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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Autismo não tem idade




Saímos para um rápido passeio no shopping para que nosso filho Guilherme pudesse jantar e se distrair um pouco. Estacionamos na nossa vaga preferencial, que faz toda a diferença na diminuição da ansiedade e consequente oportunidade de frequentar locais públicos com dignidade. Fomos até o restaurante preferido dele e o observamos lindamente comer com prazer, momentos que um dia, não tão distante assim, nos pareceu impossível de acontecer de verdade.

Ao terminar o jantar Gui nos pediu para passear naqueles bichinhos que parecem uma mini moto. Ele foi correndo em direção ao bicho mais bonitinho e disse que queria aquele. Com a educação de sempre, aguardou ao lado do brinquedo até a liberação para o passeio. Meu esposo aproveitou para gravar uns vídeos para o nosso canal do YouTube e então eu sentei com meu filho no brinquedo e saímos nos divertindo sem pensar em nada.
Guilherme estava feliz, aguentando todos os estímulos de um ambiente barulhento e iluminado do shopping, ele mesmo me fazia alertas de que estava bem e que eu também deveria ficar. Chegou a arriscar ir olhar os horários do cinema, coisa rara de eu conseguir me animar a ir.

Em uma das voltas que dávamos com o brinquedo, o funcionário do aluguel dos mesmos me chamou a atenção de forma incisiva e na frente de todos que passavam por ali. Nós paramos a motinho e escutamos o que ele estava a dizer. E então ele continuou falando que eu não poderia passear no brinquedo com meu filho, que aquele era para apenas uma pessoa e que eu teria que descer. Lhe falei sobre o nosso autismo e disse que devido ao movimento do shopping era arriscado que uma criança tao pequena guiasse aquilo sozinha em meio as pessoas. O rapaz foi mais ríspido ainda e me disse que eu estava burlando as regras, segui no passeio sem olhar para trás, pois não queria desorganizar meu filho em um momento que estava sendo de superação para ele.
Concluímos o passeio e fomos lá devolver o equipamento. Meu esposo já saiu perguntando onde estava escrito que não poderíamos utilizar juntos. O cara disse que não sabia, mas que eles sempre avisavam que aquele, em especial, não poderia transportar duas pessoas.

A moça que nos entregou o brinquedo quando alugamos chegou ali e me disse que era por hábito avisar antes. Eu pedi a ela que me olhasse nos olhos e me dissesse que havia me passado essa informação e ela então silenciou.
Observamos a placa que dizia que os brinquedos ali suportavam o equivalente a duzentos kilos ou duas pessoas. Mas em nenhum lugar dizia que havia exceção para brinquedos novos e - pasmem! - essa regra vinda dos superiores daqueles dois era apenas porque o brinquedo estava novo!
Aproveitamos a situação para lhes explicar sobre o autismo e o tanto que eles haviam nos prejudicado nos abordando daquela forma, porque a esta altura Gui já estava nervoso e querendo briga com todo mundo... E então meu marido veio com uma que eu jamais poderia esperar, falou que eles deveriam ficar atentos, pois poderiam presenciar uma cena de dois adultos passeando no brinquedo e não perceberem que na verdade poderia ser uma mãe com um filho autista adulto.

Eu já estava estressada e terminei dizendo que NEM TODA A DEFICIËNCIA É VISIVEL e que nem de longe eu e Gui juntos teríamos duzentos quilos juntos...
Gui voltou chateado, irritado e sem querer conversar. Aproveitamos para lhe ensinar que manter o equilíbrio é fundamental para não se perder a razão, pois certamente a perderíamos no exato momento em que perdêssemos a calma e a capacidade de conversar.

Por fim, voltei pensando em como é complicado fazer o mundo entender que independentemente de autismo, as pessoas precisam ser mais amorosas, educadas e compreensivas. Mas não é por isso que iremos desistir!
Autismo é vida - autismo é luta - autismo é divulgação e conscientização
Me ame como sou - ou me deixe livre para ser quem sou

Kenya Diehl
Autista, mãe de autista
Escritora, empresária, palestrante e blogueira

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