos corações tocados por cada palavra que compartilhou e elas me fizeram abraçar meus filhos ainda mais forte quando cheguei em casa..."O tamanho da sua CORAGEM" é o tamanho do seu coração, porque de onde estávamos tínhamos certeza de que estava ali POR AMOR!!!

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    1. Muito obrigada pela linda mensagem. Cada recado eu sinto todo o carinho e a vontade de continuar. Deus te abençoe..mil beijos

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