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terça-feira, 29 de maio de 2018

A greve, o autismo e o que uma coisa tem a ver com a outra!


Como se sabe há bastante tempo o autista precisa de rotina para se sentir seguro e não se desorganizar. Em um raciocínio bem básico logo se conclui que, se nossa rotina é atingida, então nossas emoções também. Mas o assunto é extenso e vai muito além de uma simples tensão.
As famílias de pessoas autistas habituam-se através da passagem do tempo a respeitar as necessidades especiais da pessoa com TEA. Cada autista é diferente, mas algo em comum que todos temos é a preferência por um grupo de alimentos, por determinado perfume de sabão de roupas, horários específicos para cada coisa do dia e por aí vai.
O constante noticiário sobre não termos combustível, a alface custar doze reais ou não existir atendimento médico e remédios suficientes nos coloca em estado de alerta, nos sentimos inseguros e incomodados com a possibilidade de uma catástrofe iminente.
Enquanto "pessoas normais" estão assistindo aos noticiários e preocupadas com o futuro do país, olho para a TV e não consigo entender como alguns repórteres conseguem ser onipresentes e estar ao vivo direto por intermináveis horas. Vejo as filas nos postos de combustível que tem gasolina e fico pensando no que elas estão fazendo para se distrair pelas longas horas em que estão ali paradas. Tem gente gritando, gente brigando, gente xingando mãe de gente que nunca sequer viu na vida.
Sinceramente, meu medo é não poder comprar pipoca e ter que ficar sem, por culpa apenas da ilusão das pessoas que juram que estão mudando a história da nação quando na verdade só estão piorando as coisas para a população.
Todos esses dias fiquei em casa com meu filho, usei bicicleta para tudo, mas o simples ato de ir a um supermercado se tornou uma aventura selvagem. Não existia fila preferencial, não existia nem respeito entre as pessoas da própria família que observei discutindo se levariam mais cerveja ou mais farinha.
Estou esperando uma consulta com meu neurologista há mais de um mês e ainda não sei se conseguirei chegar até ele no dia marcado. Tenho uma viagem para o Tocantins para fazer uma palestra em um evento e ainda não sei se poderei ir e voltar em segurança para casa - segurança no sentido de garantia de retorno, porque segurança de fato é algo que não experimentamos no Brasil há bastante tempo.

Queria que todos os pais de filhos autistas e esposos de mulheres autistas e esposas de maridos autistas entendessem que nessas horas nos tornamos repetitivos, ansiosos e por vezes mais infantis do que o normal. No caso do meu filho, ele se fixou em um jogo de carros em que ele abria e fechava a porta, eu lavei roupa que nem uma doida com medo de não ter minhas peças preferidas por falta de água ou luz, quase não tirei o celular da tomada e viciei em um jogo chamado "1010" em que se junta blocos infinitamente com o objetivo de aumentar a pontuação final.
Ao contrário do que pode acontecer com muitos autistas que é não aguentar a mesma notícia passando sem parar, comigo aconteceu de eu me fixar no assunto "greve" a ponto de não conseguir nem assistir mais os meu seriados favoritos. Passei conectada nos sites de notícias, no jornalismo televisivo e até de madrugada eu acordava para ver se algo estava acontecendo.
Tudo isso gera um desgaste tão grande para nós autistas que pode ter certeza que é tão chato quanto é para vocês aguentar nossas próprias manias que entram na nossa cabeça e parece que nunca terão fim.
Não estranhem se seus filhos ficarem tensos, repetitivos ou se comerem todas as balas de um pacote de uma vez só. Pense que para o autista o fato de ficar sem aula, fazer a pé o trajeto geralmente feito por outro meio ou a mudança nos hábitos familiares pode ser desastroso, por exemplo, o pai que não pôde ir trabalhar porque a empresa não abriu ou porque o carro não ligou.
É exaustivo e triste a maneira como podemos ser atingidos pela imprevisibilidade da rotina. Por mais que nos expliquem ou que tenhamos consciência da situação, a angústia é grande e ainda que não se demonstre essa ansiedade o tempo todo, qualquer coisinha aparentemente boba pode disparar um crise - de nervos, de raiva, de choro, de depressão, de mania ou qualquer outra que vocês possam imaginar.
Tente ser compreensivo, tente manter a rotina mais próxima do normal e não deixe de comentar cobre cada pequeno detalhe que altera a vida do seu filho, até mesmo se o pão será de outra marca ou se o banho tiver que durar menos para economizar.
Não caia no erro de exigir calma, explique, tenha paciência e deixe as emoções serem expressadas como for preciso e dê ao seu filho a garantia de que aconteça o que acontecer vocês irão encontrar sempre a melhor solução.
Podemos utilizar esse momento para exercitar a melhor compreensão sobre o autismo. Nenhuma lição é em vão, nenhuma luta é por acaso e ensinar nossos filhos a se adaptarem às mudanças é essencial para a obtenção de sucesso nos altos e baixos da vida a que todos nós estamos expostos.

Lembre-se de que o autista precisa de paz e que tem baixa tolerância à violência. Cuide sobre o que você fala e o que ouve perto de seu filho. Tudo aquilo que dedicamos empenho cresce e se fortalece. Portanto, fortaleça raizes de emoções positivas nos seus filhos e assim estarás ajudando a ter uma chance de um futuro efetivamente melhor.
Um beijos muito carinhoso. Fiquem com Deus.
Kenya Diehl - autista e mãe de autista
Escritora, blogueira e palestrante


8 comentários:

  1. Excelente!!!������

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  2. Querida, é sempre surpreendente ver as coisas e fatos através da ótica do autista e você nos mostra com fidelidade. Eu não imaginava, mesmo sendo mãe de um jovem de 24 anos com TEA,todos os detalhes e sofrimento por conta de uma manifestação como a que vivemos agora. Obrigada querida por abrir essa porta e me permitir conhecer mais esse lado do autismo! Eu te admiro muito!!!

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    1. Muito obrigada por ser nossa Rainha da Paz e por ser essa pessoa cheia de sabedoria e também com muita humildade e carinho. Te adoro muito, do fundo do meu coração. Beijos

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  3. Aqui em casa ainda estamos sem combustivel, pois como nao existe fila “ preferencial” nos postos de combustível. ..
    Fica inviável eu aguardar por horas dentro de um carro com duas cças autistas.
    ��
    Resumindo...
    hoje até nas terapias nao conseguimos ir.
    Quebra de rotina, desorganiza os autistas, sim.
    ��

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    1. Pois é. Na hora do caos não existe preferência e nem acessibilidade. Infelizmente é uma realidade que acaba atingindo o lado mais fraco.

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  4. Muito bom! Eu também me sinto bem mais angustiada quando há uma mudança na rotina .Tudo fica bem mais estressante e amedrontador . Um abraço!

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    1. Eu te entendo querida. Esperamos que em breve tudo se normalize. Beijos

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