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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Autismo - A deficiência difícil de ser adaptada à sociedade

Você consegue imaginar o quão traumático pode se tornar para um autista a visita a uma loja de departamentos? Algo tão comum à grande maioria da população. 

Hoje em dia temos rampas de acesso e esteiras deslizantes para cadeiras de rodas, piso tátil e escritas em braile para cegos, profissionais capacitados para atendimento em libras para surdos, mini motos pilotáveis com assentos confortáveis para idosos que não aguentam caminhar por muito tempo e até carrinhos especiais com cercados para cachorros, tudo para que ninguém se sinta excluído ou impelido a ficar do lado de fora.

Acontece que para o autismo não há muito o que se fazer além de disponibilizar uma vaga preferencial no estacionamento bem próxima à porta de entrada e saída para o caso de uma crise e atendimento preferencial na fila de pagamento para reduzir o tempo de espera e a consequente ansiedade de autistas e seus acompanhantes.

Mas ao entrarmos em uma loja dessas, sentimos todos os cheiros, de objetos novos saídos das caixas, de perfumes exagerados de senhoras, de suor e gases de todos os tipos, de lanches, plantas e animais... 
Ouvimos todos os sons, conversas, sussurros, beijos, discussões, toques de celulares, caixas registradoras, batidas de saltos no chão, arrastar de chinelos, sacolinhas plásticas sendo jogadas ao ar para serem abertas, painéis numéricos para alertar os clientes sobre o caixa a ser seguido e o terror maior do mundo - alto-falantes que dão avisos. 

Ainda há a imensidão de cores, opções intermináveis de modelos, tamanhos e formas, luzes, ventiladores... Vendedores imprevisíveis que ora atendem com excesso de insistência, ora com indiferença ou, raramente, com simpatia e equilíbrio e se tornam fonte de medo para nós pela sua imprevisibilidade. 

Quando finalmente escolhemos o que queremos, há a ansiedade sobre a máquina de cartões estar online, sobre não sabermos se temos limite suficiente no cartão ou se lembramos de pegar a carteira antes de sair de casa. E, ao chegarmos no estacionamento, será que seremos xingados, julgados ou humilhados por termos nosso direito de estacionar na vaga para deficientes?

Fazemos manobras, colamos adesivos no carro, usamos camisetas de conscientização, carregamos panfletos, mas a dificuldade é grande, o obstáculo é imenso e o medo pode tomar conta de nós e botar tudo a perder. 

Não há como diminuir nossa dificuldade de socialização e nem como diminuir nossa sensibilidade, mas podemos ser respeitados, menos cobrados e menos humilhados quando não superamos as expectativas dos familiares e da sociedade. Ao termos nossa deficiência respeitada, assim como nosso tempo limite e nossa capacidade de aguentar. Então vamos criando confiança e aguentando cada vez mais a super exposição de nossos estímulos. 

Meu filho conseguiu ir à uma loja da famosa Leroy Merlin e até tirou foto em meio às centenas de luzes e luminárias. Um feito que um dia pareceu impossível até mesmo em nossos sonhos. Não foi fácil, não foi um longo passeio. Mas com as devidas adaptações, como conversar antes, combinar de sairmos caso ele não aguentasse e deixar ele livre para explorar o ambiente fez com que conseguíssemos comprar o que precisávamos e comemoramos muito depois.

Não desista, não deixe o desespero tomar conta de você, tente, mude de tática quantas vezes forem necessárias, espere o tempo do seu filho e siga pelo caminho do amor. A espera vale a pena e a recompensa é a vitória.
Não somos perfeitos, mas ninguém o é, não somos especiais, mas precisamos de cuidados especiais, não somos anjos, mas amamos tanto quanto eles. Esteja disposto a conhecer o coração de um autista e se apaixone perdidamente pelo universo de sinceridade e amor.

Kenya Diehl
Autista e mãe de autista
Escritora, blogueira e palestrante
www.kenyadiehlautismo.com.br
www.youtube.com/kenyadiehl

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