Total de visualizações de página

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Autismo x bipolaridade

A sensação de desajuste com o mundo por vezes pode ser devastador. Acho que as pessoas não conseguem entender o que sinto, por mais que eu tente me expressar e falar como vejo as coisas, como são as sensações... Acredito que somente quem as sente é que consegue verdadeiramente imaginar a angústia de uma pessoa autista tentando se encaixar em sua sociedade adoecida de preconceito e carente de amor ao próximo.

Muitos perguntam que tipo de autismo tenho, afinal, sou "normal", sorrio, converso, dirijo, não aparento ter nada de errado...

Mas o que não percebem é que o autismo de alto funcionamento e com desenvolvimento de habilidades as quais temos hiperfoco, é como qualquer outro transtorno mental. Veja, nunca ouvi alguém dizer que determinada pessoa não parece ser bipolar poque ela é normal! Mas quem nunca conviveu com alguém bipolar nem imagina que a pessoa bipolar perde empregos, família, estudos, perde inclusive a dignidade se não tiver o atendimento de saúde adequado, por vezes se afunda em vícios como álcool e drogas licitas ou ilícitas, se tornam pessoas promíscuas, tidas como agressivas, inconvenientes e chegam até mesmo a cometer crimes sem que consigam controlar seus impulsos. A forma mais grave de bipolaridade também não aparece no rosto, geralmente a pessoa bipolar na "fase baixa" como dizem, é aquela pessoa legal, divertida, que tem solução para tudo e aproveita a vida como se não houvesse amanhã, porém, em surto, pode te quebrar inteiro se você lhe dirigir um breve olhar.

Não estou, nem de longe, comparando o autismo à bipolaridade, estou sim relacionando a não visibilidade do transtorno, da deficiência e o consequente preconceito por parte de quem vê de fora e julga "fácil" ser autista leve.

O que muitos pais não sabem é que todos os transtornos mentais são próximos uns aos outros e, portanto, há a chance de uma pessoa autista acabar desenvolvendo bipolaridade ou esquizofrenia, entre outra coisas, se houver a predisposição genética para tal.

E então acabam caindo no erro de acreditar que tem um filho autista severo, quando na verdade, ele está com a comorbidade da bipolaridade que transtorna seus pensamentos, enlouquece suas idéias e o faz quebrar tudo o que vê pela frente. Não tratam como deveria ser tratado, pois o tratamento para a bipolaridade é totalmente diferente do tratamento para o autismo. Em havendo as duas condições na mesma pessoa, se faz indispensável a abordagem de ambos os transtornos, tanto terapêutico, medicamentoso ou até mesmo nas terapias alternativas.

O importante é não ignorar os sinais, não se conformar com palpites de quem "acha" que sabe alguma coisa ou ficar com a verdade de apenas um médico que avaliou.

Eu sou autista, não tenho transtorno bipolar, mas sofro de depressão, enxaqueca, gastrite crônica e tenho o meu corpo todo ferido (articulações desgastadas, artrose na coluna, bursite no ombro e quadril, condromalácia e cisto de baker nos dois joelhos, canelite, costocondrite, cicatrizes de auto agressão nas pernas e desgaste da articulação da mandíbula pelo tencionamento da face). Tudo isso me coloca em alto risco se eu não tiver o acompanhamento direcionado para tais situações... Por vezes já pensei em suicídio, especialmente quando fui humilhada ou fui alvo de piadas em grupos de pessoas que não me respeitaram.

Quando me sinto sozinha eu sofro, porque quero muito estar com as pessoas, eu desejo ir nas suas casas, recebê-las na minha residência ou ir a um parque ou shopping, cinema... Amo estar acompanhada, conversar, rir, mas o pior de tudo é que o medo me trava, não consigo me imaginar mais do que poucas horas de intimidade com quem quer que seja - o que é bem diferente de situações em que eu esteja trabalhando - pois eu só assumo trabalhos que me dêm prazer e são justamente os momentos em que mais me sinto feliz.
Mas querer estar com as pessoas e sentir medo, angústia, desajuste, suadores, tremores, isso é horrível, é solitário, é desesperador. O que me domina é medo de ser mal interpretada, de acharem que sou falsa, boazinha demais com o intuito de segundas intenções e outras coisas piores. Já fui muito agredida por ser só eu, pois quando eu amo eu amo de verdade, não falo pelas costas, não faço fofocas, não traio, não julgo, falo o que precisa ser dito sem rodeios, sem frases de duplo sentido, se preciso perguntar não mando recado, esclareço tudo na hora e dificilmente me incomodo com o comportamento de alguém. Não consigo ver onde está o meu erro nisso, acredito que todas as pessoas deveriam ser assim, sinceras, verdadeiras e diretas, isso pouparia uma grande perda de tempo com dúvidas bobas que só atrasam a humanidade... 

Não julgue o autista, não o defina pela "cara", comportamento ou aparência. Por mais que nos esforcemos para nos ajustarmos, o sofrimento e a solidão são gigantes, a sensação de incompetência, pouca importância ou esquisitice nos faz às vezes não querer sair de casa.

Busque compreender todos aqueles que não se deram bem na vida... Não deseje o mal, não seja vingativo, preste sua solidariedade.

Costumo dizer que a deficiência mental é muito mais triste e complicada do que a deficiência física, pois não existem próteses que disfarcem o que somos em nossa essência. Mas quer saber? Antes autista do que mau caráter ou arrogante, pois eu sei que tudo que sai de  mim é verdadeiro, eu posso controlar as minhas atitudes, o resto é por conta do Universo.

Um beijo muito carinhoso,

Kenya Diehl
Autista, mãe de autista
Escritora, palestrante e blogueira

Assista aos vídeos do meu canal: www.youtube.com/kenyadiehl






Nenhum comentário:

Postar um comentário