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terça-feira, 31 de julho de 2018

O que eu fiz com minha dor...

Precisamos urgentemente aprender a olhar para o nosso próximo,
não podemos ignorar a fome, a exclusão, o frio, o abandono, a privação do sono, do colo,
do amor,do alimento para o corpo e para a alma a que cada um de nós de uma forma outra
conhecemos em alguns momentos de nossas vidas. Independentemente da condição
social em que nascemos, todos aprendemos muito cedo a conhecer a dor e a frustração.

Eu, aos 16 anos, com 39kg

Nasci em meio à pobreza, cresci na miséria e aprendi muito cedo a lutar pela minha sobrevivência, fui criticada, julgada e excluída. Mas quem olhava de fora via apenas uma menina feia, subnutrida e abandonada. O que muitos não viam era o tanto de amor que eu precisava, não era somente a falta de comida. Não tinha sabonete para o banho, nem sabão para lavar as roupas, não tinha meias para aquecer os pés e nem um travesseiro para acomodar a cabeça cansada e sofrida.

No meu caso ainda tinha o agravante do autismo, a extrema sensibilidade, a dificuldade de interpretar as intenções das pessoas e falta de jeito para lidar com os momentos em que eu precisava me defender, mas que eu não conseguia. Sofri, apanhei, quase morri, mas algo dentro de mim gritava alto que minha missão seria grandiosa e que aquilo tudo era apenas um aprendizado. Eu precisava experimentar tudo aquilo para que um dia eu pudesse entender as dores do mundo e assim tentar aliviá-las.

Consegui seguir minha vida com a proteção dos anjos e as bênçãos de Deus, não escapei de algumas tragédias, mas o meu maior feito foi não ter me amargurado com a exposição extrema à dor e à solidão. Em todos os momentos em que me senti sozinha e com medo eu buscava em minhas próprias mãos o carinho que meus cabelos procuravam e sempre me imaginava nos braços de Deus, aquilo me dava energia e coragem para viver mais um dia. Ter Deus em meu coração e em minha vida fez com que eu conseguisse suportar tudo aquilo que parecia ser sempre o fim, mas que era apenas o começo de uma trajetória de cheia de garra e muitas vitórias.

Se por um lado o autismo me colocou em muitas enrascadas, por outro lado a praticidade de meus pensamentos me colocou em vantagem sobre as pessoas não autistas porque eu conseguia separar aquilo que eu não poderia no momento modificar e aquilo que eu, de fato, poderia encontrar uma solução. Viver reclamando nunca foi uma opção, me entregar e desistir também não.

Transformei a dor em amor, não posso nem dizer que precisei perdoar alguém, pois todos aqueles que me fizeram mal nunca tiveram espaço em minha vida, eu as libertei para seguirem suas vidas e decidi curar minha alma pensando no bem que eu um dia poderia fazer para a humanidade com as escolhas certas em nome do bem.

Pare um pouco e faça uma reflexão...

O que você tem aprendido na sua vivência com o autismo?

O que você tem ensinado na sua vivência com o autismo?

O quanto você está disposto a abrir sua mente para quebrar paradigmas e se libertar do preconceito?

Algumas pessoas ousam passar uma vida inteira “cheias de razão”, mas sem notar que a solidão ronda suas vidas, tiram a sua paz e as cercam de uma multidão de pessoas que não preenchem o vazio de suas almas..

O autismo pode te ensinar muito. Depois do autismo você pode perceber que todo ser humano tem uma semelhança espantosa em meio à tanta diferença que determina a individualidade de cada ser. Pensamos ser únicos no mundo e realmente somos, mas todos temos o mesmo desejo de vencer, de amar e sermos amados, de termos o perdão de nossos pecados e o reconhecimento pelas nossas atitudes heroicas perante as dificuldades da vida.

Eu com 35 anos e meu tão sonhado filho Guilherme
Sonhamos em atingir a paz repudiando a guerra, mas esquecemos de levantar a bandeira branca para quem discorda de nossos princípios. Lutamos por justiça, mas não raro bradamos alto a quem quiser ouvir as ofensas que nos atingiram. Tentamos incessantemente curar nossas dores nos igualando a quem é o oposto do que somos.

O mundo precisa de pessoas dispostas a doar amor, solidariedade e compaixão. Não tenha medo, olhe para o seu próximo como a um irmão. Se disponha a sentir o que o outro sente ao invés de lhe atirar pedras pelo que ele faz.

Muitas vezes você vai encontrar alguém que você acha muito bobo, ingênuo e carente de atenção. Outras vezes irá se deparar com pessoas cheias de sabedoria e que lhe passam a impressão de que não precisam aprender mais nada. Outras vezes, ainda, encontrará aqueles que parecem endurecidos e amargos pela vida. Mas do outro lado de seu ser haverá aqueles que poderão achar tudo isso de você.

A diferença entre você e o outro é que você pode ter um olhar de respeito e compaixão, você tem o poder de controlar o que acontece em seu coração, mas as atitudes do outro dependem dele e de mais ninguém.

Mantenha sua consciência sempre alerta sobre o fato de que não sabemos nada sobre a vida, que precisamos de disposição e muito amor para aprendermos uns com os outros. Esteja preparado para derrubar as muralhas de certezas que te cercam e olhe para a vida com olhos de aprendiz, aproveite a oportunidade que Deus te deu de estar aqui em meio a essa linda diversidade de opiniões, personalidades e escolhas. E então aproveite as pessoas especiais que irão aparecer em sua vida para te salvar dos seus fantasmas interiores que não te deixam seguir em frente.

Respeitar ao invés de atacar, perdoar ao invés de odiar, entender ao invés de julgar... O desconhecido gera medo e o medo gera o preconceito. A cura para a doença social chamada julgamento começa na consciência de cada um de nós em respeitar as diferenças e aprender com o novo.

Autismo é vida – me ame como sou

Kenya Diehl

Texto dedicado à minha mãe do coração - Fatima de Kwant, que sempre me coloca para pensar e me faz ver a beleza e a magia da vida.

2 comentários:

  1. Você é uma pessoa muito especial em termos de sentimentos, pensamentos, atitudes...tenho muito a aprender com você, uma delas é perdoar os que me magoam. Para as pessoas "ditas normais" isto é muito difícil. Bj no coração. Marlise

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    1. Querida Marlise,
      o principal passo você já deu, que é a vontade de aprender. Você tem bondade e humildade e isso é lindo. Obrigada por escrever. Beijos no coração.

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