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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Uma viagem autista


Saí de casa ansiosa, medo do avião, medo de deixar meu filho, medo de chegar lá e não conseguir falar... Tomei um comprimido inteiro de risperidona com o intuito de me manter calma e diminuir a chance de ter uma crise de ansiedade. Mal eu sabia que seria a pior escolha que eu poderia ter feito. Essa medicação foi receitada pela psiquiatra para eu tomar em momentos de crise e não para prevenir uma crise. Antes mesmo do Uber chegar eu já estava tonta, mas o raciocínio parecia preservado. Pedi ao motorista que fizesse uma parada para pegarmos minha mãe. A essa altura eu já não conseguia mais falar sem enrolar a língua e eu estava, de fato, tendo um pesadelo acordada, daquele tipo que você quer correr e não consegue ou quer gritar e a voz não sai.

Fiz o checkin e já era hora de embarcar. Despedi-me de minha mãe e entrei, meu caminhar era triste e lento. Não me lembro exatamente de como foi meu percurso até o avião. Mas lembro que tentava erguer minha mala para acomodá-la no bagageiro, mas meu braços não respondiam... ninguém me ajudava e eu não conseguia pedir ajuda, dei um último impulso e ela finalmente entrou, me desequilibrei e bati com a cabeça... Coloquei meus fones e rapidamente a música me fez adormecer. Acordei com o impacto do avião no solo, meu espírito foi jogado de volta ao meu corpo de forma tão brusca que eu não sabia se estava nascendo, morrendo ou acordando.
Na chegada, nosso querido acessor Beto me esperava com uma caixa de chocolates Copenhagen, ali pude perceber que seria uma linda jornada de trabalho. Ele me acompanhou até o hotel e eu dormi, achei que teria uma noite de sono direto, mas o excesso de estímulos no período em que eu queria deitar e dormir, mas que tinha que me "virar" sozinha, deixou meu cérebro confuso e eu acordei inúmeras vezes durante a noite.
Acordei de manhã, mais lenta do que o normal e então acabei esquecendo de tomar a Sertralina, que é o que mantém meu foco no que preciso fazer. Desci e encontrei minha mãe do coração Fatima de Kwant e em seguida meu irmão do coração, Nando Castro. Uma energia tão poderosa me envolveu e o medo foi embora. Chegamos na Assembleia e encontrei com a Embaixadora da Paz, Berenice Piana, um longo abraço sem fotos, eu a apertei tanto que quase a derrubei, não queria soltar mais. Eu não estava enganada, eu a amava desde antes de poder chegar perto, encontro de outras vidas. Não me apresentei à organização do evento e ficaram todos esperando "eu chegar" enquanto eu estava ali tirando fotos e conversando despreocupadamente. Me acharam e, para minha surpresa, eu não havia passado minha apresentação para o pen drive. Tentei acessar minhas "nuvens" de arquivo, mas não consegui e resolvi ir sem nada para me guiar.

Fomos chamadas para compor a mesa e por sorte fiquei ao lado da Fatima. Passadas as devidas formalidades nosso querido Pericles chamou Berenice, depois Fatima e depois eu. Ambas falaram com o microfone na mão e em pé próximas ao público. Na minha vez eu fui falar, sem meu remédio, sem meu slideshow e para piorar tudo o microfone parou de funcionar. Okay, tudo pelo bem do autismo, subi ao púlpito e falei de lá. Meu semblante era de tristeza, mas eu estava feliz.
Fomos todos almoçar com o Presidente da casa, tudo muito lindo e feito com muito carinho, consegui falar com meu filho Guilherme e de novo minhas energias foram reabastecidas. Perguntei ao Guilherme se ele gostaria de saber com quem eu estava e ele disse que sim, aí eu disse que era a "Mamys Fa" e ele quis falar com ela, ao falar com ela ele lhe perguntou: "Oi, tudo bem? Sabe me dizer que horas minha mãe volta?" Ah de arrasar qualquer coração com muito amor.
Voltamos ao plenário e foi aberto o expediente e, cada uma de nós, eu, Berenice e Fa tínhamos cinco minutos cada uma para falar aos deputados. Cada uma delas usou seus cinco minutos e eu usei dois minutos e meio, eu havia assistido uns vídeos de como eles falavam para os parlamentares e copiei, falei tão rápido que não usei todo o tempo a que tinha direito, mas falei, disse o quanto precisamos de respeito e das garantias de nossos direitos para que possamos usufruir do que nos é garantido pela Constituição Federal.
Saímos dali e passamos no hotel para trocar de roupa e fomos visitar uma instituição, lá tive uma sobrecarga sensorial e uma crise de choro veio à tona. Não tinha crianças e a sala para a qual fomos levadas era composta de estímulos visuais, táteis e auditivas. Tinha, luzes coloridas girando e piscando, uma parte com penduricalhos e mais à frente uma cortina preta. Não sei porque mas vi a imagem de minha mãe sentada e me olhando, eu queria alcançar e não podia. Parecia que meu cérebro levava choques, o barulho foi ficando insuportável e minha pele ardia, meus olhos pesavam e saí correndo dali. Tentava encontrar minha mente com meu corpo, mas eu sentia como se eu estivesse sentada ao meu lado sem poder voltar para mim. A responsável pelo local não deixou Fa vir atras de mim e minha mente me acusava pelo fato de que eu poderia ter uma mãe em momentos de crise, nem a de sangue e nem a de coração... foi triste, doloroso, mas depois percebi que além de tudo a energia envolvida no ambiente foi determinante para que tudo saísse desse jeito.
Voltei abraçada na Fa, ela cancelou o jantar e me levou para o quarto dela e pediu um lanche para nós, misto quente e café com leite...


Foram momentos que eu não sei se consigo descrever. Era como receber um cobertor em um dia muito frio ou beber água em meio à sede. Toda a sensação de abandono, solidão e desprezo sumiram, fui acolhida em minhas falhas, respeitada pela minha diferença e amada em minha essência. Fa me cuidou, sou uma mulher feita eu sei, mas todo ser humano gosta de se sentir protegido e respeitado e, naquele momento, o autismo gritava de um jeito que eu não tinha uma idade, eram apenas eu, minha deficiência e meus medos - curados pelo amor de um anjo chamado Fatima.
Conversamos bastante e depois desci para o meu quarto. Tomei um banho e dormi...
Continua no próximo texto...

Um comentário:

  1. Eu gosto muito dos teus textos, é uma maneira de entrar um pouquinho no mundo das crianças e entender oque elas sentem. Que linda a atitude e a sensibilidade da Fátima te dar colo. Sou cada vez mais fã de vocês. ❤️

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