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sábado, 21 de abril de 2018

Uma viagem autista - parte final

O retorno para casa


Escutei o barulho dos passos das pessoas caminhando pelo corredor do simpático hotel em que estávamos hospedadas. Percebi que era hora de levantar. Eu estava mais descansada e quis matar a saudade da família e dos amigos pelas redes sociais. Quinze minutos olhando as fotos e reorganizei minha mente para me preparar para a volta. Arrumei minhas coisas e respirei fundo antes de sair. Um sentimento estranho tomava conta de mim, pois eu queria muito estar em casa, mas me doía na alma me separar das pessoas que trouxeram tanta luz para a minha vida. 

Meu nariz ardia pela predominância do cheiro de erva doce que estava nos lençóis e o tecido mais áspero das toalhas de banho dificultaram a minha rotina matinal. Liguei o IPad no Greys Anatomy e isso me fez sentir mais próxima das minhas coisas e da minha realidade. 

Oito horas da manhã saí do quarto na minha peculiar pontualidade e me dirigi até a sala do café, uma conversa descontraída e ganhei uma mensagem lida pela minha mãe do coração Fatima, ali, na minha frente, ela havia a enviado pelo celular e eu ainda não tinha acessado, mas ela leu para mim, com sua linda voz e olhar carinhoso.

Tínhamos uma reunião na Secretaria da Saúde às 11hs da manhã na cidade de Curitiba. Meu vôo era as 13hs e perguntei se eu iria na reunião, eu já sabia da resposta, mas me doeu muito ouvir o não. Lutei contra meus traumas e contra todos os envolvimentos errados que tive no decorrer de minha vida para não projetar ali, naquele momento tão especial as dores que eu já havia experimentado. Meu inconsciente insistia em dizer que fui excluída, ao "passo" que eu sabia que não era o caso, na verdade era um acaso, uma divergência de horários que fugia ao controle de todos nós. 

Tentei manter o foco naquelas pessoas que tanto amo, seguimos pela estrada e a conversa fluía muito bem. Não costumo gostar de surpresas, mas naquele momento ganhei uma surpresa que eu realmente precisava para completar a beleza de dias tão incríveis. Nosso querido Deputado Péricles propôs um passeio ao Parque Estadual Vila Velha, caminhamos por entre as árvores, observamos os formatos das pedras, as meninas viam desenhos em tudo, eu via lindas pedras gigantes em formas diferentes, mas não arrisco dar palpites sobre o que vi, porque era muito diferente do que era narrado por elas. Conversamos, sentimos o ar puro que vinha da brisa da manhã e as vozes da Berenice e da Fatima me mantinham distante do meu medo de insetos. Consegui me sentir especial e nossa "equipe" - Silton, Pericles, Berenice, Fatima, eu - era de união, respeito e vontade de mudar o mundo. 


Fui tentando não pensar em nada, eu não sabia onde era a Secretaria da Saúde e levei um susto quando vi o carro parando em frente ao portão. Desci do carro, olhei para elas e não contive o choro, não consegui falar nada, apenas lhes alisei os cabelos e fixei a imagem de suas faces para trazer comigo. Sentei no carona, desta vez na frente e as lágrimas escorriam até o pescoço, não imaginei que a dor seria tanta, mas não era uma dor triste, era uma dor irracional, de quem precisava ir, mas que queria muito ficar. 

Chegamos ao aeroporto e fui fazer o check in no balcão, porque eu não estava com coragem de carregar aquela mala comigo de novo por todo o percurso e ainda ter que colocá-la no bagageiro. No balcão solicitei, como o habitual, o assento preferencial da frente, reservado para pessoas com necessidades especiais. A atendente disse que esses assentos custavam 42,00 a mais e que a prioridade era apenas para cadeirantes. Lhe falei sobre o autismo e que os assentos são para todas pessoas com deficiência, incluindo o autismo. Ela então, de forma muito ríspida, me disse que me daria uma cortesia para não se incomodar. Fiquei brava, disse a ela que não aceitaria cortesia nenhuma, coloquei minha carteira da prioridade no balcão e lhe falei que era um direito garantido por lei e que ela deveria se informar, que era melhor eu ir na frente e poder ser atendida do que ir no meio da aeronave e ter um ataque de pânico e atrapalhar a todos durante o vôo. Ela entendeu e efetivou meu direito, reservando a poltrona de número dois. 

Voltei para casa tranquila, ciente de que estive todos esses dias lutando pelos meus direitos, pelos direitos de todos os autistas e provando que deficiência não é sentença, é uma diferença que deve ser respeitada e todos nós podemos ser incluídos na sociedade com dignidade, honra e respeito. 

Cheguei em Porto Alegre e lá estavam minha mãe, meu esposo e meu filho. Senti o cheiro de cada um deles e a recompensa foi incrível, tiramos uma foto, nos abraçamos e a voz deles parecia entrar diretamente em meu coração, pois o toque e o olhar não são substituídos pela tecnologia.

Sobre a saudade das minhas mães do coração? Pois é, ainda não sei como farei para aguentar mais um ano longe delas, mas tenho certeza de que Deus tem um propósito para nossas vidas e para o progresso do autismo não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro e no coração de cada cidadão de bem que quer viver em união e amor ao próximo. 

Um beijo muito carinhoso,

Kenya Diehl

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