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sábado, 27 de outubro de 2018

Nunca desista de seus sonhos...

 
 Muitas pessoas não sabem, mas uma de minhas distrações favoritas antes de engravidar era pilotar motos. Sempre gostei de qualquer coisa que fosse relacionada à precisão e que, de certa forma, envolvesse responsabilidade e atenção. Por isso sempre gostei de atirar, costurar e pilotar. Cheguei a ganhar prêmio em campeonatos de tiro, costurei peças inteiras de roupas e saí do país pilotando... 

   Já me acidentei em uma época em que eu não tinha noção de perigo e acabava, por consequência, me colocando em riscos desnecessários. Quando engravidei, descobri a gestação distante de casa, em um país vizinho, em uma viagem de moto. Voltei daquela viagem sonhando em como seria minha gestação... Bom, a partir desse momento tudo mudou, parei com a prática de tiro  pelo excesso de adrenalina, parei de pilotar para não me machucar caso caísse e parei de costurar por falta de tempo mesmo.

   Tive anos difíceis desde a gestação, nascimento e primeira infância do Guilherme, perdi totalmente o controle de minha vida e me dediquei a resgatar meu filho do autismo que insistia em invadir a vida dele rapidamente.

   Nunca me preocupei sobre o que pensavam de mim. Era sustentada pelo meu marido, não trabalhava fora, não saía com amigos, não tinha distração nenhuma a não ser cuidar do meu filho e, quando sobrava tempo, eu arrumava a casa, lavava roupas, cozinhava, lia e orava. Na verdade a oração estava constantemente em minha cabeça e em meu coração. A fé foi o principal elemento que me manteve forte e com coragem para continuar. Dei tempo ao tempo e me concentrei em minha grande missão...

   Aos poucos fui retomando minha vida, um pequeno passo por vez, a cada melhora do Gui, uma noite de sono que eu recuperava. Comecei a escrever, palestrar, atirar, estudar e finalmente, voltei a pilotar.

   Na minha época de solteira, antes de ser mãe, pilotava motos de grandes cilindradas, mas dessa vez optei por uma pequenina Neo automática, baixinha e de poucas cilindradas. Dei uma volta na quadra - para total desespero do Guilherme - e, quando retornei, cerca de dois minutos depois, ele estava aos prantos, apavorado com a ideia de que eu iria sair e não levá-lo comigo. Parei em frente ao portão, coloquei o seu capacete em sua pequena cabeça, ele então subiu na moto e se abraçou em mim...

   Passeamos calmamente, o vento estava frio, gostoso, entrava pelo nariz e podíamos sentir circular pelos nossos pulmões até oxigenar as células de nossa pele. O motor silencioso, emite vibrações para o nosso corpo de forma a sermos estimulados em todos os nossos sentidos. Ali, naquele momento, senti como se fôssemos um novamente - extensão do corpo um do outro - as batidas do coração, a liberdade... A cada curva e consequente linha reta encontrada à frente nos sentíamos vencedores de nossa própria história. Não queríamos voltar, não queríamos parar, foi um momento que representou todo o nosso período de reclusão, de luta, de todos os sonhos os quais abrimos mão para buscar algo maior, não somente a melhora do Guilherme como um todo, mas a nossa missão de ajudar, inspirar e motivar as pessoas a realizarem os seus sonhos e acreditarem em um futuro melhor.

  Não foi uma simples etapa vencida ou retomada, foi a representação de nossa coragem, persistência, paciência e humildade em saber esperar, em acreditar que Deus sempre recompensa aqueles que enxergam além do que os olhos humanos podem ver. Sei que ainda há muita luta pela frente, mas não importa o quanto isso demore, estaremos firmes, resilientes e com gratidão por tudo o que conseguimos até aqui.

 
 O autismo me tirou muitas coisas, mas me presenteou com um filho que colocou tudo exatamente em cada lugar onde deveria estar, como as pessoas que nos cercam, as viagens que adiamos e o quanto nos transformamos. Tudo isso se deu com a nossa capacidade de aceitar, amar e se entregar a cada segundo como se fosse o último. 

   Quando se recebe o diagnóstico de autismo de um filho, imaginamos que este seja o fim, mas na verdade é o começo de uma nova vida, onde tudo passa a fazer sentido e o amor prevalece sobre todas coisas ao nosso redor. 

   Não desista de seus sonhos, aceite a dor, aceite as pausas necessárias e transforme-se em sua própria força para vencer.

   Autismo é vida - me ame como sou

   Kenya Diehl
   Consultora, Escritora, Palestrante e Blogueira
   www.kenyadiehlautismo.com.br
   www.olhandonosolhos.com
  

3 comentários:

  1. Kenya, vc enche meu coração de esperança e força pra continuar lutando. Q Deus te abençoe sempre

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    1. Que alegria, pena que não assinou, mas senti daqui o carinho em suas palavras. Muito obrigada. Deus te abençoe.

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  2. Kenya, vc enche meu coração de esperança e força pra continuar lutando. Q Deus te abençoe sempre

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