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domingo, 6 de maio de 2018

Como são as crises no autismo 



Depois da crise...

Para eu poder explicar o que vem depois da crise eu preciso primeiro falar sobre o que vem antes da crise e, também, da crise propriamente dita.
Todas as pessoas, autistas ou não, "saem de si" em vários momentos da vida quando ficam bravas, com medo, quando se sentem feridas, com dor ou solidão. Mas o autista enfrenta isso de forma potencialmente mais forte.
O autista precisa de uma rotina para se sentir seguro devido ao excesso de sensibilidade a estímulos como sons, luzes, toques, texturas e cheiros, isso quer dizer que tudo o que você sente eu tenho chance de sentir de forma muitas vezes mais intensa. Estabelecer uma rotina que não agrida os meus sentidos leva tempo e colocá-la em risco precisa valer muito a pena.
Antes da crise há o estímulo que pode ser tanto positivo como negativo, prazeroso ou perturbador, completo ou totalmente falho, mas em todos eles há o fator da ansiedade, algumas vezes há a presença do medo e em tantas outras há a irracionalidade, nestas últimas predomina o estímulo dos sentidos em prejuízo total do raciocínio.

Uma crise pode vir de uma mudança brusca da rotina, de uma exposição a uma situação de medo, ser vítima de injustiça, acidentes de trânsito, problemas digestivos, perda de objetos pessoais, ironias, falsidades, barulhos repetitivos, bagunça, desordem no ambiente, longas esperas, dores de todos os tipos e um sem fim de motivos que, para a maioria das pessoas, são motivações bobas e sem sentido algum. Mas que para o autista pode ser muito doloroso.
Preciso alertar o leitor que falo sobre mim, que apesar de ser autista, as percepções podem variar de um autista para outro e que minha experiência pode servir para ajudar a clarear as ideias daqueles que ainda desconhecem o amplo universo do espectro.
Para mim funciona assim: sinto minha cabeça arder, uma intensa agitação toma conta de mim e meu organismo parece funcionar em um ritmo diferente do restante, escuto como se fosse um vento passando pelos meus ouvidos junto com barulhos que se tornam absurdamente altos e com cores, levo pequenos choques no cérebro e sinto algo parecido com sensação de borracha circulando pelas veias. Lembranças ruins misturadas com lembranças boas se fundem e perco um pouco a noção do que foi bom ou ruim, então neste momento me abstenho da ideia de fazer qualquer coisa da qual eu possa vir a me arrepender depois. Aprendi com o tempo a processar essas informações todas, absorvê-las ao máximo e transformá-las em tristeza para depois substituí-las por alegria. Parece loucura, eu sei, mas ter trinta e cinco anos me traz algumas vantagens e o fato de já ter passado pelas fases de me bater, me morder, babar, bater a cabeça, me arranhar inteira e fazer escândalos a ponto de quebrar coisas que eu amava, fez com que eu conseguisse direcionar essa força da melhor forma para que eu não perdesse tudo aquilo de mais valioso que hoje possuo, que são as pessoas que conquistei na minha jornada existencial. Não tenho mais preconceito com uso de medicamentos e os uso continuamente, além de ter também aqueles que são reservados para os momentos de crise, isso também ajuda a colocar em pratica tudo o que aqui hoje escrevo para vocês.
Então nos meus momentos de crise eu falo muito, escrevo muito, choro sem parar, por vezes recuso um carinho, especialmente se este vier de alguém que não me inspira confiança, perco a capacidade de diferenciar o certo e o errado e o desejo de justiça impera em mim às vezes me colocando em risco ou em situação de vexame.
Depois da crise vem a dor, o arrependimento, a vergonha e a sensação de desajuste. A cobrança é imensa por parte de nós mesmos e, acredite, não é preciso nos humilhar, ofender ou nos proibir que façamos isso novamente. Uma orientação e um direcionamento sobre o que fazer é muito bem vindo, pois nos é muito sofrido ter uma crise e saber que nos viram em crise, chorando e nos desorganizando, falando sem parar tudo o que vem em mente, então se você tem alguma ideia de como posso lidar melhor com isso não perca tempo e me fale, mas não use de julgamentos ou hostilidades ou, pior ainda, contando histórias de pessoas que "se deram" melhor do que eu porque souberam se controlar melhor do que eu...
A relação de confiança com uma pessoa autista é algo delicado, construído de forma bem fácil até, mas perdido de forma mais fácil ainda e uma vez que sentimos que não há respeito ou que haja a quebra da relação de confiança nunca mais será a mesma coisa, não conseguimos tolerar a ironia, a mentira por mais boba e banal que seja, a falsidade, o desejo de querer "aparecer" às nossas custas e todas as demais superficialidades presentes muitas vezes sem maldade nos corações das pessoas, mas que nos geram um mal enorme se insistirmos em permanecer por perto.

Cada autista tem seu próprio autismo, cada autista tem sua própria crise e cada crise é uma crise isolada e diferente da outra. As motivações variam, assim como o motivo que as faz parar, diminuir e até adormecer por meses ou anos.
Mais importante do que manter sob controle as próprias crises ou a de nossos filhos, é ter a consciência de que elas existem e podem sim ser despertadas, o segredo é não deixar de se proteger, não fazer as coisas para agradar às pessoas e acabar se colocando em risco.
Ainda que digam que suas "manias" são bobagens e que você não precisa mais disso, não dê importância, faça o que que for necessário para manter seu território emocional seguro e protegido de pessoas que, se não sabem respeitar as suas necessidades, certamente não saberão respeitar os seus sentimentos.
Não se ofenda se um autista não conseguir ficar ao seu lado, pode não ser por mal, pode ser apenas a sua necessidade de auto preservação que fala mais alto, a sua extrema sinceridade e a constante esperança de que nunca mais na vida terá uma crise - pelo menos até a próxima crise.
Um beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.
Kenya Diehl

2 comentários:

  1. Dizer o que kenya, perfeito nossa Amiga das letras! Rs...

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  2. Obrigada por partilhar sua experiência conosco. Seus relatos ajudam muitos autistas e suas familias. Me emocionei com seu relato pois depois de muita terapia minha princesa autista hj com 10 anos , começou a conseguir verbalizar e identificar suas emoções e sensações e semana passada me fez relato semelhante sobre as crises dela. Disse que sente uma coisa que vai crescendo no peito, que vai pinicando, crescendo e que ela não pode suportar e por não saber como resolver aquilo ela acaba fazendo "mau comçortamento"( se agredir, quebrar coisas, me agredir, gritar, chorar) e perguntei se adiantava e ela falou que melhora um poucofazer essas coisas e que era melhor do que nada, melhor que ter que suportar as sensações. Disse que vê figuras em sua mente e não consegue explicar em palavras tais figuras e por isso se descontrola. É desolador para mim ouvir e perceber o tamanho da angustia e do sofrimento. Mas tenho certeza que com a dedicação e persistência nas terapias ela poderá aprender a canalizar tudo isso assim como vc relatou. Bjos

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